Arquivo da categoria: Professora de produção textual – Jornalismo

Revoar

Uma das cenas mais famosas do cinema de todos os tempos certamente é a de Rose de braços abertos sobre a ponta da popa do Titanic, gritando no meio do oceano e aos quatro ventos “I’m flying, Jack”.

No meu caso, a partir de hoje, onde se lê “Jack”, leia-se “gente”!

Não, nenhuma outra relação de intertexto é possível aqui: meu barco não vai afundar, meu Titanic é só um barquinho a remo, não tem nenhum Jack na minha vida (e, por mérito meu, nenhum Caledon também) e não encontrei no bolso do casacão um diamante em forma de coração.

Há só novos projetos de vida.

Voo de volta pro sul, levando Cloé numa asa e Malucat sem rabo na outra (sim, voar é com os gatos).

Vou sentir saudades dos alunos, do mar, dos alunos, deste azul do céu, dos alunos, de andar descalça, dos alunos, de carne de sol com cebola, dos alunos, da paçoca ao pilão do Potiguar, dos alunos, de a roupa secar rápido, dos alunos, de sorvete de tapioca do Castelo, dos alunos, de macaxeira sob todas as formas, dos alunos.

Os alunos, (des)abraço a partir de hoje, texto a texto até 17 de dezembro.

Dos amigos Lela e Little Charles, me despeço oferecendo macarrão. A Barilla virá, claro, diretamente de Marimbondo do seu Sabal.  

Aos (e com) os amigos alunos AAA (Alvinho, Alci, Anderson Ribs), três chopes aos outros amigos e aos outros brindes que ainda virão.

Da família que fica por aqui, as despedidas serão com uma canastra de ases. E um bife à milanesa.

Porque pra voar, às vezes é preciso abandonar o barco.

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Discurso de Paraninfa – Jornalismo Unit 2011/1

PROFESSORA VALÉRIA BONINI, COORDENADORA DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE TIRADENTES; COLEGAS PROFESSORES E DEMAIS COLEGAS DA UNIT,QUE TAMBÉM RECEBEM A HOMENAGEM DESTA TURMA DE FORMANDOS. CAROS ALUNOS E EX-ALUNOS E QUIÇÁ, FUTUROS ALUNOS, AQUI PRESENTES. PREZADOS PAIS E DEMAIS FAMILIARES, AMIGOS, NAMORADOS E NAMORADAS, PARCEIROS PRESENTES OU JÁ AUSENTES NA VIDA DE CADA UM DE VOCÊS.

QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS: AISLA, IGOR, ALINE, RENATO, NEVERTON, WILSON, TIFANY, ROSENDO, CEIÇA, LUCIVANIA.

AGORA, AQUI, ENQUANTO ESCREVO ESTE TEXTO, EVOCO OS NOMES DE VOCÊS PELA MEMÓRIA, SEM PRECISAR DA AJUDA DA ORDEM ALFABÉTICA. E SEM HESITAÇÕES, ASSOCIO O NOME À PESSOA, COM ABSOLUTA TRANQUILIDADE.

A ÚNICA DÚVIDA QUE PAIRA É SOBRE CAROL E DANI. OU SERÁ DANI E CAROL? DOU UMA ESCAPULIDA RÁPIDA E JÁ QUE NÃO TENHO MAIS A LISTA DE CHAMADA COM O NOME DE VOCÊS, PEGO COLA NO CONVITE. MAS AINDA ASSIM, NOS BREVES SEGUNDOS ENTRE FECHAR E ABRIR OS ARQUIVOS NA TELA DO COMPUTADOR, A MEMÓRIA ME TRAI E FICO SEM SABER SE A CAROL É AQUELA QUE DANÇOU MUITO NA AULA DA SAUDADE OU SE É AQUELA QUE DORMIU DE CANSAÇO À BEIRA DA PISCINA. FICO SEM SABER SE A CRIADORA DE HAMSTERS É A DANI BIJU OU SE A QUE GOSTA DE ROSA PINK É A CAROL. E AINDA AGORA, OLHANDO PRA VOCÊS DUAS DAQUI, SE TIVER QUE NOMEÁ-LAS, NÃO SERÁ SEM ALGUMA AFLIÇÃO.

MAS, SE HOJE TIVESSE SAÍDO UM JORNAL FEITO POR VOCÊS, EU TERIA BOAS CHANCES DE SABER QUAL TEXTO É DE QUEM, MESMO QUE NÃO HOUVESSE A ASSINATURA EM CADA UM DELES E MESMO QUE O LEAD TIVESSE TORNADO MAIS OU MENOS HOMOGÊNEA A ESTRUTURA DOS TEXTOS.

