Arquivo da categoria: Opiniães

Por ordem de chegada

Não sem muito desconforto e não sem esbravejar durante um bom tempo, nos últimos cinco anos me rendi afinal à falta de pontualidade nas agendas dessa cidade. Se alguém marca com você e diz que vai chegar às sete, pode se organizar pra esperar até as oito, pelo menos. As outras meias horas depois destes primeiros 60 minutos vão depender muito de quem é a pessoa que marcou com você e de que natureza é o compromisso. Mas a regra é pelo menos uma hora de espera.

Qualquer jantarzinho despretensioso rende sempre isso. Às vezes, me enquadro e prometo só começar a arrumar as coisas considerando que haverá uma hora de atraso. Essa é a regra. Mas, ao mesmo tempo, anfitriã, me pergunto: e se forem pontuais, e ao baterem à porta sequer banho eu tomei? Uma vez, fiz uma massa especial de pizza, batida e aberta à mão, à boa moda italiana; quando os convidados chegaram, quase duas horas depois do combinado, a massa de pizza já tinha virado massa de pão e já tinha murchado; eles fizeram a gentileza de achar ótima e pedir bis.

Essa prática socialmente legitimada por essas bandas não se aplica apenas ao âmbito doméstico, privado. Ao contrário, pelo menos uma hora de espera é extensiva inclusive a saidinhas despretensiosas à praia. Basta lembrar quantas vezes me arrependi de passar o filtro solar em casa: quando cheguei à praia, já era.  Nunca me aconteceu – nem na condição de convidada – mas é bem frequente ouvir comentários sobre noivas que se atrasam inabalavelmente e deixam seus 300 convidados cozinhando por quase duas horas em fogo brando entre tafetás e ternos de microfibra. Até os padres reclamam! Diz que um deles agora  definiu um prazo de até 30 minutos depois da hora marcada: se a noiva não chegar, ba-baus cerimônia.

Assim, com esses no mínimo 60 minutos de espera em tão diferentes instâncias do trânsito social, fica fácil entender por que é tão excepcionalmente raro encontrar um médico que atenda com hora marcada. A maldita expressão “por ordem de chegada” é a segunda resposta que ouço depois de “sim, atende seu plano de saúde”, e é também a razão pra eu desistir e fazer outras 14 tentativas à procura de algum médico que pelo menos agende três ou quatro pacientes por bloco de uma hora, coisa minimamente civilizada. Nesta semana, me rendi e aceitei pagar uma consulta particular, 120 contos de réis, cancelada imediatamente ao ouvir da secretária que também era por ordem de chegada, ainda que eu estivesse desembolsando 120 pilas.

“Por ordem de chegada” é uma instituição legitimadora da total falta de compromisso com o outro e da total falta de respeito com o tempo alheio. Significa que tenho que me submeter ao tempo do outro, dedicar-lhe um turno inteiro do meu tempo por causa da inexplicável falta de habilidade em lidar com a simplicidade de uma agenda.

Se o tempo do médico é caro o meu é também, ainda que eu ganhe muito menos do que ele. E de nada adiantam ar-condicionado, café, água gelada, as compulsórias velhas edições das revistas de sempre e televisão ligada.

Adoraria, um dia, assistir apenas a um bloco, por exemplo, do programa da Ana Maria Braga, à espera do atendimento. Mas naquela imensa sala de 15, 25 – já contei 50 cadeiras enfileiradas, uma ruma de gentes espera. Louro José dá pitacos desde a abertura, passa pelos comentários, pela receita do dia, pela entrevista, e eu ainda ali, acompanhando também os comerciais.

Adoraria, um dia, ficar sem saber do vestido da celebridade da vez e da corrupção do mês passado. Adoraria, um dia, nem ter tempo de tomar um cafezin durante a espera pelo atendimento. Adoraria, um dia, encher minha garrafinha de água apenas uma vez.

