Arquivo da categoria: descrição de tipo

“Escritor barnabé”

O “escritor-barnabé” é outro tipo brasileiro descrito no jornalismo impresso a serviço da análise do funcionamento do mundo social. Na Veja (23 de junho, 1999) há uma análise de como a literatura brasileira, pelo menos parte dela, “é uma flor nascida no mofo das repartições públicas”.

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Descrição de tipo e jornalismo

Deu no jornal uma conversa bacana que tivemos aqui na UNIT com o Cleomar Brandi.
(PS: ao contrário do que disse o autor da matéria, eu não estava enganada.)


Ratocorp

“Você conhece algum ratocorp?” é o título de mais um texto de descrição de tipo publicado na imprensa brasileira (eu acessei em agosto de 2001, não sei se ainda está disponível)


O famoso de revista

“Tipos brasileiros” é a seção da revista Piauí que publica textos de descrição de tipo. O texto mais recente é “O Famoso de Revista” (Piauí nº13, outubro/2007)


O Contestador em Causa Própria

(de Eucisbaldo Mattos, publicado na obra de GUEDES, Paulo Coimbra. Manual de Redação – UFRGS, 2002)

         Os professores que acreditam em uma sala de aula aberta e democrática, que valorizam a participação do aluno, a discussão, o debate de idéias, devem esses professores, especialmente se jovens e inexperientes, aprender a distinguir, o mais rápido possível, entre o aluno crítico e o contestador em causa própria. Fazer essa distinção precocemente é fundamental para a eficácia de seu trabalho e para a sanidade de seu relacionamento com a turma. Permitir-se confundi-los por muito tempo pode custar-lhes a perda da objetividade em seu trabalho e o naufrágio de todo o processo ensino – aprendizagem.        O primeiro dado a observar é o pressuposto de onde partem as manifestações de um e de outro. Enquanto o aluno crítico volta seu interesse para o conteúdo da disciplina que está sendo trabalhada, o contestador em causa própria preocupa-se fundamentalmente com o método com que a matéria está sendo lecionada e com o tipo de relacionamento que o professor estabelece com seus alunos. O aluno crítico sabe – às vezes até mesmo por intuição – que a verdadeira relação que o liga ao professor é a ciência, aquele processo que precisa ser construído individualmente, do qual o professor é apenas um canal de acesso, ao lado de outros, como livros, filmes, revistas, laboratórios, que ele, aluno interessado nessa autoconstrução, pode também mobilizar. O contestador em causa própria vê no professor, especialmente na aula expositiva do professor, o único meio que pode levá-lo à assimilação do conhecimento necessário para resolver exercícios, provas, trabalhos e questões de vestibular, que ele considera como a única finalidade de seu aprendizado.        Esses diferentes pressupostos condicionam as atitudes de um e de outro diante do trabalho: o aluno crítico aceita os desafios propostos pelo professor para, se for o caso, questionar a utilidade desse trabalho na sua formação pessoal. O contestador em causa própria costuma rejeitar preliminarmente qualquer tarefa que lhe possa exigir mais do que o trabalho de sentar em aula e escutar com atenção semidispersa a fala interessante e entusiasmada do professor. Cuidado, no entanto: ele nunca rejeita essas tarefas alegando as dificuldades que elas podem trazer. Costuma tachá-las de desinteressantes, de desnecessárias, de arbitrárias, de alienantes, de repressivas, de autoritárias e de outros adjetivos do glossário do pedagogês modernoso que os alunos já manipulam com muito maior desenvoltura do qualquer professor. Isso não quer dizer que não haja alunos críticos implicantes, mas esses, rapidamente, no correr da discussão, esquecem as eventuais questões secundárias nela implicadas para concentrar sua argumentação em torno das questões centrais da matéria. Quando chega a contestar a validade da tarefa é quase sempre capaz de mostrar exatamente o ponto em que ela falha, ponto que ele geralmente ignorou para poder dar um bom termo a seu trabalho, fazendo, desse modo, na prática, a crítica do método proposto.        O aluno crítico aceita os desafios do professor e propõe desafios ao professor, mesmo que esses lhe custem mais trabalho. O contestador em causa própria escamoteia os desafios do professor atrás de uma barreira de adjetivos e jamais se atreve a propor em substituição ao trabalho que desqualificou um outro que seja interessante, necessário, democrático, libertador, etc.        Uma situação privilegiada para estabelecer uma nítida diferença entre esses dois tipos de aluno é a avaliação, seja ela de que natureza for. Dificilmente o aluno crítico alega merecer um conceito mais elevado do que aquele em que foi classificado e, se o faz, não questiona com base em comparação com algum colega que teria feito menos do que ele, mas procura saber quais seriam suas deficiências em relação ao domínio global da matéria. Já o contestador em causa própria é um exímio contabilista do desempenho alheio e do próprio: sabe na ponta da língua quantas vezes participou em aula, isto é, quantas vezes abriu a boca para dar palpites, e cobra, basicamente, os mínimos necessários para ser enquadrado em tal ou tal faixa de conceito. Enquanto o aluno crítico faz sua tranqüila e conscienciosa auto-avaliação, e é capaz, até mesmo, de desprezar em nome dela, a opinião expressa pelo conceito do professor, o contestador em causa própria mede-se exclusivamente pelos bons resultados que sua caderneta ostenta e atira nos ombros do professor a responsabilidade pelos maus.        Desqualificar as críticas do contestador em causa própria, desmascarando os pressupostos que as motivam é provavelmente o único recurso de que dispõe o professor de ânimo democrático e aberto para manter a sanidade de seu relacionamento com a turma e a eficiência de seu trabalho. Verdade que não é uma tarefa simples. Exige muita convicção e envolve o risco de indisposição com boa parte da turma, pois a contestação em causa própria é, ao lado da cola, da encomenda de trabalhos, da assinatura em trabalho de grupo feito por colegas, e outros procedimentos já consagrados pelo uso, mais uma forma de tirar vantagem em tudo sem muito trabalho, como manda a boa lógica do nosso capitalismo financeiro dependente.