Arquivo da categoria: Proseando

Dos 50° aos 37°C, em silêncio

Foi um prendedor de roupas que caiu no piso da sacada. Uma das gatas deve ter empurrado um dos que deixei sobre a mesa ao recolher a toalha branca lavada do vinho tinto de ontem. Foi um de plástico. E foi Malu Cat.  Como sei disso? Diferencio o fagote do oboé entre os metais harmonizados às cordas do baixo e da viola de gamba em uma sinfonia. Tenho obrigação de saber que um de plástico foi empurrado com a pata até cair no piso segundos antes de a felina menor aterrissar em solo e encurralar o circunstancial brinquedinho no canto da sacada.  Me especializei com os gatos, claro, aquelas orelhas de flaps em semiarcos capturando sons que eu nem de longe imagino existirem, nem que eu esteja no mais absoluto silêncio dos fogachos na escuridão. Ainda assim, com este ouvido meramente humano, reconheço também o algodão nobre deste lençol onde me deito: microestalos em ondas até moldar meu corpanzil gelatinoso à inescapável depressão do colchão, agora de novo um oásis seco onde repouso das umidades do corpo suando em bicas a cada nova onda de calor.  A toalha úmida é um refresco deixando uma faixa de pêlos eriçados pelo caminho. Do pescoço às mãos, longitudes sob um sol a pino se alongam pra alcançar minhas costas em arco, bem como  faz Cloé Buscapé, na hora dos carinhos com a mão cheia sobre o pêlo. A toalha felpuda de algodão em relevos floridos é encharcada com os últimos emeéles da garrafinha, e quase dá pra ouvir as fibras de algodão se expandido no inchaço da água ainda fresca antes de evaporar sobre minha pele que ferve. A ‘por que não um banho’ respondo com a sonolência. Não quero acordar meu corpo. Preciso só descansá-lo deste calor. E entre uma onda e outra de fogacho me restrinjo a ficar ciscando nos sons da escuridão: a folha da bananeira raspa os relevos do muro, um caju cai na grama, uma porta bate na casa vizinha, toca um celular, a coruja pousa no telhado, minhas pálpebras se debatem, os cílios se encaixando como as lâminas de uma tesoura. Suspiro. Pronto. Passou. Estou fresca de novo.

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Joguinhos da vertigem

“No mundo da fantasia não há mais que duas possibilidades: ou o encontro com o passado” (Cesare Pavese) ou o movimento de um gato que corre pela casa e cujo mio se ouve ecoar, vindo de não se sabe onde. Adivinha-se pela disposição conhecida das peças – a sala, o outro quarto, a cozinha. Da varanda, se o mio for menos audível e mais agudo, pois lá embaixo sempre há uma ratazana saindo dos bueiros desta cidade sem túneis subterrâneos serpenteando merda e lixo até o mar. Os desenhos dele miam num meu passado. Quando os vejo, há um estremecimento de gozo primevo que primavera em mim. O traço é o de uma criatura que deixa rastros do rato deslizando vertigens do seu braço pra uma alma minha que se escolhe entre as outras de mim que ele inaugura.Fico horas querendo um dito pra traduzir isso e dizer pra ele que me queria sua musa.E não digo, pois não tenho como. Como acolher uma alma assim? Dar a receita de pão que ele não vai fazer? Ele desenha e escreve. E eu faço pão e comida achando que posso escrever assim alguma coisa perto da boniteza que é minha alma, um pão saído do forno. Fresca e marcada de dedos dos ázimos seculares na areia do deserto. Nenhum consolo em ter lembrado a receita e a palavra. Saber de ofício é não saber.  Marco os espasmos da minha escrita com esse bordado em cruz? Nas toalhinhas do enxoval, impossível traçá-lo. Entre um perfuramento e outro da agulha no terreno de algodão branco as distâncias nunca eram as mesmas; a direção, nunca certa. Tentava florezinhas que ficavam muito feias. Até desistir, produzi um cemitério de indigentes. Cenário pros natimortos da minha escrita.


A revolta dos bichos

“Animais soltos em rodovia estão matando motoristas” (Jornal da Cidade, 20 e 21 de janeiro, manchete de capa) 

O primeiro caso foi o de um jegui. Inconformado por ter sido substituído por uma moto, depois de anos e anos de trabalho sem as merecidas cenouras e os dias de repouso em dias santos, avançou a pista e se fazendo de tonto chegou mansinho no cara que trocava o pneu. Ficou ali, como extraviado estivesse, e o homem nem bola pra criatura. Depois de ter forçado com o pé a chave de roda no último parafuso e num movimento contínuo endireitado o corpo com a ferramenta na mão, o homem enxugou com a outra o suor da testa. Neste momento de cansaço e calor e suor e frustração porque ia chegar atrasado na festa, o homem foi atacado pelo jegui. Sua índole subserviente e plácida ficou no pasto. Ali, na beira da pista da beerre, o jegui se comportou como se touro fosse, e duas ou três corcoveadas foram suficientes para o homem jazer sob o sol e na quentura do asfalto. Do pasto do outro lado da pista, um cavalo observava orgulhoso a índole transformada do mamífero. Sempre achou que se não fossem as patas curtas, a lerdeza e a mansidão, quase passava por um pônei.  

