Arquivo do mês: dezembro 2011

Cidade em mim

Há muitas alegrias entre as esquinas e sombras da cidade. Há felicidades sentidas e não nomeadas, talvez sequer percebidas como tal, mas que acompanham nossos passos nos trajetos cotidianos da cidade. Ou até nem cotidianos assim, dada a distância, há dez anos*, da família, dos amigos, dos ruídos da cidade que reconheço a cada visita. Sei o horário da missa pelo toque dos sinos e se quem morreu é homem, mulher ou criança. E nos verões desta última década em que morei na capital, resgatei da memória cheiros que presentificam a vindima e os de algumas flores, explodindo por entre as grades dos jardins.

Continente da minha saudade de Flores, há olhares que desvendam novidades cotidianas, olhares que descobrem coisas sempre vistas e caminhos novos para conhecidos destinos, olhares que vêem de cima, ou de dentro, ou de qualquer outro lugar que não o olhar viciado e embotado pelos trajetos sempre cotianos da cidade.

Olhares do fera Ferrarini, nos textos semanais do jornal da cidade, reunidos em “Crônicas da cidade pequena”. O poeta é aquele que sonha os sonhos dos outros e os escreve para neles podermos ver a nós mesmos no mundo, um dos prazerosos encantos que a vida nos preserva. E são prazeres que só a poesia dá: a redondeza do mundo é o não-limite da sua abrangência.

Assim como se lê Ferrarini no jornal da cidade ou no da capital, se pode ler Ferrarini também em São Paulo ou no Brasil inteiro pelas páginas do Mais! da Folha de São Paulo. O fato de um crítico ter lido Ferrarini e ter falado sobre seu “Minuto diminuto” na Folha e o fato de Ferrarini ser de Flores, da nossa cidade pequena, alcançam, assim, dimensões que não ficam restritas ao universo da crítica literária, nem tão pouco ao universo dos milhares de leitores daquele jornal paulista.

Alcançam também a dimensão possível dos nossos pequenos mundos, dos sonhos que (não) cabem neles. E seja qual for o lugar em que estivermos, é sempre uma  “cidade em nós”.

[esse é o verde que é dado por nós]

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