MAS ISSO NÃO É O MAIS IMPORTANTE, POIS ACHO QUE SE ESPERA DE UM PROFESSOR QUE ELE RECONHEÇA A ESCRITA DE SEUS ALUNOS DEPOIS DE 5 SEMESTRES DE PRODUÇÃO TEXTUAL.

O MAIS IMPORTANTE É QUE SE HOJE TIVESSE SAÍDO UM JORNAL, EM EDIÇÃO ESPECIAL, A CHAMADA PRA MATÉRIA PRINCIPAL PODERIA SER ASSIM:

12 NOVOS JORNALISTAS PRA N DÚZIAS DE MATÉRIAS

NOVOS GRADUADOS EM JORNALISMO PELA UNIT SE INTEGRAM À IMPRENSA SERGIPANA

MAS TAMBÉM PODERIA SER ESTA:

 JORNALISMO SERGIPANO RECEBE 12 NOVOS PROFISSIONAIS

OU AINDA

DESAFIOS DIÁRIOS ESPERAM NOVOS PROFISSIONAIS DA IMPRENSA LOCAL

OUTRO POSSÍVEL

12 CABEÇAS E 12 SENTENÇAS: O COTIDIANO DE SERGIPE RETRATADO POR DIFERENTES PONTOS DE VISTA

MAS TAMBÉM PODERIAM SER OUTRAS AS CHAMADAS PRA MATÉRIA PRINCIPAL, SE COMO LEITORES, A GENTE PUDESSE LER TAMBÉM  A VIDA QUE ESTÁ ANTES E JUNTO COM ESSA MATÉRIA, SE ELA TIVESSE A ASSINATURA DE CADA UM DE VOCÊS: UMA MATÉRIA ESPECIAL EM CADA PÁGINA.

NESTA CONDIÇÃO, DE LEITOR ONISCIENTE, DE UM LEITOR QUE TUDO SABE E A QUEM SERIA FACULTADO O CONHECIMENTO DO CONTEXTO,  DOS MODOS DE PRODUÇÃO E DOS PROTAGONISMOS PESSOAIS QUE ANTECEDEM A ASSINATURA NESTA MATÉRIA HIPOTÉTICA, NESTA CONDIÇÃO DE LEITORES PRIVILEGIADOS, É BEM PROVÁVEL QUE A GENTE LESSE SUBTEXTOS À MERCÊ DE VENTOS VINDOS DE DIFERENTES DIREÇÕES.

É COMO SE O TÍTULO DA MATÉRIA, EM CAIXA ALTA E NEGRITO, CORPO 16 EM PRETO A 100 POR CENTO, FOSSE SENDO SOBREPOSTO POR UM ENUNCIADO EM MAGENTA, PARTES DO ENUNCIADO VINDAS DE LUGARES DIFERENTES, AS LETRAS SE JUNTANDO EM PALAVRAS, ESTAS EM ARRANJOS DIFERENTES EM FUNÇÃO DOS 12 PROTAGONISMOS QUE TÊM EM COMUM A ESCOLHA PELO JORNALISMO COMO FORMAÇÃO E COMO PROFISSÃO.

EU, PROFE DE VOCÊS DURANTE CINCO SEMESTRES DO CURSO, ACHO QUE NÃO PRECISO DESSA LENTE MÁGICA PRA LER OS SUBTEXTOS DO TÍTULO “NOVOS GRADUADOS EM JORNALISMO PELA UNIT SE INTEGRAM À IMPRENSA SERGIPANA”.

ARRISCO DAQUI QUE PASSAM AGORA PELA CABEÇA DE VOCÊS VÁRIOS FILMES; ARRISCO DAQUI QUE VEM À CABEÇA DE VOCÊS A MEMÓRIA DOS PROTAGONISMOS QUE ANTECEDERAM E DEFINIRAM A OPÇÃO PELO JORNALISMO.

QUEREM VER?

“MÃE, PAI, CONSEGUI! BRIGADÃO, VIU? / CARA, ENFIM REALIZEI MEU SONHO! / QUE PENA QUE VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI! MAS EU TE GOSTO MUITO, VIU? SAUDADE! / UM ESTÁGIO, MINHA ESCOLHA! / 45 LINHAS – AGORA É MAMÃO COM AÇÚCAR! / NEM NAMORAR DEU TEMPO, DE TANTA COISA PRA FAZER! / JÁ TÔ COM SAUDADE DAS AULAS! / E O CAFÉ NAS MADRUGADAS DO TCC? / COESÃO LEXICAL OU GRAMATICAL? / CONSEGUI ESCREVER SEM ADJETIVOS! / PRONTO, AGORA É PARTIR PRA LUTA! / NORMA CULTA OU NORMA OCULTA? / SOB OUTRO PONTO DE VISTA, A HISTÓRIA SERIA OUTRA! / AQUELE VERBO DICENDI QUASE ACABOU COM MINHA MATÉRIA! / AH, SE O BANCO DO CCS FALASSE! / CONCRETUDE NELES! / AH, AQUELA NOITE DEPOIS DA AULA! / E O MACARRÃO SEM MOLHO DE TOMATE? / LEMBRA DAQUELE NOSSO SÃO JOÃO? / DE 65 LINHAS A 65 PÁGINAS: UM LIVRO-REPORTAGEM PELA FRENTE! / E AS NOITES VIRADAS ANTES DAS PROVAS?

PERGUNTAS APENAS RETÓRICAS, POIS QUE AS RESPOSTAS JÁ FORAM DADAS NO PERCURSO, E HOJE FAZEM A FUNÇÃO DE SITUÁ-LOS E ACOLHÊ-LOS NA ALEGRIA DA REALIDADE E CONCRETUDE DESTE MOMENTO EM RELAÇÃO AO SONHO E AO DESEJO DE SER JORNALISTA. AGORA VOCÊS SÃO JORNALISTAS.

E EU SOU PARANINFA DA TURMA DE VOCÊS. AQUI, DESTE LUGAR DE HONRA COM QUE VOCÊS ME PRESENTEARAM, COMO PROFESSORA, DIGO COM TOTAL TRANQUILIDADE: FOI O MELHOR QUE EU PUDE FAZER, MEU TRABALHO COMO PROFE É O MELHOR DE MIM.

MEU DESEJO É QUE EM CADA MATÉRIA QUE VOCÊS PUBLICAREM, EM CADA TRABALHO QUE VOCÊS FIZEREM, SE POSSA LER, COM AQUELA LENTE MÁGICA ACIONADA PELOS PROTAGONISMOS DE CADA UM DE VOCÊS, SE POSSA LER “ISSO FOI O MELHOR QUE EU PUDE FAZER”, “ESSE TRABALHO É RESULTADO DO MELHOR DE MIM”.

MUITAS OUTRAS ALEGRIAS PRA VOCÊS.

OBRIGADA


Monolinguismo em terras estrangeiras

Para uma tímida crônica como eu, falar sempre foi um problema, desde bem antes de ter me curado aos poucos: em sala de aula, como profe, já com 35 anos, não sem muito sofrimento e com alguma terapia. Mas via de regra, em situações de contato social mediadas pela fala, mesmo uma tão banal como fazer compras, sou a atrapalhação em pessoa. Inverto a sintaxe, gaguejo, produzo lacunas constrangedoras de silêncio enquanto, já em total desespero, tento desentalar a palavra necessária. A pessoa fica ali, me olhando, esperando e só é paciente com minha atrapalhação porque, penso eu, represento um potencial aumento na sua comissão.

Agora imagine viajar pro exterior e conviver quase 30 dias na mesma casa onde há uma nativa brasileira poliglota (inglês, francês, alemão e aquela mistura belga francês/holandês) o e seu namorido argelino falante de inglês/francês/árabe. Minha preocupação cotidiana era não ficar sozinha com ele: absoluto pavor de ter que falar em inglês. Sei um bocadinho de coisa, mas a timidez é tão avassaladora que até que eu crie coragem de errar em inglês ao abrir a boca, o contexto já passou e não faz mais sentido aquilo que eu teria falado se.

Ah, mas aí tem o espanhol e o italiano, que entendo bem, leio bem, falo bem se estou sozinha, imaginando diálogos incríveis onde cabem direitinho os enunciados que sei produzir. Mas na hora, ali, no contato social que se expandiu na rede europeia durante a viagem, alguém gentil e solidário, querendo educadamente me inserir na conversa, dizia “she speak spanish” e aí o pavor absoluto fazia cair uma densa cortina de fumaça através da qual apenas entrevia a sequência de palavras que eu poderia dizer, e uma vez decidida a estrutura sintática, preenchia com palavras buscadas sob espasmos entremeados de sudorese, palpitação e contração dos dedos dos pés, a timidez escondida dentro das botas. Nessas horas, quando consigo enfim abrir a boca e articular uma frase inteira, há 90% de chance de eu ter misturado espanhol com italiano.

