Arquivo da categoria: Gordiças

Caro Carpinejar:

Fui sua colega por um dia, no mestrado em Letras\UFRGS, em 1998\9, não tenho muita certeza. Era uma aula do Fischer, eu entrei uma semana depois do início da aula, no segundo semestre do curso, desertando da pós em Linguística. De terno, você sentava ao lado dele, comentando o “À Mão Esquerda”. Quis muito me meter na conversa, eu tava lendo o Wolff, meio chapada com aquela versátil e bruxuleante alteração de ponto de vista a cada capítulo. Mas eu sofro de timidez crônica, e calada estava, calada fiquei.

Quase uns 12 anos depois disso, dia desses chega na minha casa em Aracaju uma Zero Hora mandada por uma tia de Flores da Cunha que acrescentou a edição da ZH às do jornal O Florense, enviadas religiosamente a cada vez que chegam aqui na capital sergipana as encomendas de farinha pra pão, amendoim do grandão, chimia de figo, compotas, réstias trançadas de cebola e alho, sálvia fresca, eventualmente alguma muda de planta e frutas e legumes de cada estação (pinhão e a montenegrina: os ++).

O lícito contrabando vem por amigos caminhoneiros que puxam carga pras bandas de cá com relativa frequência: eles nos avisam que estão subindo e passamos a lista de encomendas à tia, dando a partida pras compras e fechamento de caixas antes de fecharem a carga.

A chegada do caminhão, como você bem pode imaginar, é sempre uma festa, motivo de telefonemas monitorando as horas que nos separam da abrição de caixas: a reunião familiar é uma verdadeira algazarra de divisão dos bens entre nós cinco, gaúchos migrados pra cá (minha irmã primeiro, no início dos anos 80; em 97, meu irmão e meus pais; e eu, menos de uma década depois).

Isso tudo te contei pra te dizer que foi mergulhada nessa revivência de “ser de Flores da Cunha” promovida pela chegada da muamba que li o teu texto “vida de gringo”: me devolveu de volta pra casa, ali, no meio daquele cenário de olfatos e texturas e cores e notícias velhas mas recém-chegadas de lá.

Mais uma vez, a poesia opera milagres.

Grata por esse seu.

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A 30 dias do 20 de setembro

Sei, falta ainda quase um mês, mas já que não vou pro churras e pro carreteiro lá do Harmonia, rendo homenagem aqui a quem me  torna possível “ser gaúcha” a três mil km de distância.

♥ À Barão de Cotegipe, que me manda erva-mate pelo correio a cada 60 dias. Chega aqui a 10 pilas por quilo. Eu pago bem feliz.

♥ À vitivinicultura da serra gaúcha, por expandir mercado até as bandas acima da linha do Equador. Cada vez mais variedade. E qualidade. Tim-tim.

♥ Às amigas Rosa e Rosângela, pelas impagáveis comprinhas que tem só na fronteira com o Uruguai.

♥ Ao inventor do isopor, que me permite trazer a costela quando volto da capital gaúcha.

♥ À Susana Gastal, por elevar o portoalegrês ao mais alto refinamento intelectual, sem frescura nenhuma.

♥ À Ana Zilles, que me mandou o livro do Vitor Ramil.

♥ Ao Simões Lopes Neto, por “O Negro Bonifácio” e por “Trezentas Onças”. Ao Érico, pelo “O Continente”; ao Quintana, pelo “Mapa” de Porto Alegre. Ao Scliar, por ter respondido meu e-mail.

♥♥♥ Ao Cavanhas (da Demétrio para a Lima e Silva),  o melhor xis do mundo.

♥ Ao Beto Vianna, que é lindo até pilchado e que maneja uma faca como ninguém.

♥ ∞ Ao Kleinowsky. A primeira vez que o vi, estava de camiseta branca, bombacha, boné de couro, mala de garupa e chinela campeira. Foi embora da minha vida pela primeira vez cantando “Veja que cabeça louca: pondo teus olhos em mim // Eu que sempre ando depressa não vou te fazer feliz // Esquece de mim, te peço, eu sou como o Uruguai // Que sem deter sua marcha, beija a barranca e se vai”. Uma hora dessas, ele sai de um outro fandango pra estar comigo.

♥ À tia Clarice, que compra/encomenda/organiza/empacota as gordiças gaúchas: amendoim do grandão, chimia de figo, queijo de campo, linguiça de colônia, alho e cebola de casca amarela em réstias trançadas, vinho, farinha de trigo especial e as guloseimas de hortifruti de cada estação. Pinhão, laranja de umbigo e berga montenegrina das Antas são hors concours.

