Arquivo da categoria: Opiniães

Viajar não é preciso

Ontem entendi que o que me faz feliz em viagens são duas coisas: café da manhã de hotel e as árvores que nunca vi antes.

Se na viagem não ficar em hotel, a visita obrigatória será às padarias, das mais sofisticadas às mais simples.  Pão é coisa de gente, visceral e nobre. E se estiver em “qualcuna osteria”, alguma variedade e alguma qualidade dos pães do café da manhã já me fazem feliz.

Se eu for em janeiro, a França, ainda que coberta de neve, será um destino bem na medida desse prazer; posso tranquilamente viver de pão, queijo e vinho durante cinco dias, e mais feliz ainda ficarei se de quebra intercalar um gole de vinho e outro com um chocolate. Podem ser os suíços, ou os belgas, que, lá,  imagino, tenham preços menos proibitivos do que aqui no Brasil. Com todo respeito, mas meu preferido nacional  vira uma pérola negra paraguaia.  Ficaria absolutamente genial um dia daqueles de céu azul e frio de cinco abaixo de zero. Aí, imagina a cena com uma manta colorida no chão de grama pro piquenique! Comendo pão sob a copa de uma árvore que nunca vi antes, mesmo que o ineditismo seja o fato de ela estar sem folhas, ou que só tenha sobrado uma que outra, mirradinha, por conta do friozão.

Coisa difícil de acontecer, esse dia assim pelas bandas lá de cima. Essas amenidades, acho que  só no inverno da serra gaúcha.

Árvores que não conheço se antecipam sempre ao lugar em que vou chegando. Fronteiras vão sendo diluídas nos tons de verde, do exuberante ao pálido das secas, dos escuros aos alaranjados outonais, e a copa das árvores é um tapete suspenso sobre o qual faço mágicas em revolteios porque assim, vistas do alto, as pessoas poderão ser diferentes.

Mas não muito: afora as maravilhas dos diferentes sotaques e as exceções raras, em geral vejo nas pessoas de um lugar diferente uma massa disforme que não chega a me provocar. Claro, uma exceção são os artistas: os de rua e os outros; a outra são aqueles encontros geniais, ainda que irrepetíveis.

Se viajar pra um lugar onde não tenha nem hotel, nem padaria, e se já estivermos no fim dos tempos e não sobrar nenhuma árvore, sequer uma graminha insólita no chão crestado de dor, terá um abraço querido me recebendo.

Isso me tira de casa, dos cheiros meus dividindo território com Cloé e Malu cats.

Com a praia ao alcance dos pés.

Isso não tem preço.

Mas é muito bom que eu possa pagar.

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Matriz

“E aí, quando eu já não mais queria voar, eis que me transformei num ovo.”

“Jamais esquecerei o dia que amanheci ovo.”

“Epitáfio: aqui jaz blue a ave que não foi.”

Fiquei pelo menos umas boas duas horas intrigada com aquela coisa branca em formato oval que aparecia no lugar do pássaro azul esvocejante do twitter cada vez que entrava ali depois de ter desistido de microblogar a cada vez em quando.

Até cair a ficha: gente, voltei ao status-ovo!

Nada de pássaro azul migratório, tentacular feito um polvo de mil braças, hibernante eventualmente.

Ali, não tem negociação possível: ou a gente tuíta ou não tuíta, e ponto final.

Bastou ficar mais de 48 horas sem postar e me remetem a minha forma mais ancestral, mais visceral, menos humana e mais bicho.

Essa é outra coisa bárbara na web: a explicitação tácita de processos. Ressonância (ou será consonância?) da pós-modernidade.

Deixei de tuitar, e mesmo que ninguém se dê conta disso [porque, convenhamos, isso não tem a menor relevância], o próprio sistema me re-categoriza, anunciando pra quem está na minha rede sem ser peixe: de pássaro esvoaçante à condição primeva de ovo, bastam apenas 48 horas de silêncio e não-protagonismos registrados na web.

E eis que percebo: até não ser é identitário na web!

Assombro-me.

Espanto-me.

Boquiaberto-me.

O que nos diria Clareza Lispector?


Incômodo

Têm me incomodado muito essas personagens mais ou menos recentes no cenário urbano que formam um rebanho cada vez mais numeroso, espraiando-se pelas pradarias afora, em todos os cantos. E me incomodam não por existirem, que cada um escolhe o que quer fazer na e com a vida – mas pelo fato de me imporem seus pontos de vista, sem nenhuma chance de rechaçá-los.

Explico: do terreno vizinho a minha varanda, a uns 15 metros de distância sem barreiras, a partir das 8h30 da manhã ecoam os hinos à glória e às bênçãos de Deus, em altíssimo volume.

No táxi, o rádio sintonizado em frequência divinamente escolhida me submete à doutrinação em ritmo de pop rock.

Na vizinhança de outra casa que frequento sistematicamente nas tardes de sábado, a faxina é consagrada em louvor a Ele, e não vem ao caso se estou do outro lado do muro deitada na rede querendo ler, estudar ou se estou simplesmente não querendo nem fazer e nem ouvir nada: o muro separa as casas onde estamos, mas não é fronteira pro som que se propaga em ondas que, pra pessoa que está do outro lado do muro, embala e conforta e anima e salva; a mim, apenas irrita as borbulhas de pecados e culpas que já larguei com mala e tudo em outras andanças.

Na Igreja Católica, fui batizada, fiz crisma e primeira comunhão, participei das missões, cheguei a pensar em seguir vocação religiosa (!) batia ponto nas missas domingueiras, batizei minha sobrinha, apadrinhei alguns casórios e chorei a morte de alguns queridos da minha vida.

Mas tudo foi “dentro-da-igreja”: participei porque aceitei o convite pra estar lá (bom, tá, à exceção do batismo), participei porque quis me integrar à cerimônia, e mesmo depois de passar a acreditar só no deus-em-mim, ainda participo uma vez que outra porque é socialmente relevante.

Mas não me lembro de ter invadido a privacidade dos outros em nome das minhas crenças; não tenho registros de ter conduzido uma conversa banal às raias da doutrinação; não me lembro de ter sido invasiva em nome de Jesus (bom, pode ser que eu tenha sido em nome de joãos, mas aí é outra coisa) e não me ocorre ter reiterado o que quer que seja quando a pessoa já não me ouvia mais.

Dia desses, o faz-tudo a quem recorro eventualmente pras broncas domésticas que não resolvo sozinha com minha caixa de ferramentas me socorreu num probleminha hidráulico. Fez o serviço, paguei, agradeci, dei bom-dia e ele “Que Deus te abençoe” e eu que sim, obrigada, enquanto abria a porta pra ele sair. O moço parou, voltou-se e olhando-me nos olhos, assim, fundo, repetiu “Deus te abençoe, viu, Dona?”, deixando claro que ele percebera que o meu sim era uma mera cortesia a título de fim de conversa, e não um acolhimento à benção com que ele me honrava naquela minha manhã até então tão profana.

Parece que o cerco se fecha inescapavelmente: se não é axé, é forró ou pagode do ruim; se não são eles, tem agora o hinário travestido de baixos e guitarras, instrumentos de pretexto pra louvar e bendizer 24 horas por dia em qualquer lugar onde se esteja.

A mim, só me resta comprar tampões de ouvido, que não consigo usar. Ou protestar.

Pronto: protestei.


Revisão é pra toda vida

“Mas teve um conjunto de livros com os quais não sabia muito bem o que fazer, e só depois de muito hesitar foi que decidi fazer um grande pacote de presente e dá-los a uma amiga querida.”

Isso  foi o que publiquei no “Mago”. Hoje, lendo meu texto republicado na mais recente edição do  Balaio de Notícias do caríssimo  Paulo Lima foi que então vi a falta de concordância, ou melhor, a concordância com o último elemento do sintagma nominal (SN) sujeito (livros) e não com o núcleo dele (conjunto). Agora já arrumei, da mesma forma que fazem os jornalistas da Folha online, por exemplo, quando publicam a chamada pra notícia e meia hora depois, o erro gramatical foi corrigido. Pra ver como as coisas são: até eu, mortal sem academia.

É muito regular, recorrente, frequente, que nesse tipo de enunciado (SN formado por núcleo singular e determinante no plural) a gente faça a concordância assim, com o elemento que fica mais próximo do verbo.  Na fala, mesmo a mais monitorada, é quase majoritário. Na escrita, inclusive em textos bem monitorados, como os que publico aqui no blog, também seria, se não fosse o olho de olho bem aberto focalizando a revisão na gramática, e não no conteúdo.

Como sempre, a língua segue seu curso. A gramática normativa, às vezes, o refreia. Mas não pra sempre. Nem por muito tempo.


Fazendo uma colocação

Como anunciei no meu post anterior, o primeiro texto da categoria “perguntas que me fazem sobre língua” com o qual me ocupo aqui é a respeito de uma colocação de uma colega professora. Estando sentada ao meu lado, ela sussurrou ao meu ouvido: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. Essa fala dela pra mim aconteceu assim que ouvimos um outro colega professor fazer um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”, durante um recente encontro de professores universitários em atividade acadêmica.

Então, vejamos: a primeira coisa que eu faço aqui é dar concretude à minha seguinte afirmação: esta expressão é altamente produtiva, sendo utilizada inclusive (será principalmente?) por gente culta, em contextos formais de uso da linguagem. Tal produtividade dos enunciados fica logo evidenciada numa rápida pesquisa no Google, realizada domingo passado: para a expressão de busca “fazer uma colocação”, foram dados 11 mil resultados; alterando a expressão para “colocar uma questão”, o Google nos dá 76 mil resultados; alterando mais uma vez e pesquisando “a colocação que * fez”, temos 69 mil resultados e a pesquisa de “a colocação feita por *” resulta em 15 mil ocorrências. Lembro ao leitor que o asterisco inserido na expressão entre aspas permite que a pesquisa considere ocorrências seja qual a for a palavra que estiver ali, no lugar do asterisco, recurso que permite ampliar as expressões pesquisadas.

Só esses dados quantitativos já seriam suficientes pra atestar a legitimidade do uso da expressão, ou, colocando a questão de um outro jeito, o número de 171 mil ocorrências num site como o Google é um indicativo bastante seguro da adequação da expressão. Fica bem estranho tentar defender a idéia de que 171 mil pessoas estejam erradas, certo?

 Isso significa o que? Significa que o termo “colocar” foi passando por uma especialização de sentido com o andar da carruagem. Realmente, se a gente pensar no apelo etimológico do termo, temos collocare, pôr em algum lugar. Assim, é claro que o termo (ainda) remete ao sentido de ‘lugar’, mas, com o uso, a expressão se especializa, ampliando e renovando seu sentido.

Se isso está coerente e dada a produtividade do uso da expressão, tal como visto nas, repito, 171 mil  ocorrências do Google, é de se esperar que dicionários importantes registrem ‘colocar’ no sentido de posicionar-se em relação a algo/ alguém através de um enunciado linguístico, falando algo para alguém em contextos bem determinados de usos da linguagem. Por exemplo, no Dicionário Unesp do Português Contemporâneo, de 2004, no verbete ‘colocar’ encontramos ‘expor, apresentar’, e como exemplo aparece eu também quero colocar minha opinião. Verifiquemos também algumas das 13 acepções que o Houaiss de 2009 apresenta para “colocar”. Num primeiro bloco, trago aqui “botar, situar (algo, alguém ou a si mesmo) [em algum lugar, em determinada situação, posição etc.]; pôr(-se)”, e como exemplos, colocar o pé no estribo, o técnico colocou o time em primeiro lugar; além dessa acepção, há também “assentar, depositar, arrumar”, como no enunciado levou o dia inteiro para colocar tijolos. Num segundo bloco, as acepções de uso do verbete ‘colocar’ que aparecem no Houaiss são derivações de sentido, que certamente não causam estranheza ao leitor: ‘situar(-se) [hierárquica ou moralmente]’, tal como ocorre no exemplo a repreensão colocou José no seu devido lugar e ‘julgar (-se), considerar (-se)’, como no exemplo colocou-se acima dos outros. E pra não nos estendermos mais, na acepção 5 do verbete ‘colocar’ encontramos então ‘propor, aventar, expor’, acepção exemplificada pelo Houaiss com colocou uma questão.

