Arquivo da categoria: Carreto de teses

A 30 dias do 20 de setembro

Sei, falta ainda quase um mês, mas já que não vou pro churras e pro carreteiro lá do Harmonia, rendo homenagem aqui a quem me  torna possível “ser gaúcha” a três mil km de distância.

♥ À Barão de Cotegipe, que me manda erva-mate pelo correio a cada 60 dias. Chega aqui a 10 pilas por quilo. Eu pago bem feliz.

♥ À vitivinicultura da serra gaúcha, por expandir mercado até as bandas acima da linha do Equador. Cada vez mais variedade. E qualidade. Tim-tim.

♥ Às amigas Rosa e Rosângela, pelas impagáveis comprinhas que tem só na fronteira com o Uruguai.

♥ Ao inventor do isopor, que me permite trazer a costela quando volto da capital gaúcha.

♥ À Susana Gastal, por elevar o portoalegrês ao mais alto refinamento intelectual, sem frescura nenhuma.

♥ À Ana Zilles, que me mandou o livro do Vitor Ramil.

♥ Ao Simões Lopes Neto, por “O Negro Bonifácio” e por “Trezentas Onças”. Ao Érico, pelo “O Continente”; ao Quintana, pelo “Mapa” de Porto Alegre. Ao Scliar, por ter respondido meu e-mail.

♥♥♥ Ao Cavanhas (da Demétrio para a Lima e Silva),  o melhor xis do mundo.

♥ Ao Beto Vianna, que é lindo até pilchado e que maneja uma faca como ninguém.

♥ ∞ Ao Kleinowsky. A primeira vez que o vi, estava de camiseta branca, bombacha, boné de couro, mala de garupa e chinela campeira. Foi embora da minha vida pela primeira vez cantando “Veja que cabeça louca: pondo teus olhos em mim // Eu que sempre ando depressa não vou te fazer feliz // Esquece de mim, te peço, eu sou como o Uruguai // Que sem deter sua marcha, beija a barranca e se vai”. Uma hora dessas, ele sai de um outro fandango pra estar comigo.

♥ À tia Clarice, que compra/encomenda/organiza/empacota as gordiças gaúchas: amendoim do grandão, chimia de figo, queijo de campo, linguiça de colônia, alho e cebola de casca amarela em réstias trançadas, vinho, farinha de trigo especial e as guloseimas de hortifruti de cada estação. Pinhão, laranja de umbigo e berga montenegrina das Antas são hors concours.

♥ Aos caminhoneiros florescunhenses Bonzo e Perachio, que atravessam três mil e trezentos quilômetros  de país com nossa muamba na boleia do caminhão.

♥ Ao meu irmão Moisés, que ainda se emociona contando causos da fronteira, dos tempos que ele morou em Quaraí, pelos churras impagáveis na churrasqueira perto do mar, pela “oitiva” à moda campeira e por afiar minhas facas de cozinha.

Mas, ainda que eu ache o máximo isso tudo, depois de 10 anos na estrada, penso que podiam mudar o hino: aquela coisa de “Sirvam nossas façanhas De modelo a toda terra” é meio demais, né não?

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Chaves à unha

Se tem um pavor que me define é a perspectiva de eu ficar sem a chave de casa. Longa batalha, desejo adolescente conquistado só aos 23 anos, ter uma casa só pra mim e ficar impedida de entrar seria quase um exílio forçado nas terras geladas da Sibéria.

O privilégio de morar só traz responsabilidades adicionais, e muitas.  A principal delas é que a gente sabe que ninguém mais tem a chave, que não adianta gritar “mãe, abre a porta pra mim!?!”, e que se a chave for perdida, babaus, ganha-se uma bela dor de cabeça.

E se roubarem a bolsa e tudo que estiver dentro dela? Dá o maior trabalhão encaminhar documentos de novo depois do beó; é o maior pepino cancelar cartão; lamentaria profundamente minhas coleções de batons e de canetas pros desenhos na minha moleskine.

Mas a chave ir-se embora junto com a bolsa seria um verdadeiro desastre. Pense a tranqueira de ter uma casa e não poder entrar? Chamar chaveiro, mudar trancas e chaves, ficar desconfiada por um bom tempo: vai que na bolsa tinha um boleto qualquer de pagamento com o endereço?

E sempre foi assim, essa coisa com a chave de casa, mesmo quando (sim, acredite, isso é possível!) eu sequer usava bolsa: reservava um dos bolsos da roupa e ajeitava o metal de tal forma que eu nem lembrava que existia a chave acomodada ao corpo entre duas fatias de tecido. Na falta de bolso na roupa, lanço mão da estratégia de ajeitar a chave amarrada à alça do sutiã.

Esquecer que a chave está ali é pouco provável, dada a sensibilidade da área e também devido à quantidade progressivamente maior de chaves que se usa pras mesmas quantidades de acessos. Mas ainda assim não acho ruim, não; é sempre bom ter um amuleto de metal dentado e concreto marcando o couro assegurando que tenho pra onde ir e onde estar, com segurança: tanto a chave quanto eu, e também por causa dela.

Ontem fiquei marcando as chaves da minha nova morada: esmalte rosa pra porta da rua; vermelho pra porta da casa, sem cor pra porta da varanda. Se eu tivesse aderido aos modernosos coloridos das unhas, poderia ter escolhido azul pra porta da rua, pois ao subir a escada é quase a porta pra um céu; laranja pra porta da casa, meus crepúsculos prediletos; verde pra porta da varanda que dá pro jardim.

Mas sendo uma criatura das antigas, sou quase ortodoxa: quando minha manicure vier me atender na casa nova, semana que vem, vou escolher outra vez, como pelo menos há mais de três décadas, entre a base cor de nada ou o vermelho-rosa, pois é muito mais fácil pra mim mudar de casa e de rumos do que usar azul, verde e amarelo nas unhas.

Quanto às chaves, sigo em mundanças.

Pelo menos até a chave não precisar ser nenhuma pra eu me sentir em casa.

 

 


Matriz

“E aí, quando eu já não mais queria voar, eis que me transformei num ovo.”

“Jamais esquecerei o dia que amanheci ovo.”

“Epitáfio: aqui jaz blue a ave que não foi.”

Fiquei pelo menos umas boas duas horas intrigada com aquela coisa branca em formato oval que aparecia no lugar do pássaro azul esvocejante do twitter cada vez que entrava ali depois de ter desistido de microblogar a cada vez em quando.

Até cair a ficha: gente, voltei ao status-ovo!

Nada de pássaro azul migratório, tentacular feito um polvo de mil braças, hibernante eventualmente.

Ali, não tem negociação possível: ou a gente tuíta ou não tuíta, e ponto final.

Bastou ficar mais de 48 horas sem postar e me remetem a minha forma mais ancestral, mais visceral, menos humana e mais bicho.

Essa é outra coisa bárbara na web: a explicitação tácita de processos. Ressonância (ou será consonância?) da pós-modernidade.

Deixei de tuitar, e mesmo que ninguém se dê conta disso [porque, convenhamos, isso não tem a menor relevância], o próprio sistema me re-categoriza, anunciando pra quem está na minha rede sem ser peixe: de pássaro esvoaçante à condição primeva de ovo, bastam apenas 48 horas de silêncio e não-protagonismos registrados na web.

E eis que percebo: até não ser é identitário na web!

Assombro-me.

Espanto-me.

Boquiaberto-me.

O que nos diria Clareza Lispector?


Tese 1

As cartas em Machado de Assis são a configuração da estética brasileira do favor.


Tese 2

Tempos verbais no texto sobre a escrita: grau zero na apropriação do sentido de escrever.


Tese 3

Cartas trocadas por Manuel Bandeira e Mário de Andrade – a concepção modernista da identidade lingüística brasileira


Tese 4

É o pedantismo associado à norma que concede legitimidade às variedades lingüísticas não padrão.