Arquivo da categoria: Perguntas que me fazem sobre língua

Meu primeiro beijo (ou por que vivo bem em espaços pequenos)

Sim, claro que eu sei que não tem a menor relevância isso. Mas é que é inusitado o suficiente, acho, e agora, entusiasmada pela crônica do conterrâneo Flávio Ferrarini, vou contar como foi.

Mas começo dizendo com quem. Foi com o Chico Oliboni. Eu tava de olho nele já há um tempão nas tardes no bar do Pasetto, em meio aos bolos de chocolate inimitáveis da dona Helena.

As gurias ficavam nas mesinhas, os guris no balcão do bar;  cada grupo nas suas respectivas vitrines, separados pela de vidro dos salgados quentes, os olhares em paqueras se esgueirando entre empadinhas, croquetes e pastéis.

Só quem é da Flores dessa época sabe que entre a casa do Chico e o bar do Pasetto era só dobrar a esquina e atravessar a rua, não mais de 100 metros. Mas naquela tarde de sábado, ele passou pela frente do bar umas oito vezes antes de parar o carro, o amarelão do ônibus das cinco como pano de fundo do outro lado da rua.  Se exibir desse jeito era aceitável: servia pra justificar a façanha de aparecer pilotando o IK 1437 – lembro da placa até hoje! – cujo dono de fato era a temida dona Clélia, minha futura sogra.

E assim, entre uma empadinha e um chocolate quente e depois de todo um volteio (ou um arrodeio, como dizem aqui em Sergipe) fui convidada pra dar uma volta. Era inverno e fazia um frio de rachar; tão frio que ele estava com um pala desses, com gola de pele. Fomos ao famoso morro da parte mais alta da cidade. Bastou  ele desligar o carro e foi logo dizendo “que calorão, né?”. Depois de uns dois minutos de manejo treinado na arte de tirar um pala dentro de um fusca, desenrolado daquele cobertor portátil aparece um homem cheiroso com uma camisa de lã xadrez de fundo verde. E assim, como se esticasse um lençol pelas pontas, Chico abriu o pala dividindo o fusca marrom em dois ambientes: o pala, também chamado de poncho, foi aberto como uma cortina. Chico pegou uma ponta da cortina-pala e a prendeu na porta, aberta rápido pra o frio não entrar. Eu fiz o mesmo com a outra ponta, na porta do passageiro.

E assim, no fusquinha marrom que só saía da garagem sob a raríssima licença expressa da dona Clélia, ficamos eu e Chico nos bancos da frente; e como naquela época (ainda) não saía sozinha, atrás de nós ficaram Silvinha e Pixoto, embarcados juntos na aventura que num acordo tácito os tornava cúmplices e testemunhas não oculares do que estava por vir.

E assim, num fim de tarde de um dia muito frio de um sábado em que à noite haveria São João no ginásio, enfim dei meu primeiro beijo de língua (e como disse o Flávio, “lá se vão” 35 anos). Achei sensacional aquela coisa das quenturas molhadas misturadas pelas línguas se atracando feito ventosas. Sensacional também era confirmar com a minha boca o desenho decorado da boca dele, os macios dele moldados entre meus lábios entreabertos em movimentos só então inaugurados. Os estalos escorregadios das línguas e dos lábios eram prenúncios de que ficaria ainda melhor, embora cada vez mais barulhento à medida que aos estalos se misturavam os gemidos abafados pela respiração profunda, os pulmões se enchendo de ar pra mais um mergulho que eu sabia não ser fantasia porque ali estávamos nós. Ainda assim, ainda que eu soubesse que não era um delírio,  volta e meia entreabria os olhos pra ter certeza de que sim, eu estava beijando pela primeira vez e sim, era o tão desejado Chico. Qualquer outra referência concreta de um mundo real estava fragilizada pela densa neblina do embaciado dos vidros do fusca.

E assim, entre um suspiro e outro engolindo a saliva misturada à dele, de novo nos lançávamos àquele delicioso e fervilhante descaramento que a essas alturas já explorava pescoço, testa, orelhas e mãos, a boca amalgamando os gestos e as línguas em deleite nos territórios recém-conquistados.

E assim, num fusca partido ao meio beijei um homem por quem me mantenho apaixonada pra sempre. Precursoria de duas coisas importantíssimas na minha vida: 1) amar é definitivo; 2) dá perfeitamente pra pensar numa vida feliz em 35m².

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Revisão é pra toda vida

“Mas teve um conjunto de livros com os quais não sabia muito bem o que fazer, e só depois de muito hesitar foi que decidi fazer um grande pacote de presente e dá-los a uma amiga querida.”

Isso  foi o que publiquei no “Mago”. Hoje, lendo meu texto republicado na mais recente edição do  Balaio de Notícias do caríssimo  Paulo Lima foi que então vi a falta de concordância, ou melhor, a concordância com o último elemento do sintagma nominal (SN) sujeito (livros) e não com o núcleo dele (conjunto). Agora já arrumei, da mesma forma que fazem os jornalistas da Folha online, por exemplo, quando publicam a chamada pra notícia e meia hora depois, o erro gramatical foi corrigido. Pra ver como as coisas são: até eu, mortal sem academia.

É muito regular, recorrente, frequente, que nesse tipo de enunciado (SN formado por núcleo singular e determinante no plural) a gente faça a concordância assim, com o elemento que fica mais próximo do verbo.  Na fala, mesmo a mais monitorada, é quase majoritário. Na escrita, inclusive em textos bem monitorados, como os que publico aqui no blog, também seria, se não fosse o olho de olho bem aberto focalizando a revisão na gramática, e não no conteúdo.

Como sempre, a língua segue seu curso. A gramática normativa, às vezes, o refreia. Mas não pra sempre. Nem por muito tempo.


Fazendo uma colocação

Como anunciei no meu post anterior, o primeiro texto da categoria “perguntas que me fazem sobre língua” com o qual me ocupo aqui é a respeito de uma colocação de uma colega professora. Estando sentada ao meu lado, ela sussurrou ao meu ouvido: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. Essa fala dela pra mim aconteceu assim que ouvimos um outro colega professor fazer um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”, durante um recente encontro de professores universitários em atividade acadêmica.

Então, vejamos: a primeira coisa que eu faço aqui é dar concretude à minha seguinte afirmação: esta expressão é altamente produtiva, sendo utilizada inclusive (será principalmente?) por gente culta, em contextos formais de uso da linguagem. Tal produtividade dos enunciados fica logo evidenciada numa rápida pesquisa no Google, realizada domingo passado: para a expressão de busca “fazer uma colocação”, foram dados 11 mil resultados; alterando a expressão para “colocar uma questão”, o Google nos dá 76 mil resultados; alterando mais uma vez e pesquisando “a colocação que * fez”, temos 69 mil resultados e a pesquisa de “a colocação feita por *” resulta em 15 mil ocorrências. Lembro ao leitor que o asterisco inserido na expressão entre aspas permite que a pesquisa considere ocorrências seja qual a for a palavra que estiver ali, no lugar do asterisco, recurso que permite ampliar as expressões pesquisadas.

Só esses dados quantitativos já seriam suficientes pra atestar a legitimidade do uso da expressão, ou, colocando a questão de um outro jeito, o número de 171 mil ocorrências num site como o Google é um indicativo bastante seguro da adequação da expressão. Fica bem estranho tentar defender a idéia de que 171 mil pessoas estejam erradas, certo?

 Isso significa o que? Significa que o termo “colocar” foi passando por uma especialização de sentido com o andar da carruagem. Realmente, se a gente pensar no apelo etimológico do termo, temos collocare, pôr em algum lugar. Assim, é claro que o termo (ainda) remete ao sentido de ‘lugar’, mas, com o uso, a expressão se especializa, ampliando e renovando seu sentido.

Se isso está coerente e dada a produtividade do uso da expressão, tal como visto nas, repito, 171 mil  ocorrências do Google, é de se esperar que dicionários importantes registrem ‘colocar’ no sentido de posicionar-se em relação a algo/ alguém através de um enunciado linguístico, falando algo para alguém em contextos bem determinados de usos da linguagem. Por exemplo, no Dicionário Unesp do Português Contemporâneo, de 2004, no verbete ‘colocar’ encontramos ‘expor, apresentar’, e como exemplo aparece eu também quero colocar minha opinião. Verifiquemos também algumas das 13 acepções que o Houaiss de 2009 apresenta para “colocar”. Num primeiro bloco, trago aqui “botar, situar (algo, alguém ou a si mesmo) [em algum lugar, em determinada situação, posição etc.]; pôr(-se)”, e como exemplos, colocar o pé no estribo, o técnico colocou o time em primeiro lugar; além dessa acepção, há também “assentar, depositar, arrumar”, como no enunciado levou o dia inteiro para colocar tijolos. Num segundo bloco, as acepções de uso do verbete ‘colocar’ que aparecem no Houaiss são derivações de sentido, que certamente não causam estranheza ao leitor: ‘situar(-se) [hierárquica ou moralmente]’, tal como ocorre no exemplo a repreensão colocou José no seu devido lugar e ‘julgar (-se), considerar (-se)’, como no exemplo colocou-se acima dos outros. E pra não nos estendermos mais, na acepção 5 do verbete ‘colocar’ encontramos então ‘propor, aventar, expor’, acepção exemplificada pelo Houaiss com colocou uma questão.

Dito isso, vamos ver na sequência quatro exemplos de contextos de escrita publicada na web em que foi encontrada a expressão ‘a colocação feita por *’.

1) Texto científico, monitorado: a colocação feita por Trivinos, quando diz que as teorias estão fortemente determinadas pelas condições sócio-económicas, históricas e culturais […].

2) Texto científico, monitorado: É difícil decidir se a colocação feita por Frege do problema da significação foi realmente benéfica ou prejudicial para os estudos semânticos […].

3) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado, com discurso reportado da fala de uma desembargadora: Neste sentido, a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Genacéia Albeton: “É acertada a colocação feita por Arruda Alvim, …” […].

4) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado: Luiz Fernando Figueiredo, analista do banco norte-americano JP Morgan, disse ser “verdadeira” a colocação feita por Meirelles […].

Das 15 mil ocorrências para a expressão ‘a colocação feita por *’, essa pequena amostra reproduzida acima deixa claro que a expressão ‘colocar’ com o sentido rechaçado pela professora é amplamente utilizada por falantes cultos, e, como se vê nos exemplos, amplamente utilizada também por quem escreve texto formais e monitorados em termos de expressão linguística. E já se sabe que do ponto de vista da variação e  mudança linguística, a  fala culta e escrita formal são as duas instâncias do uso da linguagem que legitimam a forma/expressão em uso, tanto do ponto de vista linguístico quanto social (ver Faraco, Linguística Histórica).

Assim, concordar ou não com a expressão usada pelo colega já não faz a menor diferença.  A língua, como sempre, segue seu curso.


Apenas uma colocação preliminar

Com este post, inauguro uma nova categoria para meus textos aqui no blog: com “perguntas que me fazem sobre língua” abro espaço pra registrar reflexões linguisticamente fundamentadas sobre comentários/perguntas sobre a língua que me são dirigidos. Meus 12 anos como professora de português e minha escuta linguística me permitem antecipar aqui que provavelmente não poderei dar conta de registrar as reflexões que faço sobre tudo que me perguntam/comentam, ou mesmo as reflexões que faço a partir de coisas que apenas ouço dizerem sobre a língua, pois aí eu teria que dispor de um turno do meu dia, talvez mais, só pra dar conta desse recado. Digo isso não pra que você saiba o quanto sou ocupada, mas pra lhe situar em relação à intensa produtividade desses comentários, na maioria das vezes dirigidos a mim de forma direta, outras delas, chegando a mim como ouvinte não ratificada.