E nem me diga pra levar um livro, pois a barulheira de atendentes às voltas com telefones e microfones (sim, pasmem, a barulheira é tanta que há um microfone pra chamar os pacientes na hora do atendimento) e as conversas sobre assuntos privados ampla e invasivamente compartilhados via celular nas salas cheias de gente impedem as mínimas condições pra uma leitura, até mesmo pra uma leitora profissional como eu. Além disso, se quero ler leio em casa, no meu lugar preferido, e não numa sala que, até onde sei, deveria ser apenas uma sala de espera, e não uma sala de confinamento obrigatório de gente que deveria estar aí   li-te-ral-men-te   de passagem durante, 30, 40 minutos no máximo.

Até há pouco, parecia que apenas a mim o troço incomodava.

Agora não mais. Dá quase pra se rebelar. 

Alguém além de nós, @glauco_vinicius?

glauco_vinicius Glauco Vinícius    Médico: “Tudo bem, Glauco?” Eu: “Tirando a demora pra ser atendido, tudo” Médico: “É, rapaz, meu dia n foi fácil…” E o meu foi, né?! 5 ore fa

glauco_vinicius Glauco Vinícius Três horas esperando a consulta. Parabéns a todos os envolvidos. “

Anúncios

Por uma/duas

Retweet-cancella-retweet-cancella branco azul escolhi branco não sem sofrer em fortíssimo porque antes de eu sentar aqui fechei a porta da varanda pensando que antes do azul tenho que escrever depois de por acaso dar de cara com a Brum na fila pra um conto chinês que finalmente vou assistir quando finalmente estiver em Porto Alegre amanhã aí eu hesito mas não resisto e peço licença desculpe sou a fulana  e ela com aquele olhar  sim  e daí e tiro da bolsa Uma/duas pra um autógrafo num ato inaugural da tietagem mais humana e atrapalhada morta de vergonha gaguejo pra ela minha vida ficou mais fácil depois do teu livro porque tu já me disse sem confessar minha vida ficou terrivelmente mais difícil porque tenho que inventar uma outra mãe pra mão da minha história.

Escolhi não retuitar e tento achar a resposta pra por que não o fiz enquanto levanto pra finalizar o molho pro macarrão de daqui a pouco com os amigos e preparo já a brusqueta pensando em como minha mão pra cozinha transcendeu a receita caseira da minha mãe tudo bem que eu compro barilla na recusa em aceitar o espaguete caseiro amassado a punho com a farinha que vem do sul pra minha mãe tudo bem que eu faço o molho sem usar massa de tomate que usa minha mãe tudo bem que já ouso azeitar o espaguete depois de escorrido antes das folhas frescas de manjericão depois o molho que não é o da minha mãe tudo bem que eu tenho uma mão boa pra cozinha.

Tirei as mãos dela da minha cozinha faz tempo mas que diabos ainda faz feira pra mim conveniência gentileza disfarçadas de pano pra manga a lista o dinheiro ainda dá ou já acabou se for como a berinjela da semana passada pode ser se não nem traz o tomate maduro pra molho o resto nem  precisa porque viajo na outra semana em todo caso ovos pro omelete com alho poró alho o que eu gesticulo um deixa pra lá com a mão que é uma cebolinha metida à besta com a mesma mão que marca território da diferença impondo critérios a uma mãe de uma mão só que mal se mantém de pé sob o sol já abrasador das sete da matina.

Quero uma mãe e duas mãos novas pra ficção em que posso existir agradecida muito ténquiu Eliane Brum por uma/duas.


Um corte em silêncio

Certa vez, achei que havia encontrado o único cabeleireiro silencioso do mundo. Foi numa época de magérrimas vacas, e adiava o corte à espera de condições que fizessem coincidir a) ter 10 reais disponíveis, b) haver um salão decente que estivesse em megapromoção, c) eu saber disso, d) preferencialmente, que as três condições anteriores me permitissem cair na mão de alguém bom de tesoura. Pois aconteceu. Estava Rua da Praia abaixo no fluxo do horário comercial e pimpa! Corte a 10 reais na CorteZero da Andradas, em plena segunda-feira.

