Arquivo do mês: fevereiro 2011

Monolinguismo em terras estrangeiras

Para uma tímida crônica como eu, falar sempre foi um problema, desde bem antes de ter me curado aos poucos: em sala de aula, como profe, já com 35 anos, não sem muito sofrimento e com alguma terapia. Mas via de regra, em situações de contato social mediadas pela fala, mesmo uma tão banal como fazer compras, sou a atrapalhação em pessoa. Inverto a sintaxe, gaguejo, produzo lacunas constrangedoras de silêncio enquanto, já em total desespero, tento desentalar a palavra necessária. A pessoa fica ali, me olhando, esperando e só é paciente com minha atrapalhação porque, penso eu, represento um potencial aumento na sua comissão.

Agora imagine viajar pro exterior e conviver quase 30 dias na mesma casa onde há uma nativa brasileira poliglota (inglês, francês, alemão e aquela mistura belga francês/holandês) o e seu namorido argelino falante de inglês/francês/árabe. Minha preocupação cotidiana era não ficar sozinha com ele: absoluto pavor de ter que falar em inglês. Sei um bocadinho de coisa, mas a timidez é tão avassaladora que até que eu crie coragem de errar em inglês ao abrir a boca, o contexto já passou e não faz mais sentido aquilo que eu teria falado se.

Ah, mas aí tem o espanhol e o italiano, que entendo bem, leio bem, falo bem se estou sozinha, imaginando diálogos incríveis onde cabem direitinho os enunciados que sei produzir. Mas na hora, ali, no contato social que se expandiu na rede europeia durante a viagem, alguém gentil e solidário, querendo educadamente me inserir na conversa, dizia “she speak spanish” e aí o pavor absoluto fazia cair uma densa cortina de fumaça através da qual apenas entrevia a sequência de palavras que eu poderia dizer, e uma vez decidida a estrutura sintática, preenchia com palavras buscadas sob espasmos entremeados de sudorese, palpitação e contração dos dedos dos pés, a timidez escondida dentro das botas. Nessas horas, quando consigo enfim abrir a boca e articular uma frase inteira, há 90% de chance de eu ter misturado espanhol com italiano.

Gentis, tentavam falar em português também, quando a maioria era de brasileiros morando por lá. Mas aí eu também não falava. Porque embora conheça a língua também como profissão e ofício, a timidez me emburrece e a cada vez que eu abria minha boca, a conversa mudava de rumo ou despencava aquela incredulidade na cara das criaturas tentando socorrer-se entre si pra tentarem entender o que eu havia feito com o que dissera. E aí, claro, chegou uma hora que eles desistiram.

Assim, permaneci um bom tempo na bolha de onde fico admirando a habilidade que as pessoas têm pra falar umas com as outras, como negociam bem a troca de turnos, como são doces (ainda mais entre os baianos Kika, Julio, Ricardo, Dani e Thiana), como mudam de código linguístico entre a conversa com alguém do grupo português/inglês e o pedido de pão na padaria belga, ou no restaurante alemão, ou no metrô parisiense.

Essa viagem foi crucial pra eu entender isso: sou uma criatura silenciosa. Mas entender só é muito pouco porque, claro, já sabia disso. A viagem foi importante porque criou contextos bem diferentes, onde poderia ter sido outra minha performance. Não foi o caso. E se não fosse o fato de eu ser professora, acho que mal conheceria o tom da minha voz.

Na verdade, não sou apenas silenciosa: sou bilíngue timidez/português. Na escrita, mais fluente em português, menos fluente em timidez. Por isso, quando eu aprender inglês, vou escrever um texto pra Mohand, em inglês/português, pra dizer pra ele as coisas que eu teria dito se eu falasse inglês. Aos novos e doces baianos no velho mundo, fico grata pelas tentativas de me inserir. Pra Kika, meu amor tá sempre fresquinho. Pra Mohand, também.

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Discurso de paraninfa Jornalismo Unit 2010/2 (ou “Paraninfando: um elogio a este gerúndio”)

PROFESSORA VALÉRIA BONINI, COORDENADORA DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE TIRADENTES; PROFESSORAS POLYANA BITTENCOURT E DEISE DIAS, COLEGAS HOMENAGEADAS DESTA TURMA DE FORMANDOS; DANILO  MENEZES, FUNCIONÁRIO HOMENAGEADO,  DEMAIS COLEGAS DA DOCÊNCIA DO JORNALISMO; UMA MENÇÃO ESPECIAL A FELIPE PENA, QUE NOMEIA ESTA TURMA. CAROS ALUNOS E EX-ALUNOS AQUI PRESENTES. PREZADOS PAIS E DEMAIS FAMILIARES, AMIGOS, NAMORADOS E NAMORADAS, PARCEIROS DE VIDA DE CADA UM DE VOCÊS. 

MEUS QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS.

VOCÊS ME ESCOLHERAM COMO PARANINFA, E O FIZERAM POR QUESTÕES DE NATUREZA PESSOAL, QUE PERPASSA TODAS NOSSAS ESCOLHAS. E PUDERAM ME ESCOLHER PORQUE FUI PROFESSORA DE VOCÊS.

E ESTA É A CONDIÇÃO QUE FAZ CONVERGIR PRA ESSE MOMENTO,  AQUI, AGORA, A SOMA DE ESCOLHAS DIFERENTES, DE VIDAS DIFERENTES, DE HISTÓRIAS DIFERENTES.

TAIS PARTICULARIDADES E DIFERENÇAS, ENTRETANTO, CONVERGEM PARA DOIS ASPECTOS CENTRAIS PARA ESSE ENCONTRO QUE ESTAMOS JUNTOS PROTAGONIZANDO NESTA NOITE: PRIMEIRO, O FATO DE VOCÊS TEREM ESCOLHIDO O JORNALISMO COMO PROFISSÃO E O JORNALISMO TAMBÉM COMO FORMAÇÃO; SEGUNDO, O FATO DE EU TER SIDO PROFE DE VOCÊS E DE QUASE TODOS VOCÊS TEREM SIDO MEUS ALUNOS, EM METADE DO PERCURSO ACADÊMICO.

E ENTÃO, NESSA REDE DE CONVERGÊNCIAS E DURANTE ESSE TEMPO TODO, ACONTECEU UM DOS EVENTOS HUMANOS DOS MAIS IMPORTANTES: ACONTECEU UM ENCONTRO.

PEDAGÓGICO,  ESSE ENCONTRO, PORQUE NOSSAS AULAS SEMANAIS DURANTE  DOIS DOS QUATRO ANOS DE UNIVERSIDADE ESTIVERAM DIRECIONADAS À CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES INERENTES AO FAZER JORNALÍSTICO E AO SER JORNALISTA.

É PARA ESSE ENCONTRO PEDAGÓGICO QUE DEDICO MINHA VIDA, DESDE QUE ESCOLHI SER PROFESSORA. E É PARA ESSE ENCONTRO PEDAGÓGICO QUE DEDICO MINHA VIDA DESDE QUE ACOLHI PRO MEU JEITO DE SER PROFESSORA A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA DE PROMOVER ENCONTROS PARA A APRENDIZAGEM.

AQUI, DESSE  LUGAR DE PARANINFA COM O QUAL VOCÊS ME HONRAM, OLHO MINHA VIDA PERPASSADA PELO FATO DE VOCÊS SEREM MEUS ALUNOS, E ENTÃO ENTENDO QUE ME ESCOLHERAM PORQUE DE ALGUMA FORMA FUI IMPORTANTE PRO APRENDIZADO DE VOCÊS.

MAS SE ISSO É VERDADE, É TAMBÉM VERDADE O SEGUINTE:  NÃO FORAM SÓ VOCÊS QUE APRENDERAM.

EU, AQUI NO LUGAR DAS MINHAS SUBJETIVIDADES, TAMBÉM APRENDI.  COM VOCÊS.

NESSE ENCONTRO QUE NOS UNE, NESSE ENCONTRO PERPASSADO POR UMA TRAJETÓRIA PARCIALMENTE COMUM A NÓS TODOS,  NESSE ENCONTRO PROMOVIDO PELA CONTINGÊNCIA DE INTERESSES COMPARTILHADOS, FORMAMOS UM GRUPO DE APRENDIZES: VOCÊS, COMIGO; E EU, COM CADA UM DE VOCÊS.

E A VOCÊS DEVO 19 DIFERENTES APRENDIZADOS.

QUERO CITAR UM A UM.

HESITO ENTRE A ORDEM DA CHAMADA E A  ORDEM DE CHEGADA; ENTRE OS QUE FIZERAM PARTE DE UMA TURMA OU DE OUTRA; ENTRE OS QUE CHEGARAM JUNTOS E OS QUE SE JUNTARAM AO GRUPO MAIS TARDE; POR EXEMPLO, COM A NEUZILÂNIA, APRENDI A DISPONIBILIDADE PRA MUDANÇA; COM A DANIELA, O INVESTIMENTO NA PERSEVERANÇA; COM RODRIGO E EDSON, APRENDI O BOM FIM PRA QUAISQUER QUE SEJAM OS COMEÇOS; COM A MORGANA, APRENDI QUE O  SILÊNCIO É CHEIO DE PERGUNTAS; COM A JANAÍNA,  APRENDI A ESCUTA ATENCIOSA;COM A VIVIANE, E JÁ ESTAMOS COM SETE APRENDIZADOS DIFERENTES, APRENDI A DELICADEZA IMPETUOSA; COM A  DAIANA,   APRENDI O QUANTO A IRONIA É COMPATÍVEL COM  INTELIGÊNCIA.

COM O RAFAEL, E JÁ SÃO NOVE JEITOS DIFERENTES DE APRENDER, EU APRENDI QUE  OLHOS BEM ABERTOS VEEM O MUNDO COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ; COM A MISA, APRENDI A DOÇURA; COM  NAILTON E  YURI, A PARCERIA ABERTA.

O DÉCIMO TERCEIRO APRENDIZADO VEM DO DELANO:  APRENDI A PERSPECTIVA DE UMA VIDA PAUTADA PELA ESCOLHA  PROFISSIONAL E PELOS AFETOS CONSTRUÍDOS E PRESERVADOS EM NOME DO JORNALISMO E APESAR DO JORNALISMO. 

COM O DIOGO, APRENDI O OLHAR DA CURIOSIDADE; COM A ALCIONE, APRENDI A ENERGIA QUE SE RENOVA TODO DIA, ESTEJAMOS NA ATALAIA OU MESMO NA TURQUIA; COM A AMANDA, E JÁ ESTAMOS NA DÉCIMA SEXTA APRENDIZAGEM, APRENDI O ACOLHIMENTO PRA AMIZADE E PRA TRABALHEIRA QUE DÁ ESTUDAR.

COM A POLIANA, APRENDI OUTRA COISA MUITO IMPORTANTE: A MEDIDA NECESSÁRIA DA DELICADEZA, MESMO NA HORA DA INDIGNAÇÃO. COM A MARIA ROSA, APRENDI A NÃO ESQUECER QUE É PRECISO OLHAR PRA TRÁS E PRA PERTO PRA NOS AJUDAR A ENTENDER QUEM SOMOS.

E EMBORA ESSES DEZOITO APRENDