Arquivo do mês: junho 2011

Quase à meia-noite em Paris

O editor do Balaio de Notícias e ex-aluno Paulo Lima sugere que eu escreva um texto sobre minhas impressões da capital francesa, no contexto da nossa rápida conversa sobre “Meia-noite em Paris”, o último filme do bruxo WA. Ainda não vi o filme. Mas, sim, estive na cidade-luz.

Bom, então tá, lá vai, confesso: não vi o Louvre por dentro. Do Pompidou, estive apenas na despirocante livraria e vislumbrei a arquitetura do prédio, assim, por fora, à noite. De Versailles, só a grande fachada iluminada antes de entrar para o espetáculo de balé no teatro do palácio onde Antoinette orquestrava o ócio da corte.  Notre Dame e Torre Eifel também ficarão pra próxima viagem.

Mas a caminho do réveillon na Champs Élysées, entrei na estação de metrô de La Chapelle às 22h50min. E essa foi a grande experiência da viagem a Paris. Conto por quê.

Havia umas vinte pessoas por metro quadrado nos abarrotados vagões embalados pra festa no conveniente entusiasmo geral das últimas horas do ano. A cada estação, as portas abriam apenas por que é a sina delas, definida pelo sistema: “em cada estação do metrô, as portas devem abrir e fechar após 30 segundos”. Abriam só pra lufada de ar gelado varrer o mormaço úmido dos perdigotos de muitas línguas,  e então o ar de janeiro redobrava os ânimos das gentes do vagão e mantinha acordadas as gentes que em cada estação não conseguiam embarcar e que provavelmente passariam a virada no ano ali naquela estação subterrânea do metrô parisiense.

Encantoada no ângulo das paredes entre um vagão e outro, nunca até então estivera tão coladamente perto de alguém num espaço público: um legítimo corpo a corpo, o meu encaixado nos microinterstícios entre Kika, Mohand, Julio, Thiana e os outros 15 de nós por metro quadrado, todos mantidos ilesos pelas camadas de roupa reduzindo o atrito entre os corpos todos mantidos eretos pelo apinhamento de diferentes narizes e olhos e peles, uma arca de Noé multiétnica deslizando sobre trilhos em direção ao ano novo. Entremeados pelo riso cheio de dentes e pelo hálito rescendendo ainda ao nosso honorável omelete, os olhares de Kika e Mohand me garantiam que isso era divertido. Bastava relaxar, até por que nada mais havia a ser feito.

E assim, no trajeto entre as talvez quatro estações de La Chapelle até o Arco do Triunfo, em sussurros dissimulando alguma espécie de medo, me juntei à cantoria babelística embalada pro futuro que começaria em menos de uma hora. Nesse trajeto de não mais de 40 minutos num espaço físico microcompartilhado com outras gentes cujas vidas eu ignorava completamente me dei conta de que minha colossal presença no mundo deve-se apenasmente ao fato de eu ter um corpo.

Uma cidade só interessa pelos fantasmas que ela evoca ao estarmos nela com este corpo que dá concretude a uma existência. Um corpo só está numa cidade se os fantasmas cativos dessa existência lhe forem alforriados. Havia posto os meus pra correr mundo afora ainda durante o percurso Bruxelas-Paris nos campos de neve, pois sabia que Paris é pródiga em fantasmagorias.

E assim, na minha primeira vez na cidade, pude cutucar fantasmas novos pra mim. Fiquei à escuta deles enquanto subia as ladeiras do bairro boêmio. Fiquei à escuta deles naquele molho voluptuoso de alho poró, que submetido a um rewind, volta de mão em mão até ser devolvido inaugurando a terra em semente. E ali, aquele homem plantando a semente pensa na lista de compras e na chuva que não vem. Cutuco outro fantasma ao olhar pro chão: naquela fresta mínima entre duas pedras da rua abriu-se um clarão pra outra honesta vida de plenitudes cotidianas e comezinhas. No bar da esquina, presumi ter sentado ali um homem que pediu um café no meio da manhã antes de voltar pra casa e escrever uma carta em silêncio. No moinho de vento calculei os corpos a rodo que cabiam naquela rua tentaculosa de fantasmas deixados quietos. Mas não resisti e cutuquei uma legião deles com o viço da língua-mãe comum denunciada na placa que anunciou a colheita da uva.

