Um corte em silêncio

Certa vez, achei que havia encontrado o único cabeleireiro silencioso do mundo. Foi numa época de magérrimas vacas, e adiava o corte à espera de condições que fizessem coincidir a) ter 10 reais disponíveis, b) haver um salão decente que estivesse em megapromoção, c) eu saber disso, d) preferencialmente, que as três condições anteriores me permitissem cair na mão de alguém bom de tesoura. Pois aconteceu. Estava Rua da Praia abaixo no fluxo do horário comercial e pimpa! Corte a 10 reais na CorteZero da Andradas, em plena segunda-feira.

Entrei, confirmei a barbada e a moça “tem preferência por alguém?” e eu que não, “pode ser ele?”, indicando um rapaz na última cadeira. Sentei cumprimentando bom-dia e lhe disse como queria, curto, em camadas, franja repicada … em cada manifestação de desejo minhas mãos modelavam o cabelo, performance que eu queria instrutiva o suficiente pra evitar um desastre novo na minha vida já despencada ladeira abaixo.

Tesoura a postos, foi modelando o corte nos cabelos molhados e me parecia bem adequado ao que havia pedido, e o primeiro “trilegal” foi antecipado quando vi refletida no espelho minha metade nova. Na comparação, aplaudia minha decisão, agradecia pela convergência das coincidências e pela graça das habilidosas mãos do rapaz. Quando finalizou o corte, procurou meus olhos e os encontrou felizes na cara agora risonha.

Agradeci, levantei, paguei à moça da recepção e só então, já com meio corpo na rua, me dei conta e voltei. “É a primeira vez que corto o cabelo com alguém que fica em silêncio”. Ele é mudo, disse-me ela e disse-me eu Enfim. Alguém. Que. Respeita. A. Dura. Decisão. De. Cortar. O. Cabelo. A. Quem. Duas. Lâminas. Atacando. A. Cabeleira. Soam. Como. Um. Prenúncio. De. Mudanças. Importantes.

Me lembrei disso em Uma/Duas, da enorme Eliane Brum, cuja personagem narradora festeja o fato de ter feito um taxista se calar durante o percurso.

Se a quisermos minimamente verossímil, nem mesmo na ficção isso seria possível com um cabeleireiro.

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Venite

Beni

bem bom

Veni vem vou

Beni vem vai

Venite, Beni!

 Adoremus


Caro Carpinejar:

Fui sua colega por um dia, no mestrado em Letras\UFRGS, em 1998\9, não tenho muita certeza. Era uma aula do Fischer, eu entrei uma semana depois do início da aula, no segundo semestre do curso, desertando da pós em Linguística. De terno, você sentava ao lado dele, comentando o “À Mão Esquerda”. Quis muito me meter na conversa, eu tava lendo o Wolff, meio chapada com aquela versátil e bruxuleante alteração de ponto de vista a cada capítulo. Mas eu sofro de timidez crônica, e calada estava, calada fiquei.

Quase uns 12 anos depois disso, dia desses chega na minha casa em Aracaju uma Zero Hora mandada por uma tia de Flores da Cunha que acrescentou a edição da ZH às do jornal O Florense, enviadas religiosamente a cada vez que chegam aqui na capital sergipana as encomendas de farinha pra pão, amendoim do grandão, chimia de figo, compotas, réstias trançadas de cebola e alho, sálvia fresca, eventualmente alguma muda de planta e frutas e legumes de cada estação (pinhão e a montenegrina: os ++).

O lícito contrabando vem por amigos caminhoneiros que puxam carga pras bandas de cá com relativa frequência: eles nos avisam que estão subindo e passamos a lista de encomendas à tia, dando a partida pras compras e fechamento de caixas antes de fecharem a carga.

A chegada do caminhão, como você bem pode imaginar, é sempre uma festa, motivo de telefonemas monitorando as horas que nos separam da abrição de caixas: a reunião familiar é uma verdadeira algazarra de divisão dos bens entre nós cinco, gaúchos migrados pra cá (minha irmã primeiro, no início dos anos 80; em 97, meu irmão e meus pais; e eu, menos de uma década depois).

Isso tudo te contei pra te dizer que foi mergulhada nessa revivência de “ser de Flores da Cunha” promovida pela chegada da muamba que li o teu texto “vida de gringo”: me devolveu de volta pra casa, ali, no meio daquele cenário de olfatos e texturas e cores e notícias velhas mas recém-chegadas de lá.

Mais uma vez, a poesia opera milagres.

Grata por esse seu.


A 30 dias do 20 de setembro

Sei, falta ainda quase um mês, mas já que não vou pro churras e pro carreteiro lá do Harmonia, rendo homenagem aqui a quem me  torna possível “ser gaúcha” a três mil km de distância.

♥ À Barão de Cotegipe, que me manda erva-mate pelo correio a cada 60 dias. Chega aqui a 10 pilas por quilo. Eu pago bem feliz.

♥ À vitivinicultura da serra gaúcha, por expandir mercado até as bandas acima da linha do Equador. Cada vez mais variedade. E qualidade. Tim-tim.

♥ Às amigas Rosa e Rosângela, pelas impagáveis comprinhas que tem só na fronteira com o Uruguai.

♥ Ao inventor do isopor, que me permite trazer a costela quando volto da capital gaúcha.

♥ À Susana Gastal, por elevar o portoalegrês ao mais alto refinamento intelectual, sem frescura nenhuma.

♥ À Ana Zilles, que me mandou o livro do Vitor Ramil.

♥ Ao Simões Lopes Neto, por “O Negro Bonifácio” e por “Trezentas Onças”. Ao Érico, pelo “O Continente”; ao Quintana, pelo “Mapa” de Porto Alegre. Ao Scliar, por ter respondido meu e-mail.

♥♥♥ Ao Cavanhas (da Demétrio para a Lima e Silva),  o melhor xis do mundo.

♥ Ao Beto Vianna, que é lindo até pilchado e que maneja uma faca como ninguém.

♥ ∞ Ao Kleinowsky. A primeira vez que o vi, estava de camiseta branca, bombacha, boné de couro, mala de garupa e chinela campeira. Foi embora da minha vida pela primeira vez cantando “Veja que cabeça louca: pondo teus olhos em mim // Eu que sempre ando depressa não vou te fazer feliz // Esquece de mim, te peço, eu sou como o Uruguai // Que sem deter sua marcha, beija a barranca e se vai”. Uma hora dessas, ele sai de um outro fandango pra estar comigo.

♥ À tia Clarice, que compra/encomenda/organiza/empacota as gordiças gaúchas: amendoim do grandão, chimia de figo, queijo de campo, linguiça de colônia, alho e cebola de casca amarela em réstias trançadas, vinho, farinha de trigo especial e as guloseimas de hortifruti de cada estação. Pinhão, laranja de umbigo e berga montenegrina das Antas são hors concours.

♥ Aos caminhoneiros florescunhenses Bonzo e Perachio, que atravessam três mil e trezentos quilômetros  de país com nossa muamba na boleia do caminhão.

♥ Ao meu irmão Moisés, que ainda se emociona contando causos da fronteira, dos tempos que ele morou em Quaraí, pelos churras impagáveis na churrasqueira perto do mar, pela “oitiva” à moda campeira e por afiar minhas facas de cozinha.

Mas, ainda que eu ache o máximo isso tudo, depois de 10 anos na estrada, penso que podiam mudar o hino: aquela coisa de “Sirvam nossas façanhas De modelo a toda terra” é meio demais, né não?


Discurso de Paraninfa – Jornalismo Unit 2011/1

PROFESSORA VALÉRIA BONINI, COORDENADORA DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE TIRADENTES; COLEGAS PROFESSORES E DEMAIS COLEGAS DA UNIT,QUE TAMBÉM RECEBEM A HOMENAGEM DESTA TURMA DE FORMANDOS. CAROS ALUNOS E EX-ALUNOS E QUIÇÁ, FUTUROS ALUNOS, AQUI PRESENTES. PREZADOS PAIS E DEMAIS FAMILIARES, AMIGOS, NAMORADOS E NAMORADAS, PARCEIROS PRESENTES OU JÁ AUSENTES NA VIDA DE CADA UM DE VOCÊS.

QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS: AISLA, IGOR, ALINE, RENATO, NEVERTON, WILSON, TIFANY, ROSENDO, CEIÇA, LUCIVANIA.

AGORA, AQUI, ENQUANTO ESCREVO ESTE TEXTO, EVOCO OS NOMES DE VOCÊS PELA MEMÓRIA, SEM PRECISAR DA AJUDA DA ORDEM ALFABÉTICA. E SEM HESITAÇÕES, ASSOCIO O NOME À PESSOA, COM ABSOLUTA TRANQUILIDADE.

A ÚNICA DÚVIDA QUE PAIRA É SOBRE CAROL E DANI. OU SERÁ DANI E CAROL? DOU UMA ESCAPULIDA RÁPIDA E JÁ QUE NÃO TENHO MAIS A LISTA DE CHAMADA COM O NOME DE VOCÊS, PEGO COLA NO CONVITE. MAS AINDA ASSIM, NOS BREVES SEGUNDOS ENTRE FECHAR E ABRIR OS ARQUIVOS NA TELA DO COMPUTADOR, A MEMÓRIA ME TRAI E FICO SEM SABER SE A CAROL É AQUELA QUE DANÇOU MUITO NA AULA DA SAUDADE OU SE É AQUELA QUE DORMIU DE CANSAÇO À BEIRA DA PISCINA. FICO SEM SABER SE A CRIADORA DE HAMSTERS É A DANI BIJU OU SE A QUE GOSTA DE ROSA PINK É A CAROL. E AINDA AGORA, OLHANDO PRA VOCÊS DUAS DAQUI, SE TIVER QUE NOMEÁ-LAS, NÃO SERÁ SEM ALGUMA AFLIÇÃO.

MAS, SE HOJE TIVESSE SAÍDO UM JORNAL FEITO POR VOCÊS, EU TERIA BOAS CHANCES DE SABER QUAL TEXTO É DE QUEM, MESMO QUE NÃO HOUVESSE A ASSINATURA EM CADA UM DELES E MESMO QUE O LEAD TIVESSE TORNADO MAIS OU MENOS HOMOGÊNEA A ESTRUTURA DOS TEXTOS.

MAS ISSO NÃO É O MAIS IMPORTANTE, POIS ACHO QUE SE ESPERA DE UM PROFESSOR QUE ELE RECONHEÇA A ESCRITA DE SEUS ALUNOS DEPOIS DE 5 SEMESTRES DE PRODUÇÃO TEXTUAL.

O MAIS IMPORTANTE É QUE SE HOJE TIVESSE SAÍDO UM JORNAL, EM EDIÇÃO ESPECIAL, A CHAMADA PRA MATÉRIA PRINCIPAL PODERIA SER ASSIM:

12 NOVOS JORNALISTAS PRA N DÚZIAS DE MATÉRIAS

NOVOS GRADUADOS EM JORNALISMO PELA UNIT SE INTEGRAM À IMPRENSA SERGIPANA

MAS TAMBÉM PODERIA SER ESTA:

 JORNALISMO SERGIPANO RECEBE 12 NOVOS PROFISSIONAIS

OU AINDA

DESAFIOS DIÁRIOS ESPERAM NOVOS PROFISSIONAIS DA IMPRENSA LOCAL

OUTRO POSSÍVEL

12 CABEÇAS E 12 SENTENÇAS: O COTIDIANO DE SERGIPE RETRATADO POR DIFERENTES PONTOS DE VISTA

MAS TAMBÉM PODERIAM SER OUTRAS AS CHAMADAS PRA MATÉRIA PRINCIPAL, SE COMO LEITORES, A GENTE PUDESSE LER TAMBÉM  A VIDA QUE ESTÁ ANTES E JUNTO COM ESSA MATÉRIA, SE ELA TIVESSE A ASSINATURA DE CADA UM DE VOCÊS: UMA MATÉRIA ESPECIAL EM CADA PÁGINA.

