Por ordem de chegada

Não sem muito desconforto e não sem esbravejar durante um bom tempo, nos últimos cinco anos me rendi afinal à falta de pontualidade nas agendas dessa cidade. Se alguém marca com você e diz que vai chegar às sete, pode se organizar pra esperar até as oito, pelo menos. As outras meias horas depois destes primeiros 60 minutos vão depender muito de quem é a pessoa que marcou com você e de que natureza é o compromisso. Mas a regra é pelo menos uma hora de espera.

Qualquer jantarzinho despretensioso rende sempre isso. Às vezes, me enquadro e prometo só começar a arrumar as coisas considerando que haverá uma hora de atraso. Essa é a regra. Mas, ao mesmo tempo, anfitriã, me pergunto: e se forem pontuais, e ao baterem à porta sequer banho eu tomei? Uma vez, fiz uma massa especial de pizza, batida e aberta à mão, à boa moda italiana; quando os convidados chegaram, quase duas horas depois do combinado, a massa de pizza já tinha virado massa de pão e já tinha murchado; eles fizeram a gentileza de achar ótima e pedir bis.

Essa prática socialmente legitimada por essas bandas não se aplica apenas ao âmbito doméstico, privado. Ao contrário, pelo menos uma hora de espera é extensiva inclusive a saidinhas despretensiosas à praia. Basta lembrar quantas vezes me arrependi de passar o filtro solar em casa: quando cheguei à praia, já era.  Nunca me aconteceu – nem na condição de convidada – mas é bem frequente ouvir comentários sobre noivas que se atrasam inabalavelmente e deixam seus 300 convidados cozinhando por quase duas horas em fogo brando entre tafetás e ternos de microfibra. Até os padres reclamam! Diz que um deles agora  definiu um prazo de até 30 minutos depois da hora marcada: se a noiva não chegar, ba-baus cerimônia.

Assim, com esses no mínimo 60 minutos de espera em tão diferentes instâncias do trânsito social, fica fácil entender por que é tão excepcionalmente raro encontrar um médico que atenda com hora marcada. A maldita expressão “por ordem de chegada” é a segunda resposta que ouço depois de “sim, atende seu plano de saúde”, e é também a razão pra eu desistir e fazer outras 14 tentativas à procura de algum médico que pelo menos agende três ou quatro pacientes por bloco de uma hora, coisa minimamente civilizada. Nesta semana, me rendi e aceitei pagar uma consulta particular, 120 contos de réis, cancelada imediatamente ao ouvir da secretária que também era por ordem de chegada, ainda que eu estivesse desembolsando 120 pilas.

“Por ordem de chegada” é uma instituição legitimadora da total falta de compromisso com o outro e da total falta de respeito com o tempo alheio. Significa que tenho que me submeter ao tempo do outro, dedicar-lhe um turno inteiro do meu tempo por causa da inexplicável falta de habilidade em lidar com a simplicidade de uma agenda.

Se o tempo do médico é caro o meu é também, ainda que eu ganhe muito menos do que ele. E de nada adiantam ar-condicionado, café, água gelada, as compulsórias velhas edições das revistas de sempre e televisão ligada.

Adoraria, um dia, assistir apenas a um bloco, por exemplo, do programa da Ana Maria Braga, à espera do atendimento. Mas naquela imensa sala de 15, 25 – já contei 50 cadeiras enfileiradas, uma ruma de gentes espera. Louro José dá pitacos desde a abertura, passa pelos comentários, pela receita do dia, pela entrevista, e eu ainda ali, acompanhando também os comerciais.

Adoraria, um dia, ficar sem saber do vestido da celebridade da vez e da corrupção do mês passado. Adoraria, um dia, nem ter tempo de tomar um cafezin durante a espera pelo atendimento. Adoraria, um dia, encher minha garrafinha de água apenas uma vez.

E nem me diga pra levar um livro, pois a barulheira de atendentes às voltas com telefones e microfones (sim, pasmem, a barulheira é tanta que há um microfone pra chamar os pacientes na hora do atendimento) e as conversas sobre assuntos privados ampla e invasivamente compartilhados via celular nas salas cheias de gente impedem as mínimas condições pra uma leitura, até mesmo pra uma leitora profissional como eu. Além disso, se quero ler leio em casa, no meu lugar preferido, e não numa sala que, até onde sei, deveria ser apenas uma sala de espera, e não uma sala de confinamento obrigatório de gente que deveria estar aí   li-te-ral-men-te   de passagem durante, 30, 40 minutos no máximo.

Até há pouco, parecia que apenas a mim o troço incomodava.

Agora não mais. Dá quase pra se rebelar. 

Alguém além de nós, @glauco_vinicius?

glauco_vinicius Glauco Vinícius    Médico: “Tudo bem, Glauco?” Eu: “Tirando a demora pra ser atendido, tudo” Médico: “É, rapaz, meu dia n foi fácil…” E o meu foi, né?! 5 ore fa

glauco_vinicius Glauco Vinícius Três horas esperando a consulta. Parabéns a todos os envolvidos. “

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5 respostas para “Por ordem de chegada

  • Glauco

    Querida prof Ester, essa foi a melhor leitura das últimas semanas. Adaptar-se ao relógio dessa terra de gente atrasada (ou melhor, que gosta de estar sempre atrasada) não é fácil para nós, forasteiros (rsrs). Hoje tento encarar esse costume aracajuano como mais uma contradição dessa cidade, onde quem se esforça para ser pontual é chato, careta e, para alguns, até cafona.

    Um beijo saudoso.

    • ester

      pois é, Glauco. o curioso é q mesmo em uma cidade como são paulo, com aquele trânsito absolutamente caótico, ainda, assim, as agendas funcionam. um dia, quem sabe …
      grata pela visita
      beijo

  • Anderson Ribeiro

    E ainda tem os amigos ocasionais da sala de espera. Aqueles que puxam assunto e, se você falar realmente o que acha, pode começar uma guerra sem precedentes num espaço que não dá pra fazer tricheiras. Hahahahahaha. Já deu vontade de fazer isso. deixar o ‘ahãn’ e abrir o bocão. É isso. O tempo tá passando e eu ficando mais ansioso pela ida.

    • ester

      ah pois, a novidade no descaso total é: pagar consulta particular, ser tb por ordem de chegada e aí eu chego lá e a criatura diz q o médico não vai atender. eu: “Não podia ter ligado?” e ela: – Mas ele só avisou há uma hora. Ah, tá … eu, ultimamente, comento, assim, pra quem tá por perto, meio que falando com meus botões “parece que só eu me incomodo com isso”.
      tu mais ansioso pra chegar e meus molhos cada vez molhores … bj

  • Daiana Rodríguez

    Já vivi muito isso pelas bandas de lá e por aqui, na terra dos Bandeirantes, não tem trânsito ou alagamento que faça um médico não ser pontual com a sua agenda. Hoje em dia é mais fácil eu faltar com a pontualidade. Bom, mas se o for, perco a consulta!

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