Nas ruas de Paris há uma ancestral vitalidade de histórias que se sobrepõem à minha, e ao parar ladeira acima e com o lenço de papel assoar meu nariz pari um fantasma natimorto. Era um insistindo em enquadramentos na vertigem alucinada de informações disponíveis sobre estar ali. Mas queria apenas estar ester em paris. Mesmo que no alto de Montmartre haja zilhões de olhares e outros zilhões de corações consagrados à paisagem, sabia que teria sido suficiente apurar a escuta pra que, sob os refrões globalizados cantados pela multidão na escadaria gelada, fosse ouvido o silêncio visceral de um ponto de partida. Que é sempre outro, dada a profusão incomensurável de fantasmas que podemos evocar numa cidade assim.  

Minha “Quase à meia-noite em Paris” foi o marco zero pra uma outra vida que construo agora, simplesmente por que antes de estar sob o Arco do Triunfo pra virada do ano, eu estive num vagão de trem onde o fato de eu existir deixou de ser a coisa mais importante pra mim.

A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de fantasmas que escolho a dedo. A vida que faço com o corpo que tenho é uma bela confraria de outros corpos e seus fantasmas outros, numa bruxuleante alegoria de impressões de lugares onde estive e estou ester, seja em Paris ou na cozinha com o corpo em fogo brando.

(Os gatos contariam outra história. O corpo deles é de outra matéria.)

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Sinal vermelho

Deslizando trôpego sobre as maçãs murchas da cara, o movimento iniciado na ponta da orelha vai recolhendo os parcos pêlos na direção da boca apenas pressentida.

Não havia espelho.

Não havia pia.

Não havia banheiro.

Não havia casa.

Era só um homem sob o sol da manhã, num restolho de civilidade urbana e burguesa, alheio a mim que lhe perscrutava o gesto.

Era só um homem ainda vinculado a si sob o ralo restolho da sua porção humana andarilhando em ruas desprovidas de caminhos.

Era só um gesto sobrevivido antes de provavelmente sucumbir à barba acumulada de muitas luas sob o sol a pino.  

Era só um rasgo no largo tempo desta manhã de sol, dois minutos talvez, até que o sinal abre e ele lava o que lhe servia de lâmina no pote de plástico ao lado.

Era só. Sequer um animal de companhia.

E sentado assim, na calçada da esquina, ele fazia a barba.


Meu primeiro beijo (ou por que vivo bem em espaços pequenos)

Sim, claro que eu sei que não tem a menor relevância isso. Mas é que é inusitado o suficiente, acho, e agora, entusiasmada pela crônica do conterrâneo Flávio Ferrarini, vou contar como foi.

Mas começo dizendo com quem. Foi com o Chico Oliboni. Eu tava de olho nele já há um tempão nas tardes no bar do Pasetto, em meio aos bolos de chocolate inimitáveis da dona Helena.

As gurias ficavam nas mesinhas, os guris no balcão do bar;  cada grupo nas suas respectivas vitrines, separados pela de vidro dos salgados quentes, os olhares em paqueras se esgueirando entre empadinhas, croquetes e pastéis.

Só quem é da Flores dessa época sabe que entre a casa do Chico e o bar do Pasetto era só dobrar a esquina e atravessar a rua, não mais de 100 metros. Mas naquela tarde de sábado, ele passou pela frente do bar umas oito vezes antes de parar o carro, o amarelão do ônibus das cinco como pano de fundo do outro lado da rua.  Se exibir desse jeito era aceitável: servia pra justificar a façanha de aparecer pilotando o IK 1437 – lembro da placa até hoje! – cujo dono de fato era a temida dona Clélia, minha futura sogra.

