Arquivo do mês: outubro 2011

Por ordem de chegada

Não sem muito desconforto e não sem esbravejar durante um bom tempo, nos últimos cinco anos me rendi afinal à falta de pontualidade nas agendas dessa cidade. Se alguém marca com você e diz que vai chegar às sete, pode se organizar pra esperar até as oito, pelo menos. As outras meias horas depois destes primeiros 60 minutos vão depender muito de quem é a pessoa que marcou com você e de que natureza é o compromisso. Mas a regra é pelo menos uma hora de espera.

Qualquer jantarzinho despretensioso rende sempre isso. Às vezes, me enquadro e prometo só começar a arrumar as coisas considerando que haverá uma hora de atraso. Essa é a regra. Mas, ao mesmo tempo, anfitriã, me pergunto: e se forem pontuais, e ao baterem à porta sequer banho eu tomei? Uma vez, fiz uma massa especial de pizza, batida e aberta à mão, à boa moda italiana; quando os convidados chegaram, quase duas horas depois do combinado, a massa de pizza já tinha virado massa de pão e já tinha murchado; eles fizeram a gentileza de achar ótima e pedir bis.

Essa prática socialmente legitimada por essas bandas não se aplica apenas ao âmbito doméstico, privado. Ao contrário, pelo menos uma hora de espera é extensiva inclusive a saidinhas despretensiosas à praia. Basta lembrar quantas vezes me arrependi de passar o filtro solar em casa: quando cheguei à praia, já era.  Nunca me aconteceu – nem na condição de convidada – mas é bem frequente ouvir comentários sobre noivas que se atrasam inabalavelmente e deixam seus 300 convidados cozinhando por quase duas horas em fogo brando entre tafetás e ternos de microfibra. Até os padres reclamam! Diz que um deles agora  definiu um prazo de até 30 minutos depois da hora marcada: se a noiva não chegar, ba-baus cerimônia.

Assim, com esses no mínimo 60 minutos de espera em tão diferentes instâncias do trânsito social, fica fácil entender por que é tão excepcionalmente raro encontrar um médico que atenda com hora marcada. A maldita expressão “por ordem de chegada” é a segunda resposta que ouço depois de “sim, atende seu plano de saúde”, e é também a razão pra eu desistir e fazer outras 14 tentativas à procura de algum médico que pelo menos agende três ou quatro pacientes por bloco de uma hora, coisa minimamente civilizada. Nesta semana, me rendi e aceitei pagar uma consulta particular, 120 contos de réis, cancelada imediatamente ao ouvir da secretária que também era por ordem de chegada, ainda que eu estivesse desembolsando 120 pilas.

“Por ordem de chegada” é uma instituição legitimadora da total falta de compromisso com o outro e da total falta de respeito com o tempo alheio. Significa que tenho que me submeter ao tempo do outro, dedicar-lhe um turno inteiro do meu tempo por causa da inexplicável falta de habilidade em lidar com a simplicidade de uma agenda.

Se o tempo do médico é caro o meu é também, ainda que eu ganhe muito menos do que ele. E de nada adiantam ar-condicionado, café, água gelada, as compulsórias velhas edições das revistas de sempre e televisão ligada.

Adoraria, um dia, assistir apenas a um bloco, por exemplo, do programa da Ana Maria Braga, à espera do atendimento. Mas naquela imensa sala de 15, 25 – já contei 50 cadeiras enfileiradas, uma ruma de gentes espera. Louro José dá pitacos desde a abertura, passa pelos comentários, pela receita do dia, pela entrevista, e eu ainda ali, acompanhando também os comerciais.

Adoraria, um dia, ficar sem saber do vestido da celebridade da vez e da corrupção do mês passado. Adoraria, um dia, nem ter tempo de tomar um cafezin durante a espera pelo atendimento. Adoraria, um dia, encher minha garrafinha de água apenas uma vez.

E nem me diga pra levar um livro, pois a barulheira de atendentes às voltas com telefones e microfones (sim, pasmem, a barulheira é tanta que há um microfone pra chamar os pacientes na hora do atendimento) e as conversas sobre assuntos privados ampla e invasivamente compartilhados via celular nas salas cheias de gente impedem as mínimas condições pra uma leitura, até mesmo pra uma leitora profissional como eu. Além disso, se quero ler leio em casa, no meu lugar preferido, e não numa sala que, até onde sei, deveria ser apenas uma sala de espera, e não uma sala de confinamento obrigatório de gente que deveria estar aí   li-te-ral-men-te   de passagem durante, 30, 40 minutos no máximo.

Até há pouco, parecia que apenas a mim o troço incomodava.

Agora não mais. Dá quase pra se rebelar. 

