Arquivo da categoria: Momentos Aracaju

Sinal vermelho

Deslizando trôpego sobre as maçãs murchas da cara, o movimento iniciado na ponta da orelha vai recolhendo os parcos pêlos na direção da boca apenas pressentida.

Não havia espelho.

Não havia pia.

Não havia banheiro.

Não havia casa.

Era só um homem sob o sol da manhã, num restolho de civilidade urbana e burguesa, alheio a mim que lhe perscrutava o gesto.

Era só um homem ainda vinculado a si sob o ralo restolho da sua porção humana andarilhando em ruas desprovidas de caminhos.

Era só um gesto sobrevivido antes de provavelmente sucumbir à barba acumulada de muitas luas sob o sol a pino.  

Era só um rasgo no largo tempo desta manhã de sol, dois minutos talvez, até que o sinal abre e ele lava o que lhe servia de lâmina no pote de plástico ao lado.

Era só. Sequer um animal de companhia.

E sentado assim, na calçada da esquina, ele fazia a barba.

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Chaves à unha

Se tem um pavor que me define é a perspectiva de eu ficar sem a chave de casa. Longa batalha, desejo adolescente conquistado só aos 23 anos, ter uma casa só pra mim e ficar impedida de entrar seria quase um exílio forçado nas terras geladas da Sibéria.

O privilégio de morar só traz responsabilidades adicionais, e muitas.  A principal delas é que a gente sabe que ninguém mais tem a chave, que não adianta gritar “mãe, abre a porta pra mim!?!”, e que se a chave for perdida, babaus, ganha-se uma bela dor de cabeça.

E se roubarem a bolsa e tudo que estiver dentro dela? Dá o maior trabalhão encaminhar documentos de novo depois do beó; é o maior pepino cancelar cartão; lamentaria profundamente minhas coleções de batons e de canetas pros desenhos na minha moleskine.

Mas a chave ir-se embora junto com a bolsa seria um verdadeiro desastre. Pense a tranqueira de ter uma casa e não poder entrar? Chamar chaveiro, mudar trancas e chaves, ficar desconfiada por um bom tempo: vai que na bolsa tinha um boleto qualquer de pagamento com o endereço?

E sempre foi assim, essa coisa com a chave de casa, mesmo quando (sim, acredite, isso é possível!) eu sequer usava bolsa: reservava um dos bolsos da roupa e ajeitava o metal de tal forma que eu nem lembrava que existia a chave acomodada ao corpo entre duas fatias de tecido. Na falta de bolso na roupa, lanço mão da estratégia de ajeitar a chave amarrada à alça do sutiã.

Esquecer que a chave está ali é pouco provável, dada a sensibilidade da área e também devido à quantidade progressivamente maior de chaves que se usa pras mesmas quantidades de acessos. Mas ainda assim não acho ruim, não; é sempre bom ter um amuleto de metal dentado e concreto marcando o couro assegurando que tenho pra onde ir e onde estar, com segurança: tanto a chave quanto eu, e também por causa dela.

Ontem fiquei marcando as chaves da minha nova morada: esmalte rosa pra porta da rua; vermelho pra porta da casa, sem cor pra porta da varanda. Se eu tivesse aderido aos modernosos coloridos das unhas, poderia ter escolhido azul pra porta da rua, pois ao subir a escada é quase a porta pra um céu; laranja pra porta da casa, meus crepúsculos prediletos; verde pra porta da varanda que dá pro jardim.

Mas sendo uma criatura das antigas, sou quase ortodoxa: quando minha manicure vier me atender na casa nova, semana que vem, vou escolher outra vez, como pelo menos há mais de três décadas, entre a base cor de nada ou o vermelho-rosa, pois é muito mais fácil pra mim mudar de casa e de rumos do que usar azul, verde e amarelo nas unhas.

Quanto às chaves, sigo em mundanças.

Pelo menos até a chave não precisar ser nenhuma pra eu me sentir em casa.

 

 


Alegrias sem carnaval (e com amor, para Mohand)

Ano passado, li o livro. Ontem, revi o filme “Julie & Julia”, a história da jovem Julie, americana deste início de milênio, às voltas com a produção de 524 receitas do livro de Julia Child, escrito por ela e duas amigas nos anos 40 do século passado, no espírito de tornar acessível a então já refinada culinária francesa a donas de casa americanas.