Gentis, tentavam falar em português também, quando a maioria era de brasileiros morando por lá. Mas aí eu também não falava. Porque embora conheça a língua também como profissão e ofício, a timidez me emburrece e a cada vez que eu abria minha boca, a conversa mudava de rumo ou despencava aquela incredulidade na cara das criaturas tentando socorrer-se entre si pra tentarem entender o que eu havia feito com o que dissera. E aí, claro, chegou uma hora que eles desistiram.

Assim, permaneci um bom tempo na bolha de onde fico admirando a habilidade que as pessoas têm pra falar umas com as outras, como negociam bem a troca de turnos, como são doces (ainda mais entre os baianos Kika, Julio, Ricardo, Dani e Thiana), como mudam de código linguístico entre a conversa com alguém do grupo português/inglês e o pedido de pão na padaria belga, ou no restaurante alemão, ou no metrô parisiense.

Essa viagem foi crucial pra eu entender isso: sou uma criatura silenciosa. Mas entender só é muito pouco porque, claro, já sabia disso. A viagem foi importante porque criou contextos bem diferentes, onde poderia ter sido outra minha performance. Não foi o caso. E se não fosse o fato de eu ser professora, acho que mal conheceria o tom da minha voz.

Na verdade, não sou apenas silenciosa: sou bilíngue timidez/português. Na escrita, mais fluente em português, menos fluente em timidez. Por isso, quando eu aprender inglês, vou escrever um texto pra Mohand, em inglês/português, pra dizer pra ele as coisas que eu teria dito se eu falasse inglês. Aos novos e doces baianos no velho mundo, fico grata pelas tentativas de me inserir. Pra Kika, meu amor tá sempre fresquinho. Pra Mohand, também.


Discurso de paraninfa Jornalismo Unit 2010/2 (ou “Paraninfando: um elogio a este gerúndio”)

PROFESSORA VALÉRIA BONINI, COORDENADORA DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE TIRADENTES; PROFESSORAS POLYANA BITTENCOURT E DEISE DIAS, COLEGAS HOMENAGEADAS DESTA TURMA DE FORMANDOS; DANILO  MENEZES, FUNCIONÁRIO HOMENAGEADO,  DEMAIS COLEGAS DA DOCÊNCIA DO JORNALISMO; UMA MENÇÃO ESPECIAL A FELIPE PENA, QUE NOMEIA ESTA TURMA. CAROS ALUNOS E EX-ALUNOS AQUI PRESENTES. PREZADOS PAIS E DEMAIS FAMILIARES, AMIGOS, NAMORADOS E NAMORADAS, PARCEIROS DE VIDA DE CADA UM DE VOCÊS. 

MEUS QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS.

VOCÊS ME ESCOLHERAM COMO PARANINFA, E O FIZERAM POR QUESTÕES DE NATUREZA PESSOAL, QUE PERPASSA TODAS NOSSAS ESCOLHAS. E PUDERAM ME ESCOLHER PORQUE FUI PROFESSORA DE VOCÊS.

E ESTA É A CONDIÇÃO QUE FAZ CONVERGIR PRA ESSE MOMENTO,  AQUI, AGORA, A SOMA DE ESCOLHAS DIFERENTES, DE VIDAS DIFERENTES, DE HISTÓRIAS DIFERENTES.

TAIS PARTICULARIDADES E DIFERENÇAS, ENTRETANTO, CONVERGEM PARA DOIS ASPECTOS CENTRAIS PARA ESSE ENCONTRO QUE ESTAMOS JUNTOS PROTAGONIZANDO NESTA NOITE: PRIMEIRO, O FATO DE VOCÊS TEREM ESCOLHIDO O JORNALISMO COMO PROFISSÃO E O JORNALISMO TAMBÉM COMO FORMAÇÃO; SEGUNDO, O FATO DE EU TER SIDO PROFE DE VOCÊS E DE QUASE TODOS VOCÊS TEREM SIDO MEUS ALUNOS, EM METADE DO PERCURSO ACADÊMICO.

E ENTÃO, NESSA REDE DE CONVERGÊNCIAS E DURANTE ESSE TEMPO TODO, ACONTECEU UM DOS EVENTOS HUMANOS DOS MAIS IMPORTANTES: ACONTECEU UM ENCONTRO.

PEDAGÓGICO,  ESSE ENCONTRO, PORQUE NOSSAS AULAS SEMANAIS DURANTE  DOIS DOS QUATRO ANOS DE UNIVERSIDADE ESTIVERAM DIRECIONADAS À CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES INERENTES AO FAZER JORNALÍSTICO E AO SER JORNALISTA.

É PARA ESSE ENCONTRO PEDAGÓGICO QUE DEDICO MINHA VIDA, DESDE QUE ESCOLHI SER PROFESSORA. E É PARA ESSE ENCONTRO PEDAGÓGICO QUE DEDICO MINHA VIDA DESDE QUE ACOLHI PRO MEU JEITO DE SER PROFESSORA A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA DE PROMOVER ENCONTROS PARA A APRENDIZAGEM.

AQUI, DESSE  LUGAR DE PARANINFA COM O QUAL VOCÊS ME HONRAM, OLHO MINHA VIDA PERPASSADA PELO FATO DE VOCÊS SEREM MEUS ALUNOS, E ENTÃO ENTENDO QUE ME ESCOLHERAM PORQUE DE ALGUMA FORMA FUI IMPORTANTE PRO APRENDIZADO DE VOCÊS.

MAS SE ISSO É VERDADE, É TAMBÉM VERDADE O SEGUINTE:  NÃO FORAM SÓ VOCÊS QUE APRENDERAM.

EU, AQUI NO LUGAR DAS MINHAS SUBJETIVIDADES, TAMBÉM APRENDI.  COM VOCÊS.

NESSE ENCONTRO QUE NOS UNE, NESSE ENCONTRO PERPASSADO POR UMA TRAJETÓRIA PARCIALMENTE COMUM A NÓS TODOS,  NESSE ENCONTRO PROMOVIDO PELA CONTINGÊNCIA DE INTERESSES COMPARTILHADOS, FORMAMOS UM GRUPO DE APRENDIZES: VOCÊS, COMIGO; E EU, COM CADA UM DE VOCÊS.

E A VOCÊS DEVO 19 DIFERENTES APRENDIZADOS.

QUERO CITAR UM A UM.

HESITO ENTRE A ORDEM DA CHAMADA E A  ORDEM DE CHEGADA; ENTRE OS QUE FIZERAM PARTE DE UMA TURMA OU DE OUTRA; ENTRE OS QUE CHEGARAM JUNTOS E OS QUE SE JUNTARAM AO GRUPO MAIS TARDE; POR EXEMPLO, COM A NEUZILÂNIA, APRENDI A DISPONIBILIDADE PRA MUDANÇA; COM A DANIELA, O INVESTIMENTO NA PERSEVERANÇA; COM RODRIGO E EDSON, APRENDI O BOM FIM PRA QUAISQUER QUE SEJAM OS COMEÇOS; COM A MORGANA, APRENDI QUE O  SILÊNCIO É CHEIO DE PERGUNTAS; COM A JANAÍNA,  APRENDI A ESCUTA ATENCIOSA;COM A VIVIANE, E JÁ ESTAMOS COM SETE APRENDIZADOS DIFERENTES, APRENDI A DELICADEZA IMPETUOSA; COM A  DAIANA,   APRENDI O QUANTO A IRONIA É COMPATÍVEL COM  INTELIGÊNCIA.

COM O RAFAEL, E JÁ SÃO NOVE JEITOS DIFERENTES DE APRENDER, EU APRENDI QUE  OLHOS BEM ABERTOS VEEM O MUNDO COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ; COM A MISA, APRENDI A DOÇURA; COM  NAILTON E  YURI, A PARCERIA ABERTA.

O DÉCIMO TERCEIRO APRENDIZADO VEM DO DELANO:  APRENDI A PERSPECTIVA DE UMA VIDA PAUTADA PELA ESCOLHA  PROFISSIONAL E PELOS AFETOS CONSTRUÍDOS E PRESERVADOS EM NOME DO JORNALISMO E APESAR DO JORNALISMO. 

COM O DIOGO, APRENDI O OLHAR DA CURIOSIDADE; COM A ALCIONE, APRENDI A ENERGIA QUE SE RENOVA TODO DIA, ESTEJAMOS NA ATALAIA OU MESMO NA TURQUIA; COM A AMANDA, E JÁ ESTAMOS NA DÉCIMA SEXTA APRENDIZAGEM, APRENDI O ACOLHIMENTO PRA AMIZADE E PRA TRABALHEIRA QUE DÁ ESTUDAR.

COM A POLIANA, APRENDI OUTRA COISA MUITO IMPORTANTE: A MEDIDA NECESSÁRIA DA DELICADEZA, MESMO NA HORA DA INDIGNAÇÃO. COM A MARIA ROSA, APRENDI A NÃO ESQUECER QUE É PRECISO OLHAR PRA TRÁS E PRA PERTO PRA NOS AJUDAR A ENTENDER QUEM SOMOS.

E EMBORA ESSES DEZOITO APRENDIZADOS SEJAM ABSOLUTAMENTE IMPORTANTES PRA MIM, FALTOU FALAR DO APRENDIZADO NÚMERO DEZENOVE.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O CONGREGADOR DE TUDO.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O APRENDIZADO QUE EM TUDO DÁ UM JEITO.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O APRENDIZADO INDISPENSÁVEL PARA UMA VIDA PLENA.

DEIXO PRO FIM A ALEGRIA DESTEMPERADA DA JÉSSICA,

NOS LEMBRANDO A TODA HORA E POR DIFERENTES MOTIVOS QUE SEM ALEGRIA HÁ REALMENTE BEM POUCAS COISAS QUE VALEM A PENA.

É COM MINHA MELHOR ALEGRIA QUE LHES AGRADEÇO POR ESTA NOITE.

É COM MINHA MELHOR ALEGRIA QUE  LHES AGRADEÇO PELO ENCONTRO E PELOS APRENDIZADOS.

E É ASSIM, COM O ESPÍRITO JÉSSICO DE SER,

QUE REGISTRO MEU DESEJO.

QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS: QUE A ESCOLHA PELO JORNALISMO E OS APRENDIZADOS DO PERCURSO UNIVERSITÁRIO FAÇAM PARTE DO INVENTÁRIO PESSOAL DE ALEGRIAS DE CADA UM DE VOCÊS.

MUITO OBRIGADA!


Revisão é pra toda vida

“Mas teve um conjunto de livros com os quais não sabia muito bem o que fazer, e só depois de muito hesitar foi que decidi fazer um grande pacote de presente e dá-los a uma amiga querida.”

Isso  foi o que publiquei no “Mago”. Hoje, lendo meu texto republicado na mais recente edição do  Balaio de Notícias do caríssimo  Paulo Lima foi que então vi a falta de concordância, ou melhor, a concordância com o último elemento do sintagma nominal (SN) sujeito (livros) e não com o núcleo dele (conjunto). Agora já arrumei, da mesma forma que fazem os jornalistas da Folha online, por exemplo, quando publicam a chamada pra notícia e meia hora depois, o erro gramatical foi corrigido. Pra ver como as coisas são: até eu, mortal sem academia.

É muito regular, recorrente, frequente, que nesse tipo de enunciado (SN formado por núcleo singular e determinante no plural) a gente faça a concordância assim, com o elemento que fica mais próximo do verbo.  Na fala, mesmo a mais monitorada, é quase majoritário. Na escrita, inclusive em textos bem monitorados, como os que publico aqui no blog, também seria, se não fosse o olho de olho bem aberto focalizando a revisão na gramática, e não no conteúdo.

Como sempre, a língua segue seu curso. A gramática normativa, às vezes, o refreia. Mas não pra sempre. Nem por muito tempo.


Fazendo uma colocação

Como anunciei no meu post anterior, o primeiro texto da categoria “perguntas que me fazem sobre língua” com o qual me ocupo aqui é a respeito de uma colocação de uma colega professora. Estando sentada ao meu lado, ela sussurrou ao meu ouvido: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. Essa fala dela pra mim aconteceu assim que ouvimos um outro colega professor fazer um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”, durante um recente encontro de professores universitários em atividade acadêmica.

Então, vejamos: a primeira coisa que eu faço aqui é dar concretude à minha seguinte afirmação: esta expressão é altamente produtiva, sendo utilizada inclusive (será principalmente?) por gente culta, em contextos formais de uso da linguagem. Tal produtividade dos enunciados fica logo evidenciada numa rápida pesquisa no Google, realizada domingo passado: para a expressão de busca “fazer uma colocação”, foram dados 11 mil resultados; alterando a expressão para “colocar uma questão”, o Google nos dá 76 mil resultados; alterando mais uma vez e pesquisando “a colocação que * fez”, temos 69 mil resultados e a pesquisa de “a colocação feita por *” resulta em 15 mil ocorrências. Lembro ao leitor que o asterisco inserido na expressão entre aspas permite que a pesquisa considere ocorrências seja qual a for a palavra que estiver ali, no lugar do asterisco, recurso que permite ampliar as expressões pesquisadas.

Só esses dados quantitativos já seriam suficientes pra atestar a legitimidade do uso da expressão, ou, colocando a questão de um outro jeito, o número de 171 mil ocorrências num site como o Google é um indicativo bastante seguro da adequação da expressão. Fica bem estranho tentar defender a idéia de que 171 mil pessoas estejam erradas, certo?

 Isso significa o que? Significa que o termo “colocar” foi passando por uma especialização de sentido com o andar da carruagem. Realmente, se a gente pensar no apelo etimológico do termo, temos collocare, pôr em algum lugar. Assim, é claro que o termo (ainda) remete ao sentido de ‘lugar’, mas, com o uso, a expressão se especializa, ampliando e renovando seu sentido.

Se isso está coerente e dada a produtividade do uso da expressão, tal como visto nas, repito, 171 mil  ocorrências do Google, é de se esperar que dicionários importantes registrem ‘colocar’ no sentido de posicionar-se em relação a algo/ alguém através de um enunciado linguístico, falando algo para alguém em contextos bem determinados de usos da linguagem. Por exemplo, no Dicionário Unesp do Português Contemporâneo, de 2004, no verbete ‘colocar’ encontramos ‘expor, apresentar’, e como exemplo aparece eu também quero colocar minha opinião. Verifiquemos também algumas das 13 acepções que o Houaiss de 2009 apresenta para “colocar”. Num primeiro bloco, trago aqui “botar, situar (algo, alguém ou a si mesmo) [em algum lugar, em determinada situação, posição etc.]; pôr(-se)”, e como exemplos, colocar o pé no estribo, o técnico colocou o time em primeiro lugar; além dessa acepção, há também “assentar, depositar, arrumar”, como no enunciado levou o dia inteiro para colocar tijolos. Num segundo bloco, as acepções de uso do verbete ‘colocar’ que aparecem no Houaiss são derivações de sentido, que certamente não causam estranheza ao leitor: ‘situar(-se) [hierárquica ou moralmente]’, tal como ocorre no exemplo a repreensão colocou José no seu devido lugar e ‘julgar (-se), considerar (-se)’, como no exemplo colocou-se acima dos outros. E pra não nos estendermos mais, na acepção 5 do verbete ‘colocar’ encontramos então ‘propor, aventar, expor’, acepção exemplificada pelo Houaiss com colocou uma questão.

Dito isso, vamos ver na sequência quatro exemplos de contextos de escrita publicada na web em que foi encontrada a expressão ‘a colocação feita por *’.

1) Texto científico, monitorado: a colocação feita por Trivinos, quando diz que as teorias estão fortemente determinadas pelas condições sócio-económicas, históricas e culturais […].

2) Texto científico, monitorado: É difícil decidir se a colocação feita por Frege do problema da significação foi realmente benéfica ou prejudicial para os estudos semânticos […].

3) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado, com discurso reportado da fala de uma desembargadora: Neste sentido, a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Genacéia Albeton: “É acertada a colocação feita por Arruda Alvim, …” […].

4) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado: Luiz Fernando Figueiredo, analista do banco norte-americano JP Morgan, disse ser “verdadeira” a colocação feita por Meirelles […].

Das 15 mil ocorrências para a expressão ‘a colocação feita por *’, essa pequena amostra reproduzida acima deixa claro que a expressão ‘colocar’ com o sentido rechaçado pela professora é amplamente utilizada por falantes cultos, e, como se vê nos exemplos, amplamente utilizada também por quem escreve texto formais e monitorados em termos de expressão linguística. E já se sabe que do ponto de vista da variação e  mudança linguística, a  fala culta e escrita formal são as duas instâncias do uso da linguagem que legitimam a forma/expressão em uso, tanto do ponto de vista linguístico quanto social (ver Faraco, Linguística Histórica).

Assim, concordar ou não com a expressão usada pelo colega já não faz a menor diferença.  A língua, como sempre, segue seu curso.