NESTA CONDIÇÃO, DE LEITOR ONISCIENTE, DE UM LEITOR QUE TUDO SABE E A QUEM SERIA FACULTADO O CONHECIMENTO DO CONTEXTO,  DOS MODOS DE PRODUÇÃO E DOS PROTAGONISMOS PESSOAIS QUE ANTECEDEM A ASSINATURA NESTA MATÉRIA HIPOTÉTICA, NESTA CONDIÇÃO DE LEITORES PRIVILEGIADOS, É BEM PROVÁVEL QUE A GENTE LESSE SUBTEXTOS À MERCÊ DE VENTOS VINDOS DE DIFERENTES DIREÇÕES.

É COMO SE O TÍTULO DA MATÉRIA, EM CAIXA ALTA E NEGRITO, CORPO 16 EM PRETO A 100 POR CENTO, FOSSE SENDO SOBREPOSTO POR UM ENUNCIADO EM MAGENTA, PARTES DO ENUNCIADO VINDAS DE LUGARES DIFERENTES, AS LETRAS SE JUNTANDO EM PALAVRAS, ESTAS EM ARRANJOS DIFERENTES EM FUNÇÃO DOS 12 PROTAGONISMOS QUE TÊM EM COMUM A ESCOLHA PELO JORNALISMO COMO FORMAÇÃO E COMO PROFISSÃO.

EU, PROFE DE VOCÊS DURANTE CINCO SEMESTRES DO CURSO, ACHO QUE NÃO PRECISO DESSA LENTE MÁGICA PRA LER OS SUBTEXTOS DO TÍTULO “NOVOS GRADUADOS EM JORNALISMO PELA UNIT SE INTEGRAM À IMPRENSA SERGIPANA”.

ARRISCO DAQUI QUE PASSAM AGORA PELA CABEÇA DE VOCÊS VÁRIOS FILMES; ARRISCO DAQUI QUE VEM À CABEÇA DE VOCÊS A MEMÓRIA DOS PROTAGONISMOS QUE ANTECEDERAM E DEFINIRAM A OPÇÃO PELO JORNALISMO.

QUEREM VER?

“MÃE, PAI, CONSEGUI! BRIGADÃO, VIU? / CARA, ENFIM REALIZEI MEU SONHO! / QUE PENA QUE VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI! MAS EU TE GOSTO MUITO, VIU? SAUDADE! / UM ESTÁGIO, MINHA ESCOLHA! / 45 LINHAS – AGORA É MAMÃO COM AÇÚCAR! / NEM NAMORAR DEU TEMPO, DE TANTA COISA PRA FAZER! / JÁ TÔ COM SAUDADE DAS AULAS! / E O CAFÉ NAS MADRUGADAS DO TCC? / COESÃO LEXICAL OU GRAMATICAL? / CONSEGUI ESCREVER SEM ADJETIVOS! / PRONTO, AGORA É PARTIR PRA LUTA! / NORMA CULTA OU NORMA OCULTA? / SOB OUTRO PONTO DE VISTA, A HISTÓRIA SERIA OUTRA! / AQUELE VERBO DICENDI QUASE ACABOU COM MINHA MATÉRIA! / AH, SE O BANCO DO CCS FALASSE! / CONCRETUDE NELES! / AH, AQUELA NOITE DEPOIS DA AULA! / E O MACARRÃO SEM MOLHO DE TOMATE? / LEMBRA DAQUELE NOSSO SÃO JOÃO? / DE 65 LINHAS A 65 PÁGINAS: UM LIVRO-REPORTAGEM PELA FRENTE! / E AS NOITES VIRADAS ANTES DAS PROVAS?

PERGUNTAS APENAS RETÓRICAS, POIS QUE AS RESPOSTAS JÁ FORAM DADAS NO PERCURSO, E HOJE FAZEM A FUNÇÃO DE SITUÁ-LOS E ACOLHÊ-LOS NA ALEGRIA DA REALIDADE E CONCRETUDE DESTE MOMENTO EM RELAÇÃO AO SONHO E AO DESEJO DE SER JORNALISTA. AGORA VOCÊS SÃO JORNALISTAS.

E EU SOU PARANINFA DA TURMA DE VOCÊS. AQUI, DESTE LUGAR DE HONRA COM QUE VOCÊS ME PRESENTEARAM, COMO PROFESSORA, DIGO COM TOTAL TRANQUILIDADE: FOI O MELHOR QUE EU PUDE FAZER, MEU TRABALHO COMO PROFE É O MELHOR DE MIM.

MEU DESEJO É QUE EM CADA MATÉRIA QUE VOCÊS PUBLICAREM, EM CADA TRABALHO QUE VOCÊS FIZEREM, SE POSSA LER, COM AQUELA LENTE MÁGICA ACIONADA PELOS PROTAGONISMOS DE CADA UM DE VOCÊS, SE POSSA LER “ISSO FOI O MELHOR QUE EU PUDE FAZER”, “ESSE TRABALHO É RESULTADO DO MELHOR DE MIM”.

MUITAS OUTRAS ALEGRIAS PRA VOCÊS.

OBRIGADA


Quase à meia-noite em Paris

O editor do Balaio de Notícias e ex-aluno Paulo Lima sugere que eu escreva um texto sobre minhas impressões da capital francesa, no contexto da nossa rápida conversa sobre “Meia-noite em Paris”, o último filme do bruxo WA. Ainda não vi o filme. Mas, sim, estive na cidade-luz.

Bom, então tá, lá vai, confesso: não vi o Louvre por dentro. Do Pompidou, estive apenas na despirocante livraria e vislumbrei a arquitetura do prédio, assim, por fora, à noite. De Versailles, só a grande fachada iluminada antes de entrar para o espetáculo de balé no teatro do palácio onde Antoinette orquestrava o ócio da corte.  Notre Dame e Torre Eifel também ficarão pra próxima viagem.

Mas a caminho do réveillon na Champs Élysées, entrei na estação de metrô de La Chapelle às 22h50min. E essa foi a grande experiência da viagem a Paris. Conto por quê.

Havia umas vinte pessoas por metro quadrado nos abarrotados vagões embalados pra festa no conveniente entusiasmo geral das últimas horas do ano. A cada estação, as portas abriam apenas por que é a sina delas, definida pelo sistema: “em cada estação do metrô, as portas devem abrir e fechar após 30 segundos”. Abriam só pra lufada de ar gelado varrer o mormaço úmido dos perdigotos de muitas línguas,  e então o ar de janeiro redobrava os ânimos das gentes do vagão e mantinha acordadas as gentes que em cada estação não conseguiam embarcar e que provavelmente passariam a virada no ano ali naquela estação subterrânea do metrô parisiense.

Encantoada no ângulo das paredes entre um vagão e outro, nunca até então estivera tão coladamente perto de alguém num espaço público: um legítimo corpo a corpo, o meu encaixado nos microinterstícios entre Kika, Mohand, Julio, Thiana e os outros 15 de nós por metro quadrado, todos mantidos ilesos pelas camadas de roupa reduzindo o atrito entre os corpos todos mantidos eretos pelo apinhamento de diferentes narizes e olhos e peles, uma arca de Noé multiétnica deslizando sobre trilhos em direção ao ano novo. Entremeados pelo riso cheio de dentes e pelo hálito rescendendo ainda ao nosso honorável omelete, os olhares de Kika e Mohand me garantiam que isso era divertido. Bastava relaxar, até por que nada mais havia a ser feito.

E assim, no trajeto entre as talvez quatro estações de La Chapelle até o Arco do Triunfo, em sussurros dissimulando alguma espécie de medo, me juntei à cantoria babelística embalada pro futuro que começaria em menos de uma hora. Nesse trajeto de não mais de 40 minutos num espaço físico microcompartilhado com outras gentes cujas vidas eu ignorava completamente me dei conta de que minha colossal presença no mundo deve-se apenasmente ao fato de eu ter um corpo.

Uma cidade só interessa pelos fantasmas que ela evoca ao estarmos nela com este corpo que dá concretude a uma existência. Um corpo só está numa cidade se os fantasmas cativos dessa existência lhe forem alforriados. Havia posto os meus pra correr mundo afora ainda durante o percurso Bruxelas-Paris nos campos de neve, pois sabia que Paris é pródiga em fantasmagorias.

E assim, na minha primeira vez na cidade, pude cutucar fantasmas novos pra mim. Fiquei à escuta deles enquanto subia as ladeiras do bairro boêmio. Fiquei à escuta deles naquele molho voluptuoso de alho poró, que submetido a um rewind, volta de mão em mão até ser devolvido inaugurando a terra em semente. E ali, aquele homem plantando a semente pensa na lista de compras e na chuva que não vem. Cutuco outro fantasma ao olhar pro chão: naquela fresta mínima entre duas pedras da rua abriu-se um clarão pra outra honesta vida de plenitudes cotidianas e comezinhas. No bar da esquina, presumi ter sentado ali um homem que pediu um café no meio da manhã antes de voltar pra casa e escrever uma carta em silêncio. No moinho de vento calculei os corpos a rodo que cabiam naquela rua tentaculosa de fantasmas deixados quietos. Mas não resisti e cutuquei uma legião deles com o viço da língua-mãe comum denunciada na placa que anunciou a colheita da uva.

Nas ruas de Paris há uma ancestral vitalidade de histórias que se sobrepõem à minha, e ao parar ladeira acima e com o lenço de papel assoar meu nariz pari um fantasma natimorto. Era um insistindo em enquadramentos na vertigem alucinada de informações disponíveis sobre estar ali. Mas queria apenas estar ester em paris. Mesmo que no alto de Montmartre haja zilhões de olhares e outros zilhões de corações consagrados à paisagem, sabia que teria sido suficiente apurar a escuta pra que, sob os refrões globalizados cantados pela multidão na escadaria gelada, fosse ouvido o silêncio visceral de um ponto de partida. Que é sempre outro, dada a profusão incomensurável de fantasmas que podemos evocar numa cidade assim.  

Minha “Quase à meia-noite em Paris” foi o marco zero pra uma outra vida que construo agora, simplesmente por que antes de estar sob o Arco do Triunfo pra virada do ano, eu estive num vagão de trem onde o fato de eu existir deixou de ser a coisa mais importante pra mim.

A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de fantasmas que escolho a dedo. A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de outros corpos e seus fantasmas outros, numa bruxuleante alegoria de impressões de lugares onde estive e estou ester, seja em Paris ou na cozinha com o corpo em fogo brando.

(Os gatos contariam outra história. O corpo deles é de outra matéria.)


Sinal vermelho

Deslizando trôpego sobre as maçãs murchas da cara, o movimento iniciado na ponta da orelha vai recolhendo os parcos pêlos na direção da boca apenas pressentida.

Não havia espelho.

Não havia pia.

Não havia banheiro.

Não havia casa.

Era só um homem sob o sol da manhã, num restolho de civilidade urbana e burguesa, alheio a mim que lhe perscrutava o gesto.

Era só um homem ainda vinculado a si sob o ralo restolho da sua porção humana andarilhando em ruas desprovidas de caminhos.

Era só um gesto sobrevivido antes de provavelmente sucumbir à barba acumulada de muitas luas sob o sol a pino.  

Era só um rasgo no largo tempo desta manhã de sol, dois minutos talvez, até que o sinal abre e ele lava o que lhe servia de lâmina no pote de plástico ao lado.

Era só. Sequer um animal de companhia.

E sentado assim, na calçada da esquina, ele fazia a barba.