O segundo caso foi o desse cavalo. Branco. Sem raça definida. Mas que também prestava bons serviços de um pasto a outro das vizinhanças há muitos anos, levando ora a colheita, ora as sementes, ora o adubo, mais ou menos trabalho a depender da seca. Isso sem contar as idas à igreja com a gentarada toda na carroça, aumentada a cada sítio na direção da cidade. Também se comportou como se touro fosse. Trocado por um trator e deixado ao léu, esperou e esperou e esperou. Queria pelo menos pegar um parente do cara que o explorou tanto tempo. No abandono das terras ressequidas, pasto ralo e água pouca, ficou só de tocaia. Conhecia os hábitos familiares. E o dia chegou. Na reta mais comprida do trecho, ficou à espreita, como se caçasse. Lembrava do ensaio tantas vezes calculado: os galopes, a velocidade necessária, a posição do sol. Na linha de saída, saiu galopeante quando viu a picape preta surgindo lá longe. Quinhentos metros, e ele indo, trezentos metros e ele indo, duzentos, cem metros, e ele indo. A 50 metros da picape o motorista não distingue o cavalo branco do areião ensolarado à frente. Só perto, bem perto do bicho é que a picape deixou um rastro preto no chão: o freio não segura, a picape se desgoverna e tomba, capota, ricocheteia, o motorista morrediço caído sob o sol e na quentura do asfalto. Do pasto do outro lado da pista, uma vaca bonomiosa rumina entre dentes que agora é sua vez.  

Pois esta criatura de olhar cândido tem uma história ainda mais humana. Era o bicho de estimação de uns retirantes no verão implacável de 2000. O caçula a batizara de Mimosa ainda bezerrona, a cara mansa e o olhar molhado. E lá iam eles, pobres, falidos e famélicos. Nem pensar matar Mimosa pra comer. O guri mais moço morreria junto e, além disso, precisariam dela quando encontrassem uma terra boa de plantar. E assim, numa noite em que os retirantes pararam pro descanso seu e do bicho magérrimo, o céu ficou de chumbo. Coisa rara por essas terras, as nuvens foram se adensando a cada lufada do vento, 40, 60, 80 por hora, enquanto se arregalavam os olhos daquela gente assustada com o que prometia ser a noite. No alvoroço em correr pra sair do céu aberto e revoltado sobre suas vidas, a Mimosa se escorregou de mansinho do lugar que escolheram pra se proteger. Sabia do risco e se escafedeu no campo aberto. Uma única árvore no meio do descampado. Tudo ressequido, mas pelo menos a grossura do tronco estóico e centenário poderia oferecer algum abrigo aos corpos esqueléticos, se esgueirando na árvore que fazia um vácuo da chuva armada de branco. Foi ali que caiu um dos inumeráveis relâmpagos. Carbonizadas as gentes, suas trouxinhas de roupa, suas duas panelas e as migalhas da fome. Mortalha do temporal. Foram dar conta do sumiço deles só muito tempo depois, fugidos da seca, nunca chegados a lugar algum. De Mimosa, tomou-se por pressuposto que havia sido sacrificada em nome da fome. Ninguém procurou por ela, ninguém perguntou por ela e ficou errante, ruminando cá e lá o pasto que se avultou maior por uns meses depois da tempestade. Nos povoados por onde esteve, se alguém humano a viu sabia que tinha dono e era só uma questão de tempo. Deixavam-na ficar. Deixavam-na ir. E nesta errância desgarrada de manadas, feita de mugidos solitários durante sete anos, a identidade perdida nos seus iguais, comportou-se como se touro fosse. Plantou as quatro patas tomando um lado da pista feito uma arena, e com as dianteiras alternando-se, atritava a lista amarela dupla em brabezas nunca vistas. Parada ali, esperou. Atacaria quem primeiro aparecesse. Viesse de uma pista ou de outra, o automóvel, caminhão ou moto faria sinal de luz, buzinaria insistentemente. Quando desviou pra outra pista pra se salvar do impacto com a vaca imóvel, a moto levou uma rabada forte o suficiente pra derrapar no asfalto. Moto e motorista se esfolando por 50 metros sob o sol e na quentura do asfalto. Depois do último gemido do motoqueiro, se ouviu um sonoro mugido. Era o sinal.

Reuniram-se os três: ela, o jegui e o cavalo e foram prestar contas ao touro mestre. Abandonado por ser estéril e substituído por inseminadores artificiais, lhe sobrara entretanto o ardil para liderar a revolução dos bichos: decidiram arrebatar outros largados na vida pra formar a gang assassina da beere. Aceitariam gatos, cachorros e ovelhas, sem desdenhar sequer de pássaros e répteis. Mal sabiam as gentes o que ainda estava por vir.