Apenas uma colocação preliminar

Com este post, inauguro uma nova categoria para meus textos aqui no blog: com “perguntas que me fazem sobre língua” abro espaço pra registrar reflexões linguisticamente fundamentadas sobre comentários/perguntas sobre a língua que me são dirigidos. Meus 12 anos como professora de português e minha escuta linguística me permitem antecipar aqui que provavelmente não poderei dar conta de registrar as reflexões que faço sobre tudo que me perguntam/comentam, ou mesmo as reflexões que faço a partir de coisas que apenas ouço dizerem sobre a língua, pois aí eu teria que dispor de um turno do meu dia, talvez mais, só pra dar conta desse recado. Digo isso não pra que você saiba o quanto sou ocupada, mas pra lhe situar em relação à intensa produtividade desses comentários, na maioria das vezes dirigidos a mim de forma direta, outras delas, chegando a mim como ouvinte não ratificada.

Então comecemos assim: não posso ser ingênua e ignorar o que sei que esperam de mim ao me fazerem uma pergunta sobre alguma questão da língua. A expectativa do meu interlocutor é que eu seja taxativa, e que me saia rapidamente com um “certo” ou um “errado” e que, além de vaticinar um julgamento sumário, meu interlocutor espera também que eu acrescente algum argumento de caráter normativo. Claro está que essa expectativa é motivada pelo fato de eu ser professora de português, e nisso estão implícitas 1) uma determinada idéia que se tem sobre o que deve saber um professor de português e 2) uma outra determinada idéia sobre o papel de guardião da ‘língua certa’ atribuído ao professor de português.

O conflito está no fato de que minhas respostas não são nem taxativas, nem gramatical e normativamente orientadas. São, sim, enquadradas no contexto de uso, pois linguisticamente orientadas. Aí, pra poupar atalhos necessariamente diplomáticos que dão quase sempre uma trabalheira danada, e pra tentar ir direto ao ponto tentando ao mesmo tempo preservar a face do meu interlocutor, eu respondo a pergunta com uma outra: “por que você acha que está errado?”. Essa é a que eu faço se eu estiver compartilhando do mesmo contexto que motivou a pergunta. Se não for esse o caso, e sendo a pergunta assim, formulada de supetão, eu a devolvo pedindo a meu interlocutor que ele situe o questionamento: “você pergunta isso em relação à fala ou relação à escrita?”, ou ainda, “como assim, em que contexto?”.

Essa minha postura sinaliza ao meu interlocutor, desde então, que ele não vai ouvir de mim o julgamento taxativo, papel histórica e socialmente atribuído ao professor de português. Os meus colegas de ofício sabem bem como é: basta a gente se apresentar socialmente como tal e lá vem o “hi, agora tenho que falar certo, né?” . E os meus não colegas de ofício também sabem direitinho como é: basta saberem que estão sendo ouvidos por um professor de português pra monitorarem a fala, monitoramento quase sempre ativado de forma instintiva, independente do fato de estarmos numa mesa de bar ou numa atividade acadêmica. Uma outra sinalização que faço ao meu interlocutor é com minha resposta “não sei, mas posso pesquisar”. Aí, é um assombro. Ao contrário do que fazem os que lançam mão da embromação, se eu não souber a resposta digo sem constrangimento que não faço a menor idéia, e que, bom, me disponho a pesquisar e tentar responder. A partir da minha autodeclaração de ignorância, meu interlocutor quase nunca consegue nem dissimular nem esconder sua incredulidade pelo fato de eu ter dito que não sei.

Enquanto ele está ali na minha frente, sem saber o que fazer com minha resposta, um script se forma na minha cabeça: meu interlocutor me coloca na testa um adesivo com “incompetente” escrito em letras garrafais de cor fosforescente. E com esse gesto dele tem junto sua pergunta nunca enunciada: “Como é que não sabe e é professora?”.

Dito isso, como colação inicial, você pode esperar de mim um texto que resulte de um trabalho cuidadoso, de uma reflexão ponderada, de uma abordagem científica. Claro está que fica implícito um ponto de vista pessoal, pois, como sabem meus alunos de jornalismo da Unit, faço uma escolha que incide 1) sobre quais tópicos vou escrever 2) sobre o enquadramento linguístico da abordagem. E isso me define como a professora que sou.

O primeiro texto com o qual vou me ocupar, tendo já me preocupado com a questão (meus alunos são alertados sobre a diferença entre ‘se preocupar com o texto e se ocupar do texto’), é sobre uma colocação de uma colega professora. Ela disse: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. O contexto era um encontro de professores universitários em atividade acadêmica, onde também eu, como participante do evento, ouvi um outro colega professor fazer ao microfone um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”. Esse será o tema do meu próximo post.

Saudações lingüísticas.