Dito isso, vamos ver na sequência quatro exemplos de contextos de escrita publicada na web em que foi encontrada a expressão ‘a colocação feita por *’.

1) Texto científico, monitorado: a colocação feita por Trivinos, quando diz que as teorias estão fortemente determinadas pelas condições sócio-económicas, históricas e culturais […].

2) Texto científico, monitorado: É difícil decidir se a colocação feita por Frege do problema da significação foi realmente benéfica ou prejudicial para os estudos semânticos […].

3) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado, com discurso reportado da fala de uma desembargadora: Neste sentido, a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Genacéia Albeton: “É acertada a colocação feita por Arruda Alvim, …” […].

4) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado: Luiz Fernando Figueiredo, analista do banco norte-americano JP Morgan, disse ser “verdadeira” a colocação feita por Meirelles […].

Das 15 mil ocorrências para a expressão ‘a colocação feita por *’, essa pequena amostra reproduzida acima deixa claro que a expressão ‘colocar’ com o sentido rechaçado pela professora é amplamente utilizada por falantes cultos, e, como se vê nos exemplos, amplamente utilizada também por quem escreve texto formais e monitorados em termos de expressão linguística. E já se sabe que do ponto de vista da variação e  mudança linguística, a  fala culta e escrita formal são as duas instâncias do uso da linguagem que legitimam a forma/expressão em uso, tanto do ponto de vista linguístico quanto social (ver Faraco, Linguística Histórica).

Assim, concordar ou não com a expressão usada pelo colega já não faz a menor diferença.  A língua, como sempre, segue seu curso.


Apenas uma colocação preliminar

Com este post, inauguro uma nova categoria para meus textos aqui no blog: com “perguntas que me fazem sobre língua” abro espaço pra registrar reflexões linguisticamente fundamentadas sobre comentários/perguntas sobre a língua que me são dirigidos. Meus 12 anos como professora de português e minha escuta linguística me permitem antecipar aqui que provavelmente não poderei dar conta de registrar as reflexões que faço sobre tudo que me perguntam/comentam, ou mesmo as reflexões que faço a partir de coisas que apenas ouço dizerem sobre a língua, pois aí eu teria que dispor de um turno do meu dia, talvez mais, só pra dar conta desse recado. Digo isso não pra que você saiba o quanto sou ocupada, mas pra lhe situar em relação à intensa produtividade desses comentários, na maioria das vezes dirigidos a mim de forma direta, outras delas, chegando a mim como ouvinte não ratificada.

Então comecemos assim: não posso ser ingênua e ignorar o que sei que esperam de mim ao me fazerem uma pergunta sobre alguma questão da língua. A expectativa do meu interlocutor é que eu seja taxativa, e que me saia rapidamente com um “certo” ou um “errado” e que, além de vaticinar um julgamento sumário, meu interlocutor espera também que eu acrescente algum argumento de caráter normativo. Claro está que essa expectativa é motivada pelo fato de eu ser professora de português, e nisso estão implícitas 1) uma determinada idéia que se tem sobre o que deve saber um professor de português e 2) uma outra determinada idéia sobre o papel de guardião da ‘língua certa’ atribuído ao professor de português.

O conflito está no fato de que minhas respostas não são nem taxativas, nem gramatical e normativamente orientadas. São, sim, enquadradas no contexto de uso, pois linguisticamente orientadas. Aí, pra poupar atalhos necessariamente diplomáticos que dão quase sempre uma trabalheira danada, e pra tentar ir direto ao ponto tentando ao mesmo tempo preservar a face do meu interlocutor, eu respondo a pergunta com uma outra: “por que você acha que está errado?”. Essa é a que eu faço se eu estiver compartilhando do mesmo contexto que motivou a pergunta. Se não for esse o caso, e sendo a pergunta assim, formulada de supetão, eu a devolvo pedindo a meu interlocutor que ele situe o questionamento: “você pergunta isso em relação à fala ou relação à escrita?”, ou ainda, “como assim, em que contexto?”.