♥ Aos caminhoneiros florescunhenses Bonzo e Perachio, que atravessam três mil e trezentos quilômetros  de país com nossa muamba na boleia do caminhão.

♥ Ao meu irmão Moisés, que ainda se emociona contando causos da fronteira, dos tempos que ele morou em Quaraí, pelos churras impagáveis na churrasqueira perto do mar, pela “oitiva” à moda campeira e por afiar minhas facas de cozinha.

Mas, ainda que eu ache o máximo isso tudo, depois de 10 anos na estrada, penso que podiam mudar o hino: aquela coisa de “Sirvam nossas façanhas De modelo a toda terra” é meio demais, né não?


Adoro tapas!

E beijos também.

Ambos em quantidade e frequência  generosas,  e que estejam preferencialmente disponíveis, acessíveis, prontos pra regozijo e glória dos meus desejos.

Com beijos, é mais fácil. Pero no es  lo que ocurre con las tapas.  Pra elas, só estando na Espanha.  A vivência estética com Gaudi é uma epifania pro olhar, deslocado em contornos até então  inimagináveis pra uma arquitetura tão ortodoxa de uma igreja ou de uma casa, por exemplo.

Se a obra do catalão produziu em mim arrebatamentos vertiginosos,  não menos arrebatadoras foram as alegrias instintuais, eu bicho humano,  ao experimentar las tapas, meu destino preferido em Barcelona.

Três dias à base de tapas é uma experiência gastronômica que se agiganta em importância cada vez que lembro da breve estada catalã. Primeiro, porque com esse tradicional tipo de prato espanhol é plenamente possível ser vegetariana e comer com requinte. Segundo, porque são de uma simplicidade ameaçadora à preguiça: um bom azeite e as combinações tradicionais e ou inventivas de ingredientes garantem uma refeição leve, nutritiva e ab-so-lu-ta-men-te deliciosa. Terceiro, porque a simplicidade é equivalente à rapidez;  é plenamente possível ter legumes e verduras pré-cozidos à mão pra juntá-los acrescentando algo fresco: um cogumelo, uma alcachofra, mesmo um simples brócoli. Quarto, porque se não dá pra comprar cogumelos e alcachofras (ou por não ter ou por serem caros demais) dá pra fazer com vagem,  repolho e cenoura, por exemplo.

Além disso tudo, há também as bonitezas das cores envernizadas de azeite e o aroma que ascende em prazeres antes mesmo de levar o garfo à boca. Imagine isso tudo com uma taça de vinho tinto e dá pra lidar deliciosamente bem com a índole orgástica da boa comida.

Junto com vinhos e pão franceses,  chocolate e cerveja belgas, e a pasta  e o café da manhã na casa de Mohand e Kika e tá mapeada uma viagem feliz.

Agora, 12h15, hora de Brasília: vou me preparar pros tapas do dia.

Pros beijos, tô sempre pronta.

                               photo by GreiceS


Alegrias sem carnaval (e com amor, para Mohand)

Ano passado, li o livro. Ontem, revi o filme “Julie & Julia”, a história da jovem Julie, americana deste início de milênio, às voltas com a produção de 524 receitas do livro de Julia Child, escrito por ela e duas amigas nos anos 40 do século passado, no espírito de tornar acessível a então já refinada culinária francesa a donas de casa americanas.

Na vida real, Julie publica  no  blog  “Julie/Julia Project”  o desafio a que se propôs em 2003: em 365 dias, fazer  524 receitas do famoso livro Mastering the Art of French Cooking, e comentá-las.

Imagine esse contexto em pleno recesso carnavalesco: claro, só podia ir pra cozinha me divertir. Caprichei numa receita minha de berinjela, que ficou realmente muito boa. Além de gostosa, é versátil: pode temperar una pasta (de preferência, fusilli, cujo formato favorece a aderência da berinjela desta minha receita), pode ser servida com torradas como tira-gosto e até mesmo como guarnição: com arroz branco, salada de folhas verdes e uma carne grelhada é quase um banquete.

Então, no espírito de Julia, compartilho a receita.

