Arquivo do mês: abril 2011

Chaves à unha

Se tem um pavor que me define é a perspectiva de eu ficar sem a chave de casa. Longa batalha, desejo adolescente conquistado só aos 23 anos, ter uma casa só pra mim e ficar impedida de entrar seria quase um exílio forçado nas terras geladas da Sibéria.

O privilégio de morar só traz responsabilidades adicionais, e muitas.  A principal delas é que a gente sabe que ninguém mais tem a chave, que não adianta gritar “mãe, abre a porta pra mim!?!”, e que se a chave for perdida, babaus, ganha-se uma bela dor de cabeça.

E se roubarem a bolsa e tudo que estiver dentro dela? Dá o maior trabalhão encaminhar documentos de novo depois do beó; é o maior pepino cancelar cartão; lamentaria profundamente minhas coleções de batons e de canetas pros desenhos na minha moleskine.

Mas a chave ir-se embora junto com a bolsa seria um verdadeiro desastre. Pense a tranqueira de ter uma casa e não poder entrar? Chamar chaveiro, mudar trancas e chaves, ficar desconfiada por um bom tempo: vai que na bolsa tinha um boleto qualquer de pagamento com o endereço?

E sempre foi assim, essa coisa com a chave de casa, mesmo quando (sim, acredite, isso é possível!) eu sequer usava bolsa: reservava um dos bolsos da roupa e ajeitava o metal de tal forma que eu nem lembrava que existia a chave acomodada ao corpo entre duas fatias de tecido. Na falta de bolso na roupa, lanço mão da estratégia de ajeitar a chave amarrada à alça do sutiã.

Esquecer que a chave está ali é pouco provável, dada a sensibilidade da área e também devido à quantidade progressivamente maior de chaves que se usa pras mesmas quantidades de acessos. Mas ainda assim não acho ruim, não; é sempre bom ter um amuleto de metal dentado e concreto marcando o couro assegurando que tenho pra onde ir e onde estar, com segurança: tanto a chave quanto eu, e também por causa dela.

Ontem fiquei marcando as chaves da minha nova morada: esmalte rosa pra porta da rua; vermelho pra porta da casa, sem cor pra porta da varanda. Se eu tivesse aderido aos modernosos coloridos das unhas, poderia ter escolhido azul pra porta da rua, pois ao subir a escada é quase a porta pra um céu; laranja pra porta da casa, meus crepúsculos prediletos; verde pra porta da varanda que dá pro jardim.

Mas sendo uma criatura das antigas, sou quase ortodoxa: quando minha manicure vier me atender na casa nova, semana que vem, vou escolher outra vez, como pelo menos há mais de três décadas, entre a base cor de nada ou o vermelho-rosa, pois é muito mais fácil pra mim mudar de casa e de rumos do que usar azul, verde e amarelo nas unhas.

Quanto às chaves, sigo em mundanças.

Pelo menos até a chave não precisar ser nenhuma pra eu me sentir em casa.

 

 

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