Então comecemos assim: não posso ser ingênua e ignorar o que sei que esperam de mim ao me fazerem uma pergunta sobre alguma questão da língua. A expectativa do meu interlocutor é que eu seja taxativa, e que me saia rapidamente com um “certo” ou um “errado” e que, além de vaticinar um julgamento sumário, meu interlocutor espera também que eu acrescente algum argumento de caráter normativo. Claro está que essa expectativa é motivada pelo fato de eu ser professora de português, e nisso estão implícitas 1) uma determinada idéia que se tem sobre o que deve saber um professor de português e 2) uma outra determinada idéia sobre o papel de guardião da ‘língua certa’ atribuído ao professor de português.

O conflito está no fato de que minhas respostas não são nem taxativas, nem gramatical e normativamente orientadas. São, sim, enquadradas no contexto de uso, pois linguisticamente orientadas. Aí, pra poupar atalhos necessariamente diplomáticos que dão quase sempre uma trabalheira danada, e pra tentar ir direto ao ponto tentando ao mesmo tempo preservar a face do meu interlocutor, eu respondo a pergunta com uma outra: “por que você acha que está errado?”. Essa é a que eu faço se eu estiver compartilhando do mesmo contexto que motivou a pergunta. Se não for esse o caso, e sendo a pergunta assim, formulada de supetão, eu a devolvo pedindo a meu interlocutor que ele situe o questionamento: “você pergunta isso em relação à fala ou relação à escrita?”, ou ainda, “como assim, em que contexto?”.

Essa minha postura sinaliza ao meu interlocutor, desde então, que ele não vai ouvir de mim o julgamento taxativo, papel histórica e socialmente atribuído ao professor de português. Os meus colegas de ofício sabem bem como é: basta a gente se apresentar socialmente como tal e lá vem o “hi, agora tenho que falar certo, né?” . E os meus não colegas de ofício também sabem direitinho como é: basta saberem que estão sendo ouvidos por um professor de português pra monitorarem a fala, monitoramento quase sempre ativado de forma instintiva, independente do fato de estarmos numa mesa de bar ou numa atividade acadêmica. Uma outra sinalização que faço ao meu interlocutor é com minha resposta “não sei, mas posso pesquisar”. Aí, é um assombro. Ao contrário do que fazem os que lançam mão da embromação, se eu não souber a resposta digo sem constrangimento que não faço a menor idéia, e que, bom, me disponho a pesquisar e tentar responder. A partir da minha autodeclaração de ignorância, meu interlocutor quase nunca consegue nem dissimular nem esconder sua incredulidade pelo fato de eu ter dito que não sei.

Enquanto ele está ali na minha frente, sem saber o que fazer com minha resposta, um script se forma na minha cabeça: meu interlocutor me coloca na testa um adesivo com “incompetente” escrito em letras garrafais de cor fosforescente. E com esse gesto dele tem junto sua pergunta nunca enunciada: “Como é que não sabe e é professora?”.

Dito isso, como colação inicial, você pode esperar de mim um texto que resulte de um trabalho cuidadoso, de uma reflexão ponderada, de uma abordagem científica. Claro está que fica implícito um ponto de vista pessoal, pois, como sabem meus alunos de jornalismo da Unit, faço uma escolha que incide 1) sobre quais tópicos vou escrever 2) sobre o enquadramento linguístico da abordagem. E isso me define como a professora que sou.

O primeiro texto com o qual vou me ocupar, tendo já me preocupado com a questão (meus alunos são alertados sobre a diferença entre ‘se preocupar com o texto e se ocupar do texto’), é sobre uma colocação de uma colega professora. Ela disse: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. O contexto era um encontro de professores universitários em atividade acadêmica, onde também eu, como participante do evento, ouvi um outro colega professor fazer ao microfone um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”. Esse será o tema do meu próximo post.

Saudações lingüísticas.