Essa minha postura sinaliza ao meu interlocutor, desde então, que ele não vai ouvir de mim o julgamento taxativo, papel histórica e socialmente atribuído ao professor de português. Os meus colegas de ofício sabem bem como é: basta a gente se apresentar socialmente como tal e lá vem o “hi, agora tenho que falar certo, né?” . E os meus não colegas de ofício também sabem direitinho como é: basta saberem que estão sendo ouvidos por um professor de português pra monitorarem a fala, monitoramento quase sempre ativado de forma instintiva, independente do fato de estarmos numa mesa de bar ou numa atividade acadêmica. Uma outra sinalização que faço ao meu interlocutor é com minha resposta “não sei, mas posso pesquisar”. Aí, é um assombro. Ao contrário do que fazem os que lançam mão da embromação, se eu não souber a resposta digo sem constrangimento que não faço a menor idéia, e que, bom, me disponho a pesquisar e tentar responder. A partir da minha autodeclaração de ignorância, meu interlocutor quase nunca consegue nem dissimular nem esconder sua incredulidade pelo fato de eu ter dito que não sei.

Enquanto ele está ali na minha frente, sem saber o que fazer com minha resposta, um script se forma na minha cabeça: meu interlocutor me coloca na testa um adesivo com “incompetente” escrito em letras garrafais de cor fosforescente. E com esse gesto dele tem junto sua pergunta nunca enunciada: “Como é que não sabe e é professora?”.

Dito isso, como colação inicial, você pode esperar de mim um texto que resulte de um trabalho cuidadoso, de uma reflexão ponderada, de uma abordagem científica. Claro está que fica implícito um ponto de vista pessoal, pois, como sabem meus alunos de jornalismo da Unit, faço uma escolha que incide 1) sobre quais tópicos vou escrever 2) sobre o enquadramento linguístico da abordagem. E isso me define como a professora que sou.

O primeiro texto com o qual vou me ocupar, tendo já me preocupado com a questão (meus alunos são alertados sobre a diferença entre ‘se preocupar com o texto e se ocupar do texto’), é sobre uma colocação de uma colega professora. Ela disse: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. O contexto era um encontro de professores universitários em atividade acadêmica, onde também eu, como participante do evento, ouvi um outro colega professor fazer ao microfone um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”. Esse será o tema do meu próximo post.

Saudações lingüísticas.


Na vitrine do Google

Volta e meia, coloco meu nome entre aspas na barra de busca do Google pra ver por onde ando nas trilhas da web. É divertido ver as referências a mim promovidas por coisas que eu havia esquecido que fizera. Claro, metade da diversão fica por conta do meu esquecimento; a outra, por conta de as pessoas me tornarem explícitas as formas como me veem. Isso fica ainda melhor quando as referências extrapolam as tramas internéticas deste blog, pois então já posso antecipar o quão antigo o troço é.

Sou citada, por exemplo,  entre 7.742 criaturas importantérrimas num site chamado “Roteiro romanceado”  no item ‘a arte do romance em citações’. Imagine que na lista por ordem alfabética eu venho depois de Ésquilo!  Agora, confesso, aqui nesta ágora moderna, que não consegui saber o que de mim foi citado pela minha absoluta e recorrente inabilidade em usar essas ferramentas de busca – sorry, mas ainda gosto mesmo é de chave de fenda e de alicate no muque.  

São 391 citações com meu nome, mas lembro bem do susto que levei a primeira vez que fiz isso, lá por 2007, quando conquistei banda larga – eram sete, só, e ainda assim fiquei boquiabertada: eu estava na web! Os rastros de minha vida concreta ali, disponíveis, a quem interessar possa.

E agora, três anos depois, sem banda larga e seis quilos a mais, volta e meia caço pegadas de mim na vida dos outros – bancas, formaturas, eventos acadêmicos, entrevistas, depoimentos e quejandos e fico espantada ainda mais com a extensão da vida da gente na dos outros: com mais ou menos intensidades, com mais ou menos alegrias e encantamentos, parece surgir uma árvore – não a genealógica, mas uma árvore-polvo, cujos tentáculos mambembes itinerantes nômades se prolongam  e se estendem um pouco mais a cada vez que tocam a vida de alguém.

A web, fiel depositária desses percursos, instaura assim o inventário de uma vida registrado nesse espaço que é de todos. Sem raízes, sem amarras; sem origem, nem tradição – e no entanto, vigoroso e pleno como uma boa gargalhada e um aperto de mão.