Arquivo da categoria: Histórias breves

Por uma/duas

Retweet-cancella-retweet-cancella branco azul escolhi branco não sem sofrer em fortíssimo porque antes de eu sentar aqui fechei a porta da varanda pensando que antes do azul tenho que escrever depois de por acaso dar de cara com a Brum na fila pra um conto chinês que finalmente vou assistir quando finalmente estiver em Porto Alegre amanhã aí eu hesito mas não resisto e peço licença desculpe sou a fulana  e ela com aquele olhar  sim  e daí e tiro da bolsa Uma/duas pra um autógrafo num ato inaugural da tietagem mais humana e atrapalhada morta de vergonha gaguejo pra ela minha vida ficou mais fácil depois do teu livro porque tu já me disse sem confessar minha vida ficou terrivelmente mais difícil porque tenho que inventar uma outra mãe pra mão da minha história.

Escolhi não retuitar e tento achar a resposta pra por que não o fiz enquanto levanto pra finalizar o molho pro macarrão de daqui a pouco com os amigos e preparo já a brusqueta pensando em como minha mão pra cozinha transcendeu a receita caseira da minha mãe tudo bem que eu compro barilla na recusa em aceitar o espaguete caseiro amassado a punho com a farinha que vem do sul pra minha mãe tudo bem que eu faço o molho sem usar massa de tomate que usa minha mãe tudo bem que já ouso azeitar o espaguete depois de escorrido antes das folhas frescas de manjericão depois o molho que não é o da minha mãe tudo bem que eu tenho uma mão boa pra cozinha.

Tirei as mãos dela da minha cozinha faz tempo mas que diabos ainda faz feira pra mim conveniência gentileza disfarçadas de pano pra manga a lista o dinheiro ainda dá ou já acabou se for como a berinjela da semana passada pode ser se não nem traz o tomate maduro pra molho o resto nem  precisa porque viajo na outra semana em todo caso ovos pro omelete com alho poró alho o que eu gesticulo um deixa pra lá com a mão que é uma cebolinha metida à besta com a mesma mão que marca território da diferença impondo critérios a uma mãe de uma mão só que mal se mantém de pé sob o sol já abrasador das sete da matina.

Quero uma mãe e duas mãos novas pra ficção em que posso existir agradecida muito ténquiu Eliane Brum por uma/duas.

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Quases

 

Uma quase vida inteira em desespero na agonia do preenchimento do vácuo em movimento pra lugar nenhum. O que comprar o que vestir que carro ter onde morar quantos filhos parir, investir no comezinho diário sem nunca desistir. Sem nunca vacilar. Por que o estampado do vestido é a escolha mais importante dos dias, ela adere à moda como a uma resposta a um chamado de emergência, 199, como posso lhe ajudar.

Quase uma vida inteira pra decidir entre o de estampa floral preto no branco e o vestido tom sobre tom em intermináveis azuis. Emoldura o corpo na roupa e decide em menos tempo mas com igual solenidade o calçado e os acessórios. Uma vida assim cabe na bolsa inteira, quase marsupial às avessas.

Mas quase inteira uma vida desmontada antes de o corpo em nude desmascarar a farsa, denunciar o engodo, explicitar o engasgo. O nu do corpo em convulsões e espasmos se transmuta na alma transparente e vaga, então quase uma nesga do corpo todo numa inteira quase vida.


O homem que foi

Como se tivesse congelado o rosto num sorriso, as camadas craqueladas da pele em ondas, a boca aberta sem dentes como a água parada onde se joga uma pedra elevando a maré até então imóvel como um gato que dorme. Em cada camada da pele crestada, mil horas sob o sol arando a terra seca, uma vida inteira em gestos de sementes insistidas surpreendendo o chão sem esperança.

Ainda assim, naquele sorriso congelado no rosto havia uns olhos cheios de vida, alguma espécie de alegria acumulada em gotas durante quase um século.

Ali, na tensão de uma vida ressuscitada todo dia, cravou um lábio contra o outro arredondando a boca escolhendo o que dizer.

Os lábios entreabrem-se. Ouve-se o leve rufar de um suspiro no ar.

E mais nada.


Fôlego

– Tem pastel?

– É  que a moça chegou tarde porque morreu o tio ela passou a noite no velório imagine com esse frio diz que era chaveiro e tinha abanca casinha não sei o nome ali na esquina era bondade só diz que fazia chaves muito boas não se metia com larápio marginal só com documento prova tipo magaiver é que abria a porta das pessoas imagine se ele faz uma coisa dessas pra qualquer um outro dia soube que chamaram o chaveiro causa que tinham assaltado a moça que tinha ficado sem chave né e ele foi e era mentira mas ele não sabia veio a polícia mas graças a deus umas pessoas vieram e disseram que ele era honesto e bom vieram muitas pessoas aí a polícia acreditou e mais a bondade dele foi o que salvou ele né mas diz que morreu assim sem grito nem manha só entrou em casa chaveou a porta da casa deles sentou num sofazinho que eles tinham na salinha pra descansar um pouco antes da janta e pum assim sem mais nem menos e que no velório até riram porque disseram que ele assim com o cara lá de cima que tem as chaves. Não serve sonho, moça, saiu ainda agorinha.


Pequenas crenças, como a onda ser do mar. Sopros entre o furor dos trovões e das tempestades. Retas setas tortas: caminhos do não-lugar. Com outra pequena crença, se quer chegar: é a distância entre ela e eu que deixa a estrela tão pequena e os óvnis tão desaparecidos. Ocultos pelas claridades. Ser tão, tanto. Ser tão antes de tudo. Só serem tão calos, os meus dedos. Bem ou mal, no nada é que dói ser então eu a minha alma. 


A primeira vez

A lata de saponáceo usada como o cálice do sangue de Cristo, colocava ali a esponja, o sabão e o pano da pia, dobrando o sangüíneo na consagração do mistério. Esticava-o bem e guardava os paramentos, abrindo a porta como o padre fazia com o sacrário, deixando lá dentro do armário o corpo e o sangue até a próxima louça. E entre um domingo e outro levava-me à igreja, pedaços de pecados  largados pelas escadarias. Cantava “o Senhor fez um grande banquete” pra depois comer do Cordeiro, e então sim me fazer pecadora. Como na primeira vez, que foi com sangue. De sapatos apertados e vestido também branco, me aproximei enquanto ele mergulhou no cálice o corpo Dele, então meio molhado de vinho na minha boca. Eu quis me embriagar. E aleluiei.


“Emperrou o livro que estava lendo”, reclama o bebê tão logo põe a cabeça pra fora entre as pernas em placentas sanguinolantes. A parteira, livreira de profissão, pergunta:

– Qual é o livro?

– Sei não. A luz extra-uterina lhe arrebatara a memória.

– Como vai se chamar?

E ele diz que sei lá, escolha você.

Pois bem, senhor Menino. E assim ficou. Era o suficiente para distingui-lo dos irmãos Guri e Piá.