Entrei, confirmei a barbada e a moça “tem preferência por alguém?” e eu que não, “pode ser ele?”, indicando um rapaz na última cadeira. Sentei cumprimentando bom-dia e lhe disse como queria, curto, em camadas, franja repicada … em cada manifestação de desejo minhas mãos modelavam o cabelo, performance que eu queria instrutiva o suficiente pra evitar um desastre novo na minha vida já despencada ladeira abaixo.

Tesoura a postos, foi modelando o corte nos cabelos molhados e me parecia bem adequado ao que havia pedido, e o primeiro “trilegal” foi antecipado quando vi refletida no espelho minha metade nova. Na comparação, aplaudia minha decisão, agradecia pela convergência das coincidências e pela graça das habilidosas mãos do rapaz. Quando finalizou o corte, procurou meus olhos e os encontrou felizes na cara agora risonha.

Agradeci, levantei, paguei à moça da recepção e só então, já com meio corpo na rua, me dei conta e voltei. “É a primeira vez que corto o cabelo com alguém que fica em silêncio”. Ele é mudo, disse-me ela e disse-me eu Enfim. Alguém. Que. Respeita. A. Dura. Decisão. De. Cortar. O. Cabelo. A. Quem. Duas. Lâminas. Atacando. A. Cabeleira. Soam. Como. Um. Prenúncio. De. Mudanças. Importantes.

Me lembrei disso em Uma/Duas, da enorme Eliane Brum, cuja personagem narradora festeja o fato de ter feito um taxista se calar durante o percurso.

Se a quisermos minimamente verossímil, nem mesmo na ficção isso seria possível com um cabeleireiro.


A 30 dias do 20 de setembro

Sei, falta ainda quase um mês, mas já que não vou pro churras e pro carreteiro lá do Harmonia, rendo homenagem aqui a quem me  torna possível “ser gaúcha” a três mil km de distância.

♥ À Barão de Cotegipe, que me manda erva-mate pelo correio a cada 60 dias. Chega aqui a 10 pilas por quilo. Eu pago bem feliz.

♥ À vitivinicultura da serra gaúcha, por expandir mercado até as bandas acima da linha do Equador. Cada vez mais variedade. E qualidade. Tim-tim.

♥ Às amigas Rosa e Rosângela, pelas impagáveis comprinhas que tem só na fronteira com o Uruguai.

♥ Ao inventor do isopor, que me permite trazer a costela quando volto da capital gaúcha.

♥ À Susana Gastal, por elevar o portoalegrês ao mais alto refinamento intelectual, sem frescura nenhuma.

♥ À Ana Zilles, que me mandou o livro do Vitor Ramil.

♥ Ao Simões Lopes Neto, por “O Negro Bonifácio” e por “Trezentas Onças”. Ao Érico, pelo “O Continente”; ao Quintana, pelo “Mapa” de Porto Alegre. Ao Scliar, por ter respondido meu e-mail.

♥♥♥ Ao Cavanhas (da Demétrio para a Lima e Silva),  o melhor xis do mundo.

♥ Ao Beto Vianna, que é lindo até pilchado e que maneja uma faca como ninguém.

♥ ∞ Ao Kleinowsky. A primeira vez que o vi, estava de camiseta branca, bombacha, boné de couro, mala de garupa e chinela campeira. Foi embora da minha vida pela primeira vez cantando “Veja que cabeça louca: pondo teus olhos em mim // Eu que sempre ando depressa não vou te fazer feliz // Esquece de mim, te peço, eu sou como o Uruguai // Que sem deter sua marcha, beija a barranca e se vai”. Uma hora dessas, ele sai de um outro fandango pra estar comigo.