Ingredientes

3 beringelas tamanho médio,  5 colheres de sopa de manteiga Aviação (ou uma outra qualquer de boa qualidade), 3 pimentas de cheiro cortadas em tiras fininhas, sem semente,  3 cabeças de alho picado, 100 gr de cogumelos brancos laminados, 100 gr de azeitonas verdes laminadas sem caroço. Azeite de boa qualidade, vinagre balsâmico de boa qualidade e sal.

Modo de fazer Cortar a berinjela bem fininha: primeiro em rodelas e depois em tirinhas. Você saberá que está fazendo certo se o formato das tirinhas ficar bem parecido com um palito de fósforo; na consistência, a malemolência de um fio de spaguetti cozido. Separe. Numa panela de fundo grosso, aqueça três colheres de manteiga e deixe em fogo médio enquanto adiciona a berinjela aos poucos, mexendo sempre pra não grudar. Use colher de pau ou de tefal. Quando metade da berinjela já estiver na panela, coloque o resto da manteiga espalhada sobre ela e vá acrescentando aos poucos o restante da berinjela. Mexa sempre; depois de uns 3-5 minutos neste processo inicial, a berinjela vai ficando escura e soltando uma aguinha. Essa é a hora em que você tampa a panela pra que a berinjela cozinhe no seu próprio caldinho, produzido pelo vapor, durante outros 3-5 minutos, não mais do que isso. A hora de mexer durante este processo a gente sabe pelo ouvido: preste atenção no quanto agudo está o barulhinho. Quanto mais agudo, mais perto de queimar. Na falta de um ouvido treinado pra essas sutilezas, acerte pelo excesso: tire a tampa da panela pra mexer a cada 60 segundos. Ainda que isso seja feito a contento, cuide pra não deixar queimar.

Os riscos aqui são a) fogo muito alto ou b) panela com fundo muito fino. Administre essas variáveis e a berinjela ficará com brilho e cheirosa. Desligue; e assim, com a berinjela ainda borbulhando na sua própria polpa, adicione o alho, o cogumelo e a azeitona, mexendo bem. Deixe tudo ali, bem misturadinho, com a panela tampada, até esfriar bem.

Depois de frio, transfira pra uma tigela de louça. Junte a pimenta cortada em tirinhas, deixe regular a superfície da mistura de berinjela, embebendo-a com azeite. Vá colocando o azeite aos poucos, fazendo pequenos vãos na mistura pro azeite ir agarrando cada tirinha de berinjela. Acrescente algumas gotas de balsâmico e sal a gosto. Dê uma outra mexida, de forma a garantir que o azeite tenha generosamente aderido à berinjela. A quantidade de azeite estará no ponto quando tudo estiver tinindo de brilho e (de novo o ouvido) quando o barulho ao mexer lembrar cubos de gelo submetidos a um jato de água.

Sirva gelado, se for com torradas/biscoitinhos. Para aquecer, tire da geladeira uns 30 minutos antes de usar. Use um fio de azeite numa panela de fundo grosso, espalhe uniformemente a berinjela já bem resfriada e tampa a panela. Estará aquecido assim que fizer bolhazinhas uniformes.

Variações Ao invés da pimentinha, há quem coloque pimentões verde, vermelho e amarelo, cortados em tiras finas, crus, depois que a berinjela já gelou. Fica lindo, as cores vivas quebrando aquele marronzão da berinjela, e até curto o gosto. Mas se sobrar um pouquinho, já fica ruim de comer na sequência, pois o pimentão deixa qualquer sobra com gosto amarguento. Por isso uso a pimentinha de cheiro, aquela compridinha parecendo uma garra de onça em escala maior. Pimentices delicadas num colorido mínimo garantido.

Em tempos de estudante, eu só poderia comprar a berinjela, o alho e a pimenta. Fica bom também. Mas não dá pra abrir mão de um bom azeite e de uma manteiga de boa qualidade.

Quando fiz essa receita ontem, fiz também em separado um picado de calabreza fininha (uso a da Sadia) refogada que vou misturar agora na porção de berinjela pro fusilli Barilla. Com um parmesão ralado na hora e um Shiraz aberto a propósito, está garantido um banquete.

Vantagens Sim, sim, sei bem que dá a maior trabalheira cortar uma montanha de berinjela, que acaba reduzindo um bocado, diria que uns 2/3 do volume inicial. Mas o grande barato dessa receita são na verdade duas coisas: 1) é barato 2) dá pra fazer uma grande quantidade e congelar pequenas porções.

Julie & Julia diziam bom appetit.

Digo eu daqui: Mohand, merci et bon appetit.