Alguém além de nós, @glauco_vinicius?

glauco_vinicius Glauco Vinícius    Médico: “Tudo bem, Glauco?” Eu: “Tirando a demora pra ser atendido, tudo” Médico: “É, rapaz, meu dia n foi fácil…” E o meu foi, né?! 5 ore fa

glauco_vinicius Glauco Vinícius Três horas esperando a consulta. Parabéns a todos os envolvidos. “

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Por uma/duas

Retweet-cancella-retweet-cancella branco azul escolhi branco não sem sofrer em fortíssimo porque antes de eu sentar aqui fechei a porta da varanda pensando que antes do azul tenho que escrever depois de por acaso dar de cara com a Brum na fila pra um conto chinês que finalmente vou assistir quando finalmente estiver em Porto Alegre amanhã aí eu hesito mas não resisto e peço licença desculpe sou a fulana  e ela com aquele olhar  sim  e daí e tiro da bolsa Uma/duas pra um autógrafo num ato inaugural da tietagem mais humana e atrapalhada morta de vergonha gaguejo pra ela minha vida ficou mais fácil depois do teu livro porque tu já me disse sem confessar minha vida ficou terrivelmente mais difícil porque tenho que inventar uma outra mãe pra mão da minha história.

Escolhi não retuitar e tento achar a resposta pra por que não o fiz enquanto levanto pra finalizar o molho pro macarrão de daqui a pouco com os amigos e preparo já a brusqueta pensando em como minha mão pra cozinha transcendeu a receita caseira da minha mãe tudo bem que eu compro barilla na recusa em aceitar o espaguete caseiro amassado a punho com a farinha que vem do sul pra minha mãe tudo bem que eu faço o molho sem usar massa de tomate que usa minha mãe tudo bem que já ouso azeitar o espaguete depois de escorrido antes das folhas frescas de manjericão depois o molho que não é o da minha mãe tudo bem que eu tenho uma mão boa pra cozinha.

Tirei as mãos dela da minha cozinha faz tempo mas que diabos ainda faz feira pra mim conveniência gentileza disfarçadas de pano pra manga a lista o dinheiro ainda dá ou já acabou se for como a berinjela da semana passada pode ser se não nem traz o tomate maduro pra molho o resto nem  precisa porque viajo na outra semana em todo caso ovos pro omelete com alho poró alho o que eu gesticulo um deixa pra lá com a mão que é uma cebolinha metida à besta com a mesma mão que marca território da diferença impondo critérios a uma mãe de uma mão só que mal se mantém de pé sob o sol já abrasador das sete da matina.

Quero uma mãe e duas mãos novas pra ficção em que posso existir agradecida muito ténquiu Eliane Brum por uma/duas.


Um corte em silêncio

Certa vez, achei que havia encontrado o único cabeleireiro silencioso do mundo. Foi numa época de magérrimas vacas, e adiava o corte à espera de condições que fizessem coincidir a) ter 10 reais disponíveis, b) haver um salão decente que estivesse em megapromoção, c) eu saber disso, d) preferencialmente, que as três condições anteriores me permitissem cair na mão de alguém bom de tesoura. Pois aconteceu. Estava Rua da Praia abaixo no fluxo do horário comercial e pimpa! Corte a 10 reais na CorteZero da Andradas, em plena segunda-feira.

Entrei, confirmei a barbada e a moça “tem preferência por alguém?” e eu que não, “pode ser ele?”, indicando um rapaz na última cadeira. Sentei cumprimentando bom-dia e lhe disse como queria, curto, em camadas, franja repicada … em cada manifestação de desejo minhas mãos modelavam o cabelo, performance que eu queria instrutiva o suficiente pra evitar um desastre novo na minha vida já despencada ladeira abaixo.

Tesoura a postos, foi modelando o corte nos cabelos molhados e me parecia bem adequado ao que havia pedido, e o primeiro “trilegal” foi antecipado quando vi refletida no espelho minha metade nova. Na comparação, aplaudia minha decisão, agradecia pela convergência das coincidências e pela graça das habilidosas mãos do rapaz. Quando finalizou o corte, procurou meus olhos e os encontrou felizes na cara agora risonha.

Agradeci, levantei, paguei à moça da recepção e só então, já com meio corpo na rua, me dei conta e voltei. “É a primeira vez que corto o cabelo com alguém que fica em silêncio”. Ele é mudo, disse-me ela e disse-me eu Enfim. Alguém. Que. Respeita. A. Dura. Decisão. De. Cortar. O. Cabelo. A. Quem. Duas. Lâminas. Atacando. A. Cabeleira. Soam. Como. Um. Prenúncio. De. Mudanças. Importantes.

Me lembrei disso em Uma/Duas, da enorme Eliane Brum, cuja personagem narradora festeja o fato de ter feito um taxista se calar durante o percurso.

Se a quisermos minimamente verossímil, nem mesmo na ficção isso seria possível com um cabeleireiro.


Venite

Beni

bem bom

Veni vem vou

Beni vem vai

Venite, Beni!

 Adoremus