Na vida real, Julie publica  no  blog  “Julie/Julia Project”  o desafio a que se propôs em 2003: em 365 dias, fazer  524 receitas do famoso livro Mastering the Art of French Cooking, e comentá-las.

Imagine esse contexto em pleno recesso carnavalesco: claro, só podia ir pra cozinha me divertir. Caprichei numa receita minha de berinjela, que ficou realmente muito boa. Além de gostosa, é versátil: pode temperar una pasta (de preferência, fusilli, cujo formato favorece a aderência da berinjela desta minha receita), pode ser servida com torradas como tira-gosto e até mesmo como guarnição: com arroz branco, salada de folhas verdes e uma carne grelhada é quase um banquete.

Então, no espírito de Julia, compartilho a receita.

Ingredientes

3 beringelas tamanho médio,  5 colheres de sopa de manteiga Aviação (ou uma outra qualquer de boa qualidade), 3 pimentas de cheiro cortadas em tiras fininhas, sem semente,  3 cabeças de alho picado, 100 gr de cogumelos brancos laminados, 100 gr de azeitonas verdes laminadas sem caroço. Azeite de boa qualidade, vinagre balsâmico de boa qualidade e sal.

Modo de fazer Cortar a berinjela bem fininha: primeiro em rodelas e depois em tirinhas. Você saberá que está fazendo certo se o formato das tirinhas ficar bem parecido com um palito de fósforo; na consistência, a malemolência de um fio de spaguetti cozido. Separe. Numa panela de fundo grosso, aqueça três colheres de manteiga e deixe em fogo médio enquanto adiciona a berinjela aos poucos, mexendo sempre pra não grudar. Use colher de pau ou de tefal. Quando metade da berinjela já estiver na panela, coloque o resto da manteiga espalhada sobre ela e vá acrescentando aos poucos o restante da berinjela. Mexa sempre; depois de uns 3-5 minutos neste processo inicial, a berinjela vai ficando escura e soltando uma aguinha. Essa é a hora em que você tampa a panela pra que a berinjela cozinhe no seu próprio caldinho, produzido pelo vapor, durante outros 3-5 minutos, não mais do que isso. A hora de mexer durante este processo a gente sabe pelo ouvido: preste atenção no quanto agudo está o barulhinho. Quanto mais agudo, mais perto de queimar. Na falta de um ouvido treinado pra essas sutilezas, acerte pelo excesso: tire a tampa da panela pra mexer a cada 60 segundos. Ainda que isso seja feito a contento, cuide pra não deixar queimar.

Os riscos aqui são a) fogo muito alto ou b) panela com fundo muito fino. Administre essas variáveis e a berinjela ficará com brilho e cheirosa. Desligue; e assim, com a berinjela ainda borbulhando na sua própria polpa, adicione o alho, o cogumelo e a azeitona, mexendo bem. Deixe tudo ali, bem misturadinho, com a panela tampada, até esfriar bem.

Depois de frio, transfira pra uma tigela de louça. Junte a pimenta cortada em tirinhas, deixe regular a superfície da mistura de berinjela, embebendo-a com azeite. Vá colocando o azeite aos poucos, fazendo pequenos vãos na mistura pro azeite ir agarrando cada tirinha de berinjela. Acrescente algumas gotas de balsâmico e sal a gosto. Dê uma outra mexida, de forma a garantir que o azeite tenha generosamente aderido à berinjela. A quantidade de azeite estará no ponto quando tudo estiver tinindo de brilho e (de novo o ouvido) quando o barulho ao mexer lembrar cubos de gelo submetidos a um jato de água.

Sirva gelado, se for com torradas/biscoitinhos. Para aquecer, tire da geladeira uns 30 minutos antes de usar. Use um fio de azeite numa panela de fundo grosso, espalhe uniformemente a berinjela já bem resfriada e tampa a panela. Estará aquecido assim que fizer bolhazinhas uniformes.

Variações Ao invés da pimentinha, há quem coloque pimentões verde, vermelho e amarelo, cortados em tiras finas, crus, depois que a berinjela já gelou. Fica lindo, as cores vivas quebrando aquele marronzão da berinjela, e até curto o gosto. Mas se sobrar um pouquinho, já fica ruim de comer na sequência, pois o pimentão deixa qualquer sobra com gosto amarguento. Por isso uso a pimentinha de cheiro, aquela compridinha parecendo uma garra de onça em escala maior. Pimentices delicadas num colorido mínimo garantido.

Em tempos de estudante, eu só poderia comprar a berinjela, o alho e a pimenta. Fica bom também. Mas não dá pra abrir mão de um bom azeite e de uma manteiga de boa qualidade.

Quando fiz essa receita ontem, fiz também em separado um picado de calabreza fininha (uso a da Sadia) refogada que vou misturar agora na porção de berinjela pro fusilli Barilla. Com um parmesão ralado na hora e um Shiraz aberto a propósito, está garantido um banquete.

Vantagens Sim, sim, sei bem que dá a maior trabalheira cortar uma montanha de berinjela, que acaba reduzindo um bocado, diria que uns 2/3 do volume inicial. Mas o grande barato dessa receita são na verdade duas coisas: 1) é barato 2) dá pra fazer uma grande quantidade e congelar pequenas porções.

Julie & Julia diziam bom appetit.

Digo eu daqui: Mohand, merci et bon appetit.


Discurso de paraninfa Jornalismo Unit 2010/2 (ou “Paraninfando: um elogio a este gerúndio”)

PROFESSORA VALÉRIA BONINI, COORDENADORA DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE TIRADENTES; PROFESSORAS POLYANA BITTENCOURT E DEISE DIAS, COLEGAS HOMENAGEADAS DESTA TURMA DE FORMANDOS; DANILO  MENEZES, FUNCIONÁRIO HOMENAGEADO,  DEMAIS COLEGAS DA DOCÊNCIA DO JORNALISMO; UMA MENÇÃO ESPECIAL A FELIPE PENA, QUE NOMEIA ESTA TURMA. CAROS ALUNOS E EX-ALUNOS AQUI PRESENTES. PREZADOS PAIS E DEMAIS FAMILIARES, AMIGOS, NAMORADOS E NAMORADAS, PARCEIROS DE VIDA DE CADA UM DE VOCÊS. 

MEUS QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS.

VOCÊS ME ESCOLHERAM COMO PARANINFA, E O FIZERAM POR QUESTÕES DE NATUREZA PESSOAL, QUE PERPASSA TODAS NOSSAS ESCOLHAS. E PUDERAM ME ESCOLHER PORQUE FUI PROFESSORA DE VOCÊS.

E ESTA É A CONDIÇÃO QUE FAZ CONVERGIR PRA ESSE MOMENTO,  AQUI, AGORA, A SOMA DE ESCOLHAS DIFERENTES, DE VIDAS DIFERENTES, DE HISTÓRIAS DIFERENTES.

TAIS PARTICULARIDADES E DIFERENÇAS, ENTRETANTO, CONVERGEM PARA DOIS ASPECTOS CENTRAIS PARA ESSE ENCONTRO QUE ESTAMOS JUNTOS PROTAGONIZANDO NESTA NOITE: PRIMEIRO, O FATO DE VOCÊS TEREM ESCOLHIDO O JORNALISMO COMO PROFISSÃO E O JORNALISMO TAMBÉM COMO FORMAÇÃO; SEGUNDO, O FATO DE EU TER SIDO PROFE DE VOCÊS E DE QUASE TODOS VOCÊS TEREM SIDO MEUS ALUNOS, EM METADE DO PERCURSO ACADÊMICO.

E ENTÃO, NESSA REDE DE CONVERGÊNCIAS E DURANTE ESSE TEMPO TODO, ACONTECEU UM DOS EVENTOS HUMANOS DOS MAIS IMPORTANTES: ACONTECEU UM ENCONTRO.

PEDAGÓGICO,  ESSE ENCONTRO, PORQUE NOSSAS AULAS SEMANAIS DURANTE  DOIS DOS QUATRO ANOS DE UNIVERSIDADE ESTIVERAM DIRECIONADAS À CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES INERENTES AO FAZER JORNALÍSTICO E AO SER JORNALISTA.

É PARA ESSE ENCONTRO PEDAGÓGICO QUE DEDICO MINHA VIDA, DESDE QUE ESCOLHI SER PROFESSORA. E É PARA ESSE ENCONTRO PEDAGÓGICO QUE DEDICO MINHA VIDA DESDE QUE ACOLHI PRO MEU JEITO DE SER PROFESSORA A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA DE PROMOVER ENCONTROS PARA A APRENDIZAGEM.

