Quase à meia-noite em Paris

O editor do Balaio de Notícias e ex-aluno Paulo Lima sugere que eu escreva um texto sobre minhas impressões da capital francesa, no contexto da nossa rápida conversa sobre “Meia-noite em Paris”, o último filme do bruxo WA. Ainda não vi o filme. Mas, sim, estive na cidade-luz.

Bom, então tá, lá vai, confesso: não vi o Louvre por dentro. Do Pompidou, estive apenas na despirocante livraria e vislumbrei a arquitetura do prédio, assim, por fora, à noite. De Versailles, só a grande fachada iluminada antes de entrar para o espetáculo de balé no teatro do palácio onde Antoinette orquestrava o ócio da corte.  Notre Dame e Torre Eifel também ficarão pra próxima viagem.

Mas a caminho do réveillon na Champs Élysées, entrei na estação de metrô de La Chapelle às 22h50min. E essa foi a grande experiência da viagem a Paris. Conto por quê.

Havia umas vinte pessoas por metro quadrado nos abarrotados vagões embalados pra festa no conveniente entusiasmo geral das últimas horas do ano. A cada estação, as portas abriam apenas por que é a sina delas, definida pelo sistema: “em cada estação do metrô, as portas devem abrir e fechar após 30 segundos”. Abriam só pra lufada de ar gelado varrer o mormaço úmido dos perdigotos de muitas línguas,  e então o ar de janeiro redobrava os ânimos das gentes do vagão e mantinha acordadas as gentes que em cada estação não conseguiam embarcar e que provavelmente passariam a virada no ano ali naquela estação subterrânea do metrô parisiense.

Encantoada no ângulo das paredes entre um vagão e outro, nunca até então estivera tão coladamente perto de alguém num espaço público: um legítimo corpo a corpo, o meu encaixado nos microinterstícios entre Kika, Mohand, Julio, Thiana e os outros 15 de nós por metro quadrado, todos mantidos ilesos pelas camadas de roupa reduzindo o atrito entre os corpos todos mantidos eretos pelo apinhamento de diferentes narizes e olhos e peles, uma arca de Noé multiétnica deslizando sobre trilhos em direção ao ano novo. Entremeados pelo riso cheio de dentes e pelo hálito rescendendo ainda ao nosso honorável omelete, os olhares de Kika e Mohand me garantiam que isso era divertido. Bastava relaxar, até por que nada mais havia a ser feito.

E assim, no trajeto entre as talvez quatro estações de La Chapelle até o Arco do Triunfo, em sussurros dissimulando alguma espécie de medo, me juntei à cantoria babelística embalada pro futuro que começaria em menos de uma hora. Nesse trajeto de não mais de 40 minutos num espaço físico microcompartilhado com outras gentes cujas vidas eu ignorava completamente me dei conta de que minha colossal presença no mundo deve-se apenasmente ao fato de eu ter um corpo.

Uma cidade só interessa pelos fantasmas que ela evoca ao estarmos nela com este corpo que dá concretude a uma existência. Um corpo só está numa cidade se os fantasmas cativos dessa existência lhe forem alforriados. Havia posto os meus pra correr mundo afora ainda durante o percurso Bruxelas-Paris nos campos de neve, pois sabia que Paris é pródiga em fantasmagorias.

E assim, na minha primeira vez na cidade, pude cutucar fantasmas novos pra mim. Fiquei à escuta deles enquanto subia as ladeiras do bairro boêmio. Fiquei à escuta deles naquele molho voluptuoso de alho poró, que submetido a um rewind, volta de mão em mão até ser devolvido inaugurando a terra em semente. E ali, aquele homem plantando a semente pensa na lista de compras e na chuva que não vem. Cutuco outro fantasma ao olhar pro chão: naquela fresta mínima entre duas pedras da rua abriu-se um clarão pra outra honesta vida de plenitudes cotidianas e comezinhas. No bar da esquina, presumi ter sentado ali um homem que pediu um café no meio da manhã antes de voltar pra casa e escrever uma carta em silêncio. No moinho de vento calculei os corpos a rodo que cabiam naquela rua tentaculosa de fantasmas deixados quietos. Mas não resisti e cutuquei uma legião deles com o viço da língua-mãe comum denunciada na placa que anunciou a colheita da uva.

Nas ruas de Paris há uma ancestral vitalidade de histórias que se sobrepõem à minha, e ao parar ladeira acima e com o lenço de papel assoar meu nariz pari um fantasma natimorto. Era um insistindo em enquadramentos na vertigem alucinada de informações disponíveis sobre estar ali. Mas queria apenas estar ester em paris. Mesmo que no alto de Montmartre haja zilhões de olhares e outros zilhões de corações consagrados à paisagem, sabia que teria sido suficiente apurar a escuta pra que, sob os refrões globalizados cantados pela multidão na escadaria gelada, fosse ouvido o silêncio visceral de um ponto de partida. Que é sempre outro, dada a profusão incomensurável de fantasmas que podemos evocar numa cidade assim.  

Minha “Quase à meia-noite em Paris” foi o marco zero pra uma outra vida que construo agora, simplesmente por que antes de estar sob o Arco do Triunfo pra virada do ano, eu estive num vagão de trem onde o fato de eu existir deixou de ser a coisa mais importante pra mim.

A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de fantasmas que escolho a dedo. A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de outros corpos e seus fantasmas outros, numa bruxuleante alegoria de impressões de lugares onde estive e estou ester, seja em Paris ou na cozinha com o corpo em fogo brando.

(Os gatos contariam outra história. O corpo deles é de outra matéria.)

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2 respostas para “Quase à meia-noite em Paris

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