Ponto de vista

Metade. Uma fatia. Abacate sem semente. Deus errou ali. Muito grande. Pra que. Olha a mostarda, aquela sementinha de nada, que árvore, meu deus. Ponto pra ti. E dela, o que fizeste? Sopraste, só. Esqueceu de moldar, ficou a vontade de. Chegou a ser? Foi. Um resto de sol, visto do morro. Depois a noite no rio, lá embaixo. À beira, na margem. Felino faminto.  A canoa na água, terceira margem, a dela mesmo, rio adentro dela mesma, pedra rolada de rio. Cachoeira. Champanhe e gruta escura. A espera dela na queda d’água. Ficou. Embrenhou-se lá naquelas pedras, onde a água turbilhoa, lapida, nada de nado. Foi-se abissalmente. Tipo assassinada, pedra amarrada nos pés, jogada no rio.Podia, ah, isso sim. Como: amigou-se – plantas, pedras, pedras, pedras, pedras, pedras, pedras, pedras e areia. Uma sobre a outra. Brincadeira: pedaços de tijolo com terra, areia e cuspe. Bem assim. Vendaval, as ondas agitadas lá de cima. O rio calmo embaixo. Pedras e o cuspe das águas mesmas. Construção.Ela veio à tona, como uma verdade. Assim: o mundo recaiu pro outro lado, causa de que ainda não se sabe.Viram e o rio tinha sido. Aí, lógico: o rio, sertão; o mar, terra. Tirou a corda do pescoço e a pedra ficou com as outras tantas do rio, o que fora. O em cima das pedras, montanha. Olhou o sol do leste. A mão em concha sobre os olhos. Bati a porta. Entrou comigo em mim.Hoje uso meias nos nossos pés.


Brasil sem Copa

A rua estreitinha, quieta. A moça prolonga-se na rua a passos passeadores. Na quadra seguinte tem futebol. As goleiras de uma lado do campo são latas de suco; as do outro lado da rua, desenhadas a tijolo no muro branquinho. A moça estreita-se na rua a passos corredores antes de a bola quase acertar a moça. Eles gritam correm xingam riem e chutam a bola. A moça sentou-se na sarjeta e segurou o queixo, deixou o olho ir e vir na rua estreita, de uma goleira a outra. Um menino foi derrubado ploft, levanta sem choro e  pede lançamento na ponta da área. Um chute curto e fraco. O adversário gordinho rouba-lhe o passe. O menino de pernas finas xinga a mãe dos dois e pede jogo. O maior domina a bola, tênias adidas, camiseta rio grande do sul meu país, boné jonh player special, chuta pro mano, uniforme do grêmio, chuteiras com travas. Boné 70 neles brasil, atravessa o campo dominando a bola, chega na grande área, engana o zagueiro, dribla o goleiro e o chute derruba a lata de suco de frutas. Vale.

– É goooooooooooooolo! E joga pro ar o boné 70 neles brasil.

– É goooolo! Que golaço! E o garotinho ainda corre, mostrando o punho cerrado pra arquibancada que era só a moça que lembra de pelé, garrincha, tostão e rivelino. Revê sócrates e zico desperdiçando dois pênaltis na copa do méxico que terminara há pouco. Nem se surpreendeu com o arremate do artilheiro, ainda com fôlego pra comemorar:

– E goooooooooooooool, golaaaaaaaaaaço de Pla-ti—ni-qui – assim mesmo, escandindo as sílabas como se esculpindo pedra a martelo.

A moça retomou seus passos passeadores na rua cada vez mais estreita.


Para Jairo

Incontáveis nãos tem o teu nome, que apenas se espera na rua no corredor no telefone. Apenas se come, o teu nome, e se começa pelo i pra já ir te deixando pela metade, em sinfônicos movimentos da boca em jabuticabas e romãs. Nome teu apenas se come: raros sabores em jarros chineses que se derramam em mim em ecos pelas escadas, janelas, pelas costelas, pernas abaixo. Apenas se espera, o teu nome. Nas ruas em que te procuro e não passas, no corredor por onde entro e saio e não conheces, no telefone que não existe. Mas sei de um sim. É quando me avesso em gomos e como o homem do teu nome. Então, te escrevo em pergaminhos de seda espalhando-os  pela minha vida, enquanto ainda digo teu nome. De boca cheia.


Um vôo para Jairo

Sou uma bípede. Equilibro meus passos nos dedos das mãos, e meus pés lavam a louça depois de me servirem o café da manhã. Sem plumas e poucos pêlos e macios, me inverto nas horas oportunas: com as cortinas fechadas, caminho na linha das minhas mãos, quiromante esfolada em ais e neles recrio os filhos que não cheguei a ter, como os violinos para vivaldi e os passos de bailarina para dançá-lo. Em ais me espelho em alegrias raras e com meu melhor olhar vôo até tua porta. E se me convidas pra entrar descanso ao teu lado e com as asas beijo teus pés.