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Revoar

Uma das cenas mais famosas do cinema de todos os tempos certamente é a de Rose de braços abertos sobre a ponta da popa do Titanic, gritando no meio do oceano e aos quatro ventos “I’m flying, Jack”.

No meu caso, a partir de hoje, onde se lê “Jack”, leia-se “gente”!

Não, nenhuma outra relação de intertexto é possível aqui: meu barco não vai afundar, meu Titanic é só um barquinho a remo, não tem nenhum Jack na minha vida (e, por mérito meu, nenhum Caledon também) e não encontrei no bolso do casacão um diamante em forma de coração.

Há só novos projetos de vida.

Voo de volta pro sul, levando Cloé numa asa e Malucat sem rabo na outra (sim, voar é com os gatos).

Vou sentir saudades dos alunos, do mar, dos alunos, deste azul do céu, dos alunos, de andar descalça, dos alunos, de carne de sol com cebola, dos alunos, da paçoca ao pilão do Potiguar, dos alunos, de a roupa secar rápido, dos alunos, de sorvete de tapioca do Castelo, dos alunos, de macaxeira sob todas as formas, dos alunos.

Os alunos, (des)abraço a partir de hoje, texto a texto até 17 de dezembro.

Dos amigos Lela e Little Charles, me despeço oferecendo macarrão. A Barilla virá, claro, diretamente de Marimbondo do seu Sabal.  

Aos (e com) os amigos alunos AAA (Alvinho, Alci, Anderson Ribs), três chopes aos outros amigos e aos outros brindes que ainda virão.

Da família que fica por aqui, as despedidas serão com uma canastra de ases. E um bife à milanesa.

Porque pra voar, às vezes é preciso abandonar o barco.

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Querido rabo, adeus.

A Malucat, esta criatura aí de cima,  daqui a pouco entra em dieta zero pra amputação do seu lindo rabo, sob os cuidados da dra. Hortência (4 Patas).  Quem mandou despencar sabe-se lá de onde, fraturar o osso que junta o corpo ao rabo e, puts, cuspir toda medicação sem que eu percebesse? Adeus, lindo e elegante rabo. Fico torcendo pra que a ausência do rabo inerte entre as patas permita que a maluquita volte a acertar o rumo da caixa de areia.

Minhas homenagens, com amor felino.

PS: Então que a bichana usou fraldas por uns dias, não sem muita agonia, claro. Tirados os pontos, está no exercício trabalhoso de reaprender a dominar  a bexiga.  Durante o dia, gasto tubos de Veja e vários rolos de papel-toalha, domesticando o bicho. À noite, tem ficado de castigo na sacada (com caminha, comida, água e caixinha de areia). Mas acho que tá quase pronta pra voltar a desfrutar da nossa companhia e do ar-condicionado sem que eu corra o risco de perder meu colchão.

Abaixo, um clipezinho com uma das brigas da Cloé com Malucat, estilizada à moda operística por Rossini. http://mais.uol.com.br/view/e9k2j91iyhc9/dueto-comico-de-dois-gatos–rossini-04023560C8898346?fullimage=1&types=A