E assim, entre uma empadinha e um chocolate quente e depois de todo um volteio (ou um arrodeio, como dizem aqui em Sergipe) fui convidada pra dar uma volta. Era inverno e fazia um frio de rachar; tão frio que ele estava com um pala desses, com gola de pele. Fomos ao famoso morro da parte mais alta da cidade. Bastou  ele desligar o carro e foi logo dizendo “que calorão, né?”. Depois de uns dois minutos de manejo treinado na arte de tirar um pala dentro de um fusca, desenrolado daquele cobertor portátil aparece um homem cheiroso com uma camisa de lã xadrez de fundo verde. E assim, como se esticasse um lençol pelas pontas, Chico abriu o pala dividindo o fusca marrom em dois ambientes: o pala, também chamado de poncho, foi aberto como uma cortina. Chico pegou uma ponta da cortina-pala e a prendeu na porta, aberta rápido pra o frio não entrar. Eu fiz o mesmo com a outra ponta, na porta do passageiro.

E assim, no fusquinha marrom que só saía da garagem sob a raríssima licença expressa da dona Clélia, ficamos eu e Chico nos bancos da frente; e como naquela época (ainda) não saía sozinha, atrás de nós ficaram Silvinha e Pixoto, embarcados juntos na aventura que num acordo tácito os tornava cúmplices e testemunhas não oculares do que estava por vir.

E assim, num fim de tarde de um dia muito frio de um sábado em que à noite haveria São João no ginásio, enfim dei meu primeiro beijo de língua (e como disse o Flávio, “lá se vão” 35 anos). Achei sensacional aquela coisa das quenturas molhadas misturadas pelas línguas se atracando feito ventosas. Sensacional também era confirmar com a minha boca o desenho decorado da boca dele, os macios dele moldados entre meus lábios entreabertos em movimentos só então inaugurados. Os estalos escorregadios das línguas e dos lábios eram prenúncios de que ficaria ainda melhor, embora cada vez mais barulhento à medida que aos estalos se misturavam os gemidos abafados pela respiração profunda, os pulmões se enchendo de ar pra mais um mergulho que eu sabia não ser fantasia porque ali estávamos nós. Ainda assim, ainda que eu soubesse que não era um delírio,  volta e meia entreabria os olhos pra ter certeza de que sim, eu estava beijando pela primeira vez e sim, era o tão desejado Chico. Qualquer outra referência concreta de um mundo real estava fragilizada pela densa neblina do embaciado dos vidros do fusca.

E assim, entre um suspiro e outro engolindo a saliva misturada à dele, de novo nos lançávamos àquele delicioso e fervilhante descaramento que a essas alturas já explorava pescoço, testa, orelhas e mãos, a boca amalgamando os gestos e as línguas em deleite nos territórios recém-conquistados.

E assim, num fusca partido ao meio beijei um homem por quem me mantenho apaixonada pra sempre. Precursoria de duas coisas importantíssimas na minha vida: 1) amar é definitivo; 2) dá perfeitamente pra pensar numa vida feliz em 35m².


Dos 50° aos 37°C, em silêncio

Foi um prendedor de roupas que caiu no piso da sacada. Uma das gatas deve ter empurrado um dos que deixei sobre a mesa ao recolher a toalha branca lavada do vinho tinto de ontem. Foi um de plástico. E foi Malu Cat.  Como sei disso? Diferencio o fagote do oboé entre os metais harmonizados às cordas do baixo e da viola de gamba em uma sinfonia. Tenho obrigação de saber que um de plástico foi empurrado com a pata até cair no piso segundos antes de a felina menor aterrissar em solo e encurralar o circunstancial brinquedinho no canto da sacada.  Me especializei com os gatos, claro, aquelas orelhas de flaps em semiarcos capturando sons que eu nem de longe imagino existirem, nem que eu esteja no mais absoluto silêncio dos fogachos na escuridão. Ainda assim, com este ouvido meramente humano, reconheço também o algodão nobre deste lençol onde me deito: microestalos em ondas até moldar meu corpanzil gelatinoso à inescapável depressão do colchão, agora de novo um oásis seco onde repouso das umidades do corpo suando em bicas a cada nova onda de calor.  A toalha úmida é um refresco deixando uma faixa de pêlos eriçados pelo caminho. Do pescoço às mãos, longitudes sob um sol a pino se alongam pra alcançar minhas costas em arco, bem como  faz Cloé Buscapé, na hora dos carinhos com a mão cheia sobre o pêlo. A toalha felpuda de algodão em relevos floridos é encharcada com os últimos emeéles da garrafinha, e quase dá pra ouvir as fibras de algodão se expandido no inchaço da água ainda fresca antes de evaporar sobre minha pele que ferve. A ‘por que não um banho’ respondo com a sonolência. Não quero acordar meu corpo. Preciso só descansá-lo deste calor. E entre uma onda e outra de fogacho me restrinjo a ficar ciscando nos sons da escuridão: a folha da bananeira raspa os relevos do muro, um caju cai na grama, uma porta bate na casa vizinha, toca um celular, a coruja pousa no telhado, minhas pálpebras se debatem, os cílios se encaixando como as lâminas de uma tesoura. Suspiro. Pronto. Passou. Estou fresca de novo.