♥ À tia Clarice, que compra/encomenda/organiza/empacota as gordiças gaúchas: amendoim do grandão, chimia de figo, queijo de campo, linguiça de colônia, alho e cebola de casca amarela em réstias trançadas, vinho, farinha de trigo especial e as guloseimas de hortifruti de cada estação. Pinhão, laranja de umbigo e berga montenegrina das Antas são hors concours.

♥ Aos caminhoneiros florescunhenses Bonzo e Perachio, que atravessam três mil e trezentos quilômetros  de país com nossa muamba na boleia do caminhão.

♥ Ao meu irmão Moisés, que ainda se emociona contando causos da fronteira, dos tempos que ele morou em Quaraí, pelos churras impagáveis na churrasqueira perto do mar, pela “oitiva” à moda campeira e por afiar minhas facas de cozinha.

Mas, ainda que eu ache o máximo isso tudo, depois de 10 anos na estrada, penso que podiam mudar o hino: aquela coisa de “Sirvam nossas façanhas De modelo a toda terra” é meio demais, né não?


Quase à meia-noite em Paris

O editor do Balaio de Notícias e ex-aluno Paulo Lima sugere que eu escreva um texto sobre minhas impressões da capital francesa, no contexto da nossa rápida conversa sobre “Meia-noite em Paris”, o último filme do bruxo WA. Ainda não vi o filme. Mas, sim, estive na cidade-luz.

Bom, então tá, lá vai, confesso: não vi o Louvre por dentro. Do Pompidou, estive apenas na despirocante livraria e vislumbrei a arquitetura do prédio, assim, por fora, à noite. De Versailles, só a grande fachada iluminada antes de entrar para o espetáculo de balé no teatro do palácio onde Antoinette orquestrava o ócio da corte.  Notre Dame e Torre Eifel também ficarão pra próxima viagem.

Mas a caminho do réveillon na Champs Élysées, entrei na estação de metrô de La Chapelle às 22h50min. E essa foi a grande experiência da viagem a Paris. Conto por quê.

Havia umas vinte pessoas por metro quadrado nos abarrotados vagões embalados pra festa no conveniente entusiasmo geral das últimas horas do ano. A cada estação, as portas abriam apenas por que é a sina delas, definida pelo sistema: “em cada estação do metrô, as portas devem abrir e fechar após 30 segundos”. Abriam só pra lufada de ar gelado varrer o mormaço úmido dos perdigotos de muitas línguas,  e então o ar de janeiro redobrava os ânimos das gentes do vagão e mantinha acordadas as gentes que em cada estação não conseguiam embarcar e que provavelmente passariam a virada no ano ali naquela estação subterrânea do metrô parisiense.

Encantoada no ângulo das paredes entre um vagão e outro, nunca até então estivera tão coladamente perto de alguém num espaço público: um legítimo corpo a corpo, o meu encaixado nos microinterstícios entre Kika, Mohand, Julio, Thiana e os outros 15 de nós por metro quadrado, todos mantidos ilesos pelas camadas de roupa reduzindo o atrito entre os corpos todos mantidos eretos pelo apinhamento de diferentes narizes e olhos e peles, uma arca de Noé multiétnica deslizando sobre trilhos em direção ao ano novo. Entremeados pelo riso cheio de dentes e pelo hálito rescendendo ainda ao nosso honorável omelete, os olhares de Kika e Mohand me garantiam que isso era divertido. Bastava relaxar, até por que nada mais havia a ser feito.

E assim, no trajeto entre as talvez quatro estações de La Chapelle até o Arco do Triunfo, em sussurros dissimulando alguma espécie de medo, me juntei à cantoria babelística embalada pro futuro que começaria em menos de uma hora. Nesse trajeto de não mais de 40 minutos num espaço físico microcompartilhado com outras gentes cujas vidas eu ignorava completamente me dei conta de que minha colossal presença no mundo deve-se apenasmente ao fato de eu ter um corpo.

Uma cidade só interessa pelos fantasmas que ela evoca ao estarmos nela com este corpo que dá concretude a uma existência. Um corpo só está numa cidade se os fantasmas cativos dessa existência lhe forem alforriados. Havia posto os meus pra correr mundo afora ainda durante o percurso Bruxelas-Paris nos campos de neve, pois sabia que Paris é pródiga em fantasmagorias.

E assim, na minha primeira vez na cidade, pude cutucar fantasmas novos pra mim. Fiquei à escuta deles enquanto subia as ladeiras do bairro boêmio. Fiquei à escuta deles naquele molho voluptuoso de alho poró, que submetido a um rewind, volta de mão em mão até ser devolvido inaugurando a terra em semente. E ali, aquele homem plantando a semente pensa na lista de compras e na chuva que não vem. Cutuco outro fantasma ao olhar pro chão: naquela fresta mínima entre duas pedras da rua abriu-se um clarão pra outra honesta vida de plenitudes cotidianas e comezinhas. No bar da esquina, presumi ter sentado ali um homem que pediu um café no meio da manhã antes de voltar pra casa e escrever uma carta em silêncio. No moinho de vento calculei os corpos a rodo que cabiam naquela rua tentaculosa de fantasmas deixados quietos. Mas não resisti e cutuquei uma legião deles com o viço da língua-mãe comum denunciada na placa que anunciou a colheita da uva.

Nas ruas de Paris há uma ancestral vitalidade de histórias que se sobrepõem à minha, e ao parar ladeira acima e com o lenço de papel assoar meu nariz pari um fantasma natimorto. Era um insistindo em enquadramentos na vertigem alucinada de informações disponíveis sobre estar ali. Mas queria apenas estar ester em paris. Mesmo que no alto de Montmartre haja zilhões de olhares e outros zilhões de corações consagrados à paisagem, sabia que teria sido suficiente apurar a escuta pra que, sob os refrões globalizados cantados pela multidão na escadaria gelada, fosse ouvido o silêncio visceral de um ponto de partida. Que é sempre outro, dada a profusão incomensurável de fantasmas que podemos evocar numa cidade assim.  

Minha “Quase à meia-noite em Paris” foi o marco zero pra uma outra vida que construo agora, simplesmente por que antes de estar sob o Arco do Triunfo pra virada do ano, eu estive num vagão de trem onde o fato de eu existir deixou de ser a coisa mais importante pra mim.

A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de fantasmas que escolho a dedo. A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de outros corpos e seus fantasmas outros, numa bruxuleante alegoria de impressões de lugares onde estive e estou ester, seja em Paris ou na cozinha com o corpo em fogo brando.

(Os gatos contariam outra história. O corpo deles é de outra matéria.)


Meu primeiro beijo (ou por que vivo bem em espaços pequenos)

Sim, claro que eu sei que não tem a menor relevância isso. Mas é que é inusitado o suficiente, acho, e agora, entusiasmada pela crônica do conterrâneo Flávio Ferrarini, vou contar como foi.

Mas começo dizendo com quem. Foi com o Chico Oliboni. Eu tava de olho nele já há um tempão nas tardes no bar do Pasetto, em meio aos bolos de chocolate inimitáveis da dona Helena.

As gurias ficavam nas mesinhas, os guris no balcão do bar;  cada grupo nas suas respectivas vitrines, separados pela de vidro dos salgados quentes, os olhares em paqueras se esgueirando entre empadinhas, croquetes e pastéis.

Só quem é da Flores dessa época sabe que entre a casa do Chico e o bar do Pasetto era só dobrar a esquina e atravessar a rua, não mais de 100 metros. Mas naquela tarde de sábado, ele passou pela frente do bar umas oito vezes antes de parar o carro, o amarelão do ônibus das cinco como pano de fundo do outro lado da rua.  Se exibir desse jeito era aceitável: servia pra justificar a façanha de aparecer pilotando o IK 1437 – lembro da placa até hoje! – cujo dono de fato era a temida dona Clélia, minha futura sogra.