AQUI, DESSE  LUGAR DE PARANINFA COM O QUAL VOCÊS ME HONRAM, OLHO MINHA VIDA PERPASSADA PELO FATO DE VOCÊS SEREM MEUS ALUNOS, E ENTÃO ENTENDO QUE ME ESCOLHERAM PORQUE DE ALGUMA FORMA FUI IMPORTANTE PRO APRENDIZADO DE VOCÊS.

MAS SE ISSO É VERDADE, É TAMBÉM VERDADE O SEGUINTE:  NÃO FORAM SÓ VOCÊS QUE APRENDERAM.

EU, AQUI NO LUGAR DAS MINHAS SUBJETIVIDADES, TAMBÉM APRENDI.  COM VOCÊS.

NESSE ENCONTRO QUE NOS UNE, NESSE ENCONTRO PERPASSADO POR UMA TRAJETÓRIA PARCIALMENTE COMUM A NÓS TODOS,  NESSE ENCONTRO PROMOVIDO PELA CONTINGÊNCIA DE INTERESSES COMPARTILHADOS, FORMAMOS UM GRUPO DE APRENDIZES: VOCÊS, COMIGO; E EU, COM CADA UM DE VOCÊS.

E A VOCÊS DEVO 19 DIFERENTES APRENDIZADOS.

QUERO CITAR UM A UM.

HESITO ENTRE A ORDEM DA CHAMADA E A  ORDEM DE CHEGADA; ENTRE OS QUE FIZERAM PARTE DE UMA TURMA OU DE OUTRA; ENTRE OS QUE CHEGARAM JUNTOS E OS QUE SE JUNTARAM AO GRUPO MAIS TARDE; POR EXEMPLO, COM A NEUZILÂNIA, APRENDI A DISPONIBILIDADE PRA MUDANÇA; COM A DANIELA, O INVESTIMENTO NA PERSEVERANÇA; COM RODRIGO E EDSON, APRENDI O BOM FIM PRA QUAISQUER QUE SEJAM OS COMEÇOS; COM A MORGANA, APRENDI QUE O  SILÊNCIO É CHEIO DE PERGUNTAS; COM A JANAÍNA,  APRENDI A ESCUTA ATENCIOSA;COM A VIVIANE, E JÁ ESTAMOS COM SETE APRENDIZADOS DIFERENTES, APRENDI A DELICADEZA IMPETUOSA; COM A  DAIANA,   APRENDI O QUANTO A IRONIA É COMPATÍVEL COM  INTELIGÊNCIA.

COM O RAFAEL, E JÁ SÃO NOVE JEITOS DIFERENTES DE APRENDER, EU APRENDI QUE  OLHOS BEM ABERTOS VEEM O MUNDO COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ; COM A MISA, APRENDI A DOÇURA; COM  NAILTON E  YURI, A PARCERIA ABERTA.

O DÉCIMO TERCEIRO APRENDIZADO VEM DO DELANO:  APRENDI A PERSPECTIVA DE UMA VIDA PAUTADA PELA ESCOLHA  PROFISSIONAL E PELOS AFETOS CONSTRUÍDOS E PRESERVADOS EM NOME DO JORNALISMO E APESAR DO JORNALISMO. 

COM O DIOGO, APRENDI O OLHAR DA CURIOSIDADE; COM A ALCIONE, APRENDI A ENERGIA QUE SE RENOVA TODO DIA, ESTEJAMOS NA ATALAIA OU MESMO NA TURQUIA; COM A AMANDA, E JÁ ESTAMOS NA DÉCIMA SEXTA APRENDIZAGEM, APRENDI O ACOLHIMENTO PRA AMIZADE E PRA TRABALHEIRA QUE DÁ ESTUDAR.

COM A POLIANA, APRENDI OUTRA COISA MUITO IMPORTANTE: A MEDIDA NECESSÁRIA DA DELICADEZA, MESMO NA HORA DA INDIGNAÇÃO. COM A MARIA ROSA, APRENDI A NÃO ESQUECER QUE É PRECISO OLHAR PRA TRÁS E PRA PERTO PRA NOS AJUDAR A ENTENDER QUEM SOMOS.

E EMBORA ESSES DEZOITO APRENDIZADOS SEJAM ABSOLUTAMENTE IMPORTANTES PRA MIM, FALTOU FALAR DO APRENDIZADO NÚMERO DEZENOVE.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O CONGREGADOR DE TUDO.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O APRENDIZADO QUE EM TUDO DÁ UM JEITO.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O APRENDIZADO INDISPENSÁVEL PARA UMA VIDA PLENA.

DEIXO PRO FIM A ALEGRIA DESTEMPERADA DA JÉSSICA,

NOS LEMBRANDO A TODA HORA E POR DIFERENTES MOTIVOS QUE SEM ALEGRIA HÁ REALMENTE BEM POUCAS COISAS QUE VALEM A PENA.

É COM MINHA MELHOR ALEGRIA QUE LHES AGRADEÇO POR ESTA NOITE.

É COM MINHA MELHOR ALEGRIA QUE  LHES AGRADEÇO PELO ENCONTRO E PELOS APRENDIZADOS.

E É ASSIM, COM O ESPÍRITO JÉSSICO DE SER,

QUE REGISTRO MEU DESEJO.

QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS: QUE A ESCOLHA PELO JORNALISMO E OS APRENDIZADOS DO PERCURSO UNIVERSITÁRIO FAÇAM PARTE DO INVENTÁRIO PESSOAL DE ALEGRIAS DE CADA UM DE VOCÊS.

MUITO OBRIGADA!


Matriz

“E aí, quando eu já não mais queria voar, eis que me transformei num ovo.”

“Jamais esquecerei o dia que amanheci ovo.”

“Epitáfio: aqui jaz blue a ave que não foi.”

Fiquei pelo menos umas boas duas horas intrigada com aquela coisa branca em formato oval que aparecia no lugar do pássaro azul esvocejante do twitter cada vez que entrava ali depois de ter desistido de microblogar a cada vez em quando.

Até cair a ficha: gente, voltei ao status-ovo!

Nada de pássaro azul migratório, tentacular feito um polvo de mil braças, hibernante eventualmente.

Ali, não tem negociação possível: ou a gente tuíta ou não tuíta, e ponto final.

Bastou ficar mais de 48 horas sem postar e me remetem a minha forma mais ancestral, mais visceral, menos humana e mais bicho.

Essa é outra coisa bárbara na web: a explicitação tácita de processos. Ressonância (ou será consonância?) da pós-modernidade.

Deixei de tuitar, e mesmo que ninguém se dê conta disso [porque, convenhamos, isso não tem a menor relevância], o próprio sistema me re-categoriza, anunciando pra quem está na minha rede sem ser peixe: de pássaro esvoaçante à condição primeva de ovo, bastam apenas 48 horas de silêncio e não-protagonismos registrados na web.

E eis que percebo: até não ser é identitário na web!

Assombro-me.

Espanto-me.

Boquiaberto-me.

O que nos diria Clareza Lispector?


Incômodo

Têm me incomodado muito essas personagens mais ou menos recentes no cenário urbano que formam um rebanho cada vez mais numeroso, espraiando-se pelas pradarias afora, em todos os cantos. E me incomodam não por existirem, que cada um escolhe o que quer fazer na e com a vida – mas pelo fato de me imporem seus pontos de vista, sem nenhuma chance de rechaçá-los.

Explico: do terreno vizinho a minha varanda, a uns 15 metros de distância sem barreiras, a partir das 8h30 da manhã ecoam os hinos à glória e às bênçãos de Deus, em altíssimo volume.

No táxi, o rádio sintonizado em frequência divinamente escolhida me submete à doutrinação em ritmo de pop rock.

Na vizinhança de outra casa que frequento sistematicamente nas tardes de sábado, a faxina é consagrada em louvor a Ele, e não vem ao caso se estou do outro lado do muro deitada na rede querendo ler, estudar ou se estou simplesmente não querendo nem fazer e nem ouvir nada: o muro separa as casas onde estamos, mas não é fronteira pro som que se propaga em ondas que, pra pessoa que está do outro lado do muro, embala e conforta e anima e salva; a mim, apenas irrita as borbulhas de pecados e culpas que já larguei com mala e tudo em outras andanças.

Na Igreja Católica, fui batizada, fiz crisma e primeira comunhão, participei das missões, cheguei a pensar em seguir vocação religiosa (!) batia ponto nas missas domingueiras, batizei minha sobrinha, apadrinhei alguns casórios e chorei a morte de alguns queridos da minha vida.

Mas tudo foi “dentro-da-igreja”: participei porque aceitei o convite pra estar lá (bom, tá, à exceção do batismo), participei porque quis me integrar à cerimônia, e mesmo depois de passar a acreditar só no deus-em-mim, ainda participo uma vez que outra porque é socialmente relevante.

Mas não me lembro de ter invadido a privacidade dos outros em nome das minhas crenças; não tenho registros de ter conduzido uma conversa banal às raias da doutrinação; não me lembro de ter sido invasiva em nome de Jesus (bom, pode ser que eu tenha sido em nome de joãos, mas aí é outra coisa) e não me ocorre ter reiterado o que quer que seja quando a pessoa já não me ouvia mais.

Dia desses, o faz-tudo a quem recorro eventualmente pras broncas domésticas que não resolvo sozinha com minha caixa de ferramentas me socorreu num probleminha hidráulico. Fez o serviço, paguei, agradeci, dei bom-dia e ele “Que Deus te abençoe” e eu que sim, obrigada, enquanto abria a porta pra ele sair. O moço parou, voltou-se e olhando-me nos olhos, assim, fundo, repetiu “Deus te abençoe, viu, Dona?”, deixando claro que ele percebera que o meu sim era uma mera cortesia a título de fim de conversa, e não um acolhimento à benção com que ele me honrava naquela minha manhã até então tão profana.

Parece que o cerco se fecha inescapavelmente: se não é axé, é forró ou pagode do ruim; se não são eles, tem agora o hinário travestido de baixos e guitarras, instrumentos de pretexto pra louvar e bendizer 24 horas por dia em qualquer lugar onde se esteja.

A mim, só me resta comprar tampões de ouvido, que não consigo usar. Ou protestar.

Pronto: protestei.


The blue bird

Esses dias vi o filme de um bando de estorninhos em bruxuleantes coreografias no céu: um espetáculo, daqueles de boquiabertar-se. Já viram um desses? No “A jangada de pedra”, tem um bando deles conduzindo o protagonista. Mas por mais brilhante que o narrador seja, ver no concretão um bando de estorninhos em revoadas e estripulias é uma daquelas coisas que dificilmente se esquece, depois que a gente vê um: http://www.youtube.com/watch (tá, testei antes de postar e sei que não dá acesso. preciso aprender a fazer também isso).

Da trama genial de asas e corpos em movimento pelo céu, um outro bando, também genial, mas cuja gênese não é desse mundo, faz revoadas em todos os continentes, independe de estações, fluxos migratórios, escassez ou abundância de comida: falo daquele passarinho azul que fica derrubando orkuts e MSN como as TI até então mais utilizadas pelos internautas nos últimos meses.

E aí, bom, como ando querendo me inserir nessas tramas cibernéticas, me atrevo a tuitar, sim! pasme! Eu tenho um twitter – (nem sei se é assim que se diz: será “assino o twitter?” ou ainda “tenho uma conta no twitter?”). Minha sobrinha que é craque-fera também nisso, vai colocar o azulzinho num poleirinho aqui do blog … agora preciso aprender a dar asas pra criatura [(esterunit.twitter.com) ai, é assim? ou é @esterunit ????]

Lembro da minha vibração quando uma aluna me ensinou a colocar o celular no vibracall, antes de começar a aula, no meu primeiro-dia-com-um-celular. No semestre seguinte, Raquel Passos me explicou como digitar mensagens, e já fiquei maravilhada – desculpem, eu sei, mas o maravilhamento parece ser restrito aos que nasceram antes dos anos 80. Imagine agora, acho que eu serei um estado de êxtase! Isso tudo por que tive a idéia de usar “the blue bird” como ferramenta pra produção de micronarrativas na minha disciplina de Produção de Texto II – Jornalismo/Unit.

E, bom, sabe como é, né?,  nas férias de janeiro de 2011, quando eu estiver na Europa passeando com minha sobrinha e for privilegiada também com a aparição de um bando de estorninhos, tuitarei assim que o assombro da beleza me permitir contar isso em 140 caracteres. E se tudo correr bem, além de tuitar, posso gravar o espetáculo com meu celular e postar o filme aqui, compartilhando com você. E isso é bár-ba-ro.

Mas, puts, será que vou conseguir?