Alegrias em retrospectiva

Dia desses me liga minha fisioterapeuta, dizendo que lembrou de mim por conta de um outdoor anunciando o balé de Moscou, “você, que gosta dessas coisas”. Papo vem, papo vai, perguntou como estava minha cervical e eu que dura, travada, gazeando academia e há meses sem ver doutor Pilattes, e ela que eu sabia que eu não podia, etc., que eu voltasse a fazer exercícios e aí eu perguntei “então, e a vida de casada”? Ela lamentou um “muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuulher”, encompridando a primeira sílaba da Atalaia até o Mosqueiro, ”que coisa cansativa essa de fazer mercadinho lavar passar cozinhar limpar, isso tudo depois de dez horas de trabalho, minha e dele, ainda bem que ele nem se importa se tudo tá uma bagunça, mas aí eu só me lembro como era boa minha vida de solteira, chegar em casa, comida pronta, até o sabonete escolhiam pra mim, nunca soube o que era passar roupa e fazer mercadinho por obrigação”.

Eu ria solidária com essa dureza, enquanto me lembrava o quanto trabalho deu aprender a cuidar de mim, da casa, da geladeira, do guarda-roupa. E vaticinei, como se alguém desse ouvidos pro que digo: antes de casar, a criatura teria que experimentar morar só.

A trabalheira é realmente bárbara, e a vantagem mais legal é que se a gente decide não lavar a louça, não vai ter ninguém pra esbravejar. Bom, mas também não vai ter ninguém pra fazê-lo em seu lugar. A louça fica lá, e vai criar limo ou craquelar sobre a pia sem dar a mínima pros seus conflitos de enquadramento: lavar ou não, eis a questão. Que passa, aliás, por irrelevante quando não há copo, xícara, pote, caneca no qual se possa beber água. Coisa que acontece bem rapidamente no ármario de duas portas onde cabem louças, talheres, panelas e o bujão de gás. E aí, simples assim, lavar um copo só ou aproveitar o embalo e deixar tudo limpo vai depender do quanto sua mãe lhe encheu o saco com isso antes de sair de casa pra morar sozinho, trabalhar e pagar as suas próprias contas.

Embora seja uma façanha relativamente fácil pra protagonizar, demora pra caramba dormir sem culpa só por que a louça do jantar não foi lavada: imagine você que eu quis ferro de passar pra usar nos panos de prato! Não tinha geladeira, caríssima; mas tinha, pasme, um ferro elétrico pra passar a toalhinha, alvejada com sabão azul e K-boa em água fervente.

Vinte e cinco anos depois, lido com isso bastante bem. Faz tempo que compro apenas roupas que não precisam de ferro elétrico, lençóis e fronhas são de malha, cujas eventuais dobrinhas se desfazem e se refazem diferentes assim que são usados. A louça, tenho-a agora em quantidade suficiente pra ficar até uma semana sem lavar nada, se essa for minha vontade.

E nunca mais passei pano de prato.

E nunca mais me lembrei de que alguém podia fazer supermercado em meu lugar, nunca mais me lembrei de que o que tem e não tem na geladeira foi escolha minha, nunca mais me lembrei de que o vidro sujo da porta da varanda é que tá deixando a vista lá fora cinzenta. E nunca mais esqueci que se acabou o café, azar o meu.

De qualquer forma, assim o é por que não preciso dividir com ninguém quaisquer que sejam as decisões sobre o funcionamento da minha casa.

E da minha vida.

Acho que estou curada.

Vou passear por aí.