Arquivo da categoria: apresentação pessoal

Monolinguismo em terras estrangeiras

Para uma tímida crônica como eu, falar sempre foi um problema, desde bem antes de ter me curado aos poucos: em sala de aula, como profe, já com 35 anos, não sem muito sofrimento e com alguma terapia. Mas via de regra, em situações de contato social mediadas pela fala, mesmo uma tão banal como fazer compras, sou a atrapalhação em pessoa. Inverto a sintaxe, gaguejo, produzo lacunas constrangedoras de silêncio enquanto, já em total desespero, tento desentalar a palavra necessária. A pessoa fica ali, me olhando, esperando e só é paciente com minha atrapalhação porque, penso eu, represento um potencial aumento na sua comissão.

Agora imagine viajar pro exterior e conviver quase 30 dias na mesma casa onde há uma nativa brasileira poliglota (inglês, francês, alemão e aquela mistura belga francês/holandês) o e seu namorido argelino falante de inglês/francês/árabe. Minha preocupação cotidiana era não ficar sozinha com ele: absoluto pavor de ter que falar em inglês. Sei um bocadinho de coisa, mas a timidez é tão avassaladora que até que eu crie coragem de errar em inglês ao abrir a boca, o contexto já passou e não faz mais sentido aquilo que eu teria falado se.

Ah, mas aí tem o espanhol e o italiano, que entendo bem, leio bem, falo bem se estou sozinha, imaginando diálogos incríveis onde cabem direitinho os enunciados que sei produzir. Mas na hora, ali, no contato social que se expandiu na rede europeia durante a viagem, alguém gentil e solidário, querendo educadamente me inserir na conversa, dizia “she speak spanish” e aí o pavor absoluto fazia cair uma densa cortina de fumaça através da qual apenas entrevia a sequência de palavras que eu poderia dizer, e uma vez decidida a estrutura sintática, preenchia com palavras buscadas sob espasmos entremeados de sudorese, palpitação e contração dos dedos dos pés, a timidez escondida dentro das botas. Nessas horas, quando consigo enfim abrir a boca e articular uma frase inteira, há 90% de chance de eu ter misturado espanhol com italiano.

Gentis, tentavam falar em português também, quando a maioria era de brasileiros morando por lá. Mas aí eu também não falava. Porque embora conheça a língua também como profissão e ofício, a timidez me emburrece e a cada vez que eu abria minha boca, a conversa mudava de rumo ou despencava aquela incredulidade na cara das criaturas tentando socorrer-se entre si pra tentarem entender o que eu havia feito com o que dissera. E aí, claro, chegou uma hora que eles desistiram.

Assim, permaneci um bom tempo na bolha de onde fico admirando a habilidade que as pessoas têm pra falar umas com as outras, como negociam bem a troca de turnos, como são doces (ainda mais entre os baianos Kika, Julio, Ricardo, Dani e Thiana), como mudam de código linguístico entre a conversa com alguém do grupo português/inglês e o pedido de pão na padaria belga, ou no restaurante alemão, ou no metrô parisiense.

Essa viagem foi crucial pra eu entender isso: sou uma criatura silenciosa. Mas entender só é muito pouco porque, claro, já sabia disso. A viagem foi importante porque criou contextos bem diferentes, onde poderia ter sido outra minha performance. Não foi o caso. E se não fosse o fato de eu ser professora, acho que mal conheceria o tom da minha voz.

Na verdade, não sou apenas silenciosa: sou bilíngue timidez/português. Na escrita, mais fluente em português, menos fluente em timidez. Por isso, quando eu aprender inglês, vou escrever um texto pra Mohand, em inglês/português, pra dizer pra ele as coisas que eu teria dito se eu falasse inglês. Aos novos e doces baianos no velho mundo, fico grata pelas tentativas de me inserir. Pra Kika, meu amor tá sempre fresquinho. Pra Mohand, também.


Mago

Quando me mudei de Porto Alegre pra Aracaju, em 2004, resolvi passar adiante a maior parte dos meus livros. Eram muitos, bem lá uns 200 volumes, pois encheram oito daquelas caixas plásticas de empresas de mudança. Resolvi passá-los adiante pelas seguintes razões:1)  os poucos, talvez dez deles que eu ainda não tinha lido, dificilmente leria na década seguinte (recentemente, me arrependi, pois aqueles títulos estão sendo relançados agora  numa coleção “clássicos abril”, sabe, aqueles que a gente tem que ler um dia?); 2) os demais, eu já os lera todos  3)  além disso, já havia meio que definido interesses acadêmicos  e entraram nesse grande pacote de doação inclusive os livros cujos temas eu não queria mais estudar, e assim pelo menos uns 50 deles foram pra biblioteca da UFRGS.

Mas teve um conjunto de livros com o qual não sabia muito bem o que fazer, e só depois de muito hesitar foi que decidi fazer um grande pacote de presente e dá-los a uma amiga querida. Eram os livros do Saramago: o primeiro deles que li,  “Objecto quase”, comprado, imagine!, numa caixa de saldos de uma feira do livro de Porto Alegre,  e todos os outros, inclusive os  “Cadernos de Lanzarote”, de não ficção. Mas desde “O ensaio sobre a cegueira” decidi que não leria mais nada dele: achava impossível ele se superar como ficcionista depois desse e do “A jangada de pedra”,  “O evangelho”, “História do cerco de Lisboa”  e de “O ano da morte de Ricardo Reis”. Sei que minha amiga se sentiu honrada com a doação, e os tem até hoje.

Eu também  os tenho, apesar de tê-los dado, mas aquele espécie de “ter” que não é mais separada do “ser”, pois ter lido Saramago me compõe como a criatura que sou, inclusive pelo que não sou: como ousar querer escrever ficção depois do Saramago? Ele já me disse. Lembro do assombro ao ler “O Evangelho”; quando decretam a morte dos recém-nascidos, José sai às carreiras entre as vielas pra pegar Maria e o Menino, uma aflição só, mas, pergunta o narrador, por que ele não avisou os outros do vilarejo, à medida que descia morro abaixo e podendo bater nas portas e gritar “salvem seus bebês!”? Fiquei pasma, por que eu fiz essa pergunta pra minha profe de catequismo quando eu tinha, sei lá, 12 anos? – claro, ela não respondeu a ousadia, e naquela semana não ganhei estrelinha no meu caderno de catequese.

Um outro episódio saramaguiano na minha vida se deu enquanto eu fui aluna de Letras. Houve um seminário internacional sobre literatura portuguesa na UFRGS, e lá estavam especialistas da área e os escritores Helder Macedo, poeta, palestrante do primeiro dia,  e José Saramago, que fecharia com a ficção em prosa. Foi antes de ele ganhar o Nobel. Encaminhei uma pergunta ao Helder, ele leu e fez uma cara de quem tinha gostado da pergunta, mas não respondeu. Quem o fez foi Saramago, que na manhã seguinte, abre a conferência dizendo que a fala dele era uma homenagem à pergunta tal, e citou-a. Lembro que encontrei o namorado à noite e apenas lhe disse “Saramago respondeu minha pergunta”, como se eu fosse a pessoa mais brilhante do mundo por ter merecido a atenção de um cara como ele. Isso rendeu tanto no meu delírio de autoestima que me atrevi a escrever um conto, nunca publicado, cuja primeira frase era “Saramago respondeu minha carta”.

Só soube que ele morreu  por volta das 13h15. Uma ex-aluna me liga, pedindo entrevista sobre Saramago e eu que não, não dou entrevista, e antes de explicar por que e indicar o nome de um colega, a ligação cai e junto a ficha: “ele morreu?”, perguntei em seguida quando ela voltou a ligar. “Professora, a senhora não vê televisão?”

Pois é, sempre preferi ler.

 


Discurso de paraninfa – Jornalismo 2007/2

Professora doutora Beatriz Colucci, coordenadora do curso de Comunicação Social da Universidade Tiradentes; professor doutor Ronaldo Linhares, homenageado desta turma de formandos; demais colegas da docência do jornalismo; prezados pais, familiares, amigos, filhos, namorados e namoradas, esposos, esposas, parceiros de vida de cada um de vocês. 

Caríssimos jornalistas da turma 2007/2 

Esta é a minha primeira vez como paraninfa. Estou com um friozinho na barriga. Minhas mãos tremem e minha voz hesita. Mas meu coração exulta em vivas de alegria. Alegria porque a generosidade de vocês, ao me honrarem como vossa paraninfa, inaugura na minha vida uma nova espécie de alegria, que faz parte agora do meu inventário pessoal. 

E esta nova espécie de alegria se deve ao fato de vocês terem me escolhido para ser paraninfa porque fui professora de vocês. E ser professora é a melhor parte de mim. É o meu melhor jeito de estar e de ser Ester neste mundo.  

Mas me escolher como paraninfa pouco diz a meu respeito: se trata de vocês, porque entendo que, à maneira de um espelho, meu jeito de ser professora revelou sobre vocês qualidades desconhecidas, méritos impensáveis, habilidades surpreendentes. Eu um espelho devolvendo a vocês o que vocês têm de melhor.

E nisso reside uma das belezas da vida. E nisso reside também o encontro pedagógico. E nisso reside também o devir das aprendizagens. Por isso a alegria de estar aqui, me dirigindo a vocês nesta solenidade que é a representação de um percurso. Da finalização de um – e do começo de outro. Ponto de chegada.  Ponto de partida.

Mas também uma encruzilhada que aponta escolhas possíveis e decisões a serem tomadas. Como a vida: que não se descola da escolha profissional, que não se desvincula do jeito que somos, do jeito que escolhemos ser. 

Talvez o melhor desse momento de alegria seja sua potência, seu há de vir, seu fôlego renovador pros passos que se seguirão ao último brinde pela conclusão da graduação. 

E pro devir, carregamos amanhãs plenos de ontem, como disse Ronaldo Linhares. Amanhãs plenos de ontem ….  parece o poeta Manoel de Barros, que escreveu assim: 

“Notei que descobrir novos lados de uma palavra

Era o mesmo que descobrir novos lados do ser.

A gente é cria de frases.” 

Se a gente sai da palavra e vai pro texto, texto que nos ocupou durante quatro semestres, se pode parafrasear o poeta assim: 

“Notei que descobrir novos lados de uma história

Era o mesmo que descobrir novos lados do ser.

A gente é cria das histórias que contamos.” 

Pois bem, ao escrever esse texto, que é pra vocês, descobri um novo lado do meu ser: descobri que vocês são constitutivos da minha história de vida, descobri que vocês são constitutivos do jeito que escolhi estar e ser Ester no mundo,  pois eu sou cria dos textos que os orientei a escrever, eu sou cria da professora que vocês contribuíram para que se concretizasse em mim, eu sou cria do olhar de vocês sobre o meu jeito de estar e ser Ester no mundo. 

Meu desejo – o que fica junto com esta alegria compartilhada –  é que cada um de vocês possa achar um novo lado de si mesmo em cada história que for contada, em cada notícia que for dada, em cada texto que for escrito. 

Porque assim o jornalismo será a expressão de um ponto de vista particular que se oferece ao conhecimento público; porque assim o jornalismo será um jeito de olhar o mundo com a sempre nova e atenta curiosidade  de um gato a passear pelo mesmo jardim pela centésima vez. 

E mesmo assim, mesmo que o olhar felino tenha estado ali dezenas e dezenas de vezes, nos desdobramentos das histórias tudo está ainda a ser descoberto, tudo está ainda por ser percebido. Tudo está ainda para ser contado.  

Ao trabalho, então. Contem. Mostrem. Revelem, desvelem. Descubram. Escrevam. E que em cada linha, em cada história, tenha sempre um tanto do melhor de cada um de vocês. 

Cum toto cordis, se diz em latim; em português, se diz “com todo meu coração.”


Grisalhice

O peito ainda não caiu, coxa e panturrilha durinhas, bundinha empinada, não faz um ano ainda que dei meu primeiro beijo, pele macia, lisinha e sem manchas, os longos dedos das mãos e os caninos implacáveis de cada lado do meu lindo sorriso ainda não têm o amarelão da nicotina:  e ainda assim, no fulgor da juventude, no ápice da produção hormonal, no pico dos fluídos corporais, lá está ele: o fio de cabelo branco encontrado perdido entre a vastérrima cabeleira. Exemplar único da espécie no meu território capilar, passa a ser explorado com uma mistura de êxtase “estou ficando velha! adeus adolescência problemática!” e desespero “estou ficando velha! socorro, alguém me ajude!”. Com polegares e indicadores, isolo o fio com precisão cirúrgica, organizando à esquerda e à direita a cabeleira castanha. Ao esticá-lo para cima, procuro um ângulo diante do espelho em que o fundo fique mais escuro e reduzo a iluminação do banheiro para que aquela linha prateada possa deixar traçada uma divisória clara no fundo da imagem refletida: à esquerda do fio de cabelo branco, toalha de banho, armário, janela; à direita do fio de cabelo branco, box, parede, porta.  Ao esticá-lo para baixo, a extremidade toca a leve cavidade que há entre meus seios; mais acima, peito, queixo, lábios, nariz, testa. Se pressiono o resistente fio branco contra meu próprio rosto, uma microtrincheira se forma na ponta do nariz e verticalmente demarca territórios de guerra muito parecidos: o lado esquerdo do meu rosto; o lado direito do meu rosto. Este foi o primeiro, inesquecível. Depois dele, outros fios brancos foram se acumulando ao longo de duas décadas e sendo implacavelmente cobertos por camadas sucessivas de tinta: caju, marrom e berinjela enquanto morei no sul; tons mais claros, quase loira, no verão eterno destes trópicos sergipanos. Os novinhos que ainda vêm se somar à pródiga cabeleira já nascem branquelos, rijos e rebeldes: não há gel, creme, espuma e quejandos da doma capilar que dê jeito – eles nunca ficam no lugar onde os deixei. Mais recentemente, e já que tive que adotar exercícios de alongamento três vezes por semana, desisti dessa ginástica de dissimulação desta entidade quarentona chamada cabelos brancos. Agora os tenho deixado vir, e a cabeleira está marcada em duas cores: o quase cobre nos resquícios indisfarçáveis da tinta e os grisalhos, estes senhores a quem concedo honras de chefe de estado em homenagem aos meus 45 anos. Cheguei a planejar vestir de agora em diante só cinza, preto e prata, pra combinar com os grisalhos: mas não me concebo sem meus laranjas e goiabas, sem os beges e amarelos, sem os verdes e pistaches. No meu guarda-roupa, uma aquisição aqui, outra acolá, se acumulando em combinações coloridas. Na gavetinha do armário do banheiro, nenhuma tinta de cabelos. No espelho, descobertas de uma mecha mais clara aqui, e outra acolá, de um prata ainda mais reluzente. Brilho, luar, tempestade. Mas há garantias: o sol sempre é aquele espetáculo.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.