Dos 50° aos 37°C, em silêncio

Foi um prendedor de roupas que caiu no piso da sacada. Uma das gatas deve ter empurrado um dos que deixei sobre a mesa ao recolher a toalha branca lavada do vinho tinto de ontem. Foi um de plástico. E foi Malu Cat.  Como sei disso? Diferencio o fagote do oboé entre os metais harmonizados às cordas do baixo e da viola de gamba em uma sinfonia. Tenho obrigação de saber que um de plástico foi empurrado com a pata até cair no piso segundos antes de a felina menor aterrissar em solo e encurralar o circunstancial brinquedinho no canto da sacada.  Me especializei com os gatos, claro, aquelas orelhas de flaps em semiarcos capturando sons que eu nem de longe imagino existirem, nem que eu esteja no mais absoluto silêncio dos fogachos na escuridão. Ainda assim, com este ouvido meramente humano, reconheço também o algodão nobre deste lençol onde me deito: microestalos em ondas até moldar meu corpanzil gelatinoso à inescapável depressão do colchão, agora de novo um oásis seco onde repouso das umidades do corpo suando em bicas a cada nova onda de calor.  A toalha úmida é um refresco deixando uma faixa de pêlos eriçados pelo caminho. Do pescoço às mãos, longitudes sob um sol a pino se alongam pra alcançar minhas costas em arco, bem como  faz Cloé Buscapé, na hora dos carinhos com a mão cheia sobre o pêlo. A toalha felpuda de algodão em relevos floridos é encharcada com os últimos emeéles da garrafinha, e quase dá pra ouvir as fibras de algodão se expandido no inchaço da água ainda fresca antes de evaporar sobre minha pele que ferve. A ‘por que não um banho’ respondo com a sonolência. Não quero acordar meu corpo. Preciso só descansá-lo deste calor. E entre uma onda e outra de fogacho me restrinjo a ficar ciscando nos sons da escuridão: a folha da bananeira raspa os relevos do muro, um caju cai na grama, uma porta bate na casa vizinha, toca um celular, a coruja pousa no telhado, minhas pálpebras se debatem, os cílios se encaixando como as lâminas de uma tesoura. Suspiro. Pronto. Passou. Estou fresca de novo.


Viajar não é preciso

Ontem entendi que o que me faz feliz em viagens são duas coisas: café da manhã de hotel e as árvores que nunca vi antes.

Se na viagem não ficar em hotel, a visita obrigatória será às padarias, das mais sofisticadas às mais simples.  Pão é coisa de gente, visceral e nobre. E se estiver em “qualcuna osteria”, alguma variedade e alguma qualidade dos pães do café da manhã já me fazem feliz.

Se eu for em janeiro, a França, ainda que coberta de neve, será um destino bem na medida desse prazer; posso tranquilamente viver de pão, queijo e vinho durante cinco dias, e mais feliz ainda ficarei se de quebra intercalar um gole de vinho e outro com um chocolate. Podem ser os suíços, ou os belgas, que, lá,  imagino, tenham preços menos proibitivos do que aqui no Brasil. Com todo respeito, mas meu preferido nacional  vira uma pérola negra paraguaia.  Ficaria absolutamente genial um dia daqueles de céu azul e frio de cinco abaixo de zero. Aí, imagina a cena com uma manta colorida no chão de grama pro piquenique! Comendo pão sob a copa de uma árvore que nunca vi antes, mesmo que o ineditismo seja o fato de ela estar sem folhas, ou que só tenha sobrado uma que outra, mirradinha, por conta do friozão.

Coisa difícil de acontecer, esse dia assim pelas bandas lá de cima. Essas amenidades, acho que  só no inverno da serra gaúcha.

Árvores que não conheço se antecipam sempre ao lugar em que vou chegando. Fronteiras vão sendo diluídas nos tons de verde, do exuberante ao pálido das secas, dos escuros aos alaranjados outonais, e a copa das árvores é um tapete suspenso sobre o qual faço mágicas em revolteios porque assim, vistas do alto, as pessoas poderão ser diferentes.

Mas não muito: afora as maravilhas dos diferentes sotaques e as exceções raras, em geral vejo nas pessoas de um lugar diferente uma massa disforme que não chega a me provocar. Claro, uma exceção são os artistas: os de rua e os outros; a outra são aqueles encontros geniais, ainda que irrepetíveis.

Se viajar pra um lugar onde não tenha nem hotel, nem padaria, e se já estivermos no fim dos tempos e não sobrar nenhuma árvore, sequer uma graminha insólita no chão crestado de dor, terá um abraço querido me recebendo.

Isso me tira de casa, dos cheiros meus dividindo território com Cloé e Malu cats.

Com a praia ao alcance dos pés.

Isso não tem preço.

Mas é muito bom que eu possa pagar.

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