E assim, entre uma empadinha e um chocolate quente e depois de todo um volteio (ou um arrodeio, como dizem aqui em Sergipe) fui convidada pra dar uma volta. Era inverno e fazia um frio de rachar; tão frio que ele estava com um pala desses, com gola de pele. Fomos ao famoso morro da parte mais alta da cidade. Bastou  ele desligar o carro e foi logo dizendo “que calorão, né?”. Depois de uns dois minutos de manejo treinado na arte de tirar um pala dentro de um fusca, desenrolado daquele cobertor portátil aparece um homem cheiroso com uma camisa de lã xadrez de fundo verde. E assim, como se esticasse um lençol pelas pontas, Chico abriu o pala dividindo o fusca marrom em dois ambientes: o pala, também chamado de poncho, foi aberto como uma cortina. Chico pegou uma ponta da cortina-pala e a prendeu na porta, aberta rápido pra o frio não entrar. Eu fiz o mesmo com a outra ponta, na porta do passageiro.

E assim, no fusquinha marrom que só saía da garagem sob a raríssima licença expressa da dona Clélia, ficamos eu e Chico nos bancos da frente; e como naquela época (ainda) não saía sozinha, atrás de nós ficaram Silvinha e Pixoto, embarcados juntos na aventura que num acordo tácito os tornava cúmplices e testemunhas não oculares do que estava por vir.

E assim, num fim de tarde de um dia muito frio de um sábado em que à noite haveria São João no ginásio, enfim dei meu primeiro beijo de língua (e como disse o Flávio, “lá se vão” 35 anos). Achei sensacional aquela coisa das quenturas molhadas misturadas pelas línguas se atracando feito ventosas. Sensacional também era confirmar com a minha boca o desenho decorado da boca dele, os macios dele moldados entre meus lábios entreabertos em movimentos só então inaugurados. Os estalos escorregadios das línguas e dos lábios eram prenúncios de que ficaria ainda melhor, embora cada vez mais barulhento à medida que aos estalos se misturavam os gemidos abafados pela respiração profunda, os pulmões se enchendo de ar pra mais um mergulho que eu sabia não ser fantasia porque ali estávamos nós. Ainda assim, ainda que eu soubesse que não era um delírio,  volta e meia entreabria os olhos pra ter certeza de que sim, eu estava beijando pela primeira vez e sim, era o tão desejado Chico. Qualquer outra referência concreta de um mundo real estava fragilizada pela densa neblina do embaciado dos vidros do fusca.

E assim, entre um suspiro e outro engolindo a saliva misturada à dele, de novo nos lançávamos àquele delicioso e fervilhante descaramento que a essas alturas já explorava pescoço, testa, orelhas e mãos, a boca amalgamando os gestos e as línguas em deleite nos territórios recém-conquistados.

E assim, num fusca partido ao meio beijei um homem por quem me mantenho apaixonada pra sempre. Precursoria de duas coisas importantíssimas na minha vida: 1) amar é definitivo; 2) dá perfeitamente pra pensar numa vida feliz em 35m².


Alegrias tamanho 40

Ser magrona ou gordita, baixa ou grandona,  não é lá um problema muito sério pra ter o que vestir e ficar elegante, charmosa, bonitinha, casual, perua  ou chiquetérrima: sempre se dá um jeito. As estampas nos favorecem, as listras verticais ou horizontais fazem toda a diferença, os drapeados disfarçam as gorduritas localizadas e dependendo da questão, cintura alta ou baixa no jeans, combinada com o modelo no slin nas pernas podem salvar um visu entre “a quarentona descompensada” e “a quase-senhora-que-nem-parece”. Pra tudo se dá um jeito, e eventualmente, é suficiente mudar o acessório pra dar o efeito de roupa nova.

Com cabelos também: se pode lançar mão da versatilidade das tintas e cortes a qualquer hora – mas pra isso, claro, precisa ser mais desapegada de estabilidades; de qualquer forma, mudar o cabelo é sempre um ato de renovação. Facinho, facinho, e em geral, muda-se pra melhor. Só uma tesoura muito desastrosa pra fazer estragos irreparáveis. Mas ainda assim, a gente pode se salvar da incompetência alheia com lenços e presilhas até que o cabelo cresça o suficiente pra não deixar rastros do desastre.

Com acessórios, então, é a festa do caqui: se a gente guardasse todas as lindas porcariazinhas adquiridas ao longo da nossa vida, teríamos um armário de bijus e acessórios que, olhados assim, objetivamente, nos forneceriam uma cartografia antropológica de nossas fases (e, bom, também de nossas fezes) no mundo e também as do mundo. Dos anos 70 a 2010, as cores e formas dos acessórios explicitando a que mundo pertencemos, com que mundos simpatizamos, a que mundos aderimos como se fosse um projeto de vida.

Mas essa elasticidade, essa maleabilidade, essa versatilidade de roupitas, cabelos e acessórios não se aplicam, infelizmente, pra meu arsenal de calçados; e digo arsenal, porque os que consigo encontrar pra mim são sempre resultado de uma operação de guerra: levantamento de dados, estratégias de ataque, logística dos procedimentos. Por exemplo, a ida à loja tem que coincidir com o fim da estação, que é quando sobram os nº 40, ou com o início da nova coleção. Independente do caso, quem calça  40 sabe: nem pensar  em desejar cor, modelo, salto isso, salto aquilo; em geral, se fica feliz se tiver um da numeração, e aí na hora de se produzir a gente simplesmente esquece que tem pés, não olha pra baixo e faz a produção de forma a direcionar a atenção pra todo resto do corpo, menos os pés.

E ainda assim, apesar de todos os esforços, tem sempre aquela criatura ignomiosa que, a despeito de tudo estar 100%, acha que a razão de tanto charme no andar só pode ser o salto da sandália e, puts, olha pros meus pés. Deles, pernas acima, o olhar vai desmontando aquela produção arrasadora.

Daí você pode entender o milagre que me aconteceu em Brasília, semana passada. Entro na oitava loja de calçados, e pela oitava vez, antes de escolher modelo, cor, salto isso, salto aquilo, faço a mais importante de todas as perguntas:

– Tem algum modelo pra calçar 40?

As respostas em geral são as seguintes: “Não”, assim taxativamente; “Não, mas tem um 39 de fôrma grande”, e às vezes mesmo antes de o funcionário terminar o meneio de cabeça entre o riso e o escárnio, eu já estou fora da loja.

Mas desta vez, a resposta a “tem algum modelo pra calçar 40” foi absolutamente estonteante:

– Quantos a senhora quer provar?

A terra tremeu quase a 5° na escala Richter a 150 km da capital federal, e enquanto eu me desmanchava em sorrisos, a funcionária  se desmanchava em me explicar que era a especialidade da casa, e entre outras explicações das outras funcionárias que ficaram me bajulando – bom, só tinha eu na loja – de repente aparecem três maravilhosas  pilhas de caixas de sapato pra eu experimentar. Pilha mesmo, tipo seis caixas umas sobre as outras, festejadas como se eu estivesse vendo um bando de estorninhos.

Foi quase uma epifania.

Saí da loja com cinco pares de lindos calçados, e nenhum deles é da linha confort nº 40 pra velhinhas com pés inchados e joanetes enormes, minha salvação quando eu não posso calçar havaianas.

Imagine a alegria.

Imagine a festa diária, agora que posso escolher entre roupas e calçados o que favorece o frescor nesses dias já de verão e o conforto de toda hora.

Isso, não tem preço. Mas pude pagar em quatro longas parcelas. A vantagem é que os calçados vão durar bem mais do que os quatro meses que demorarei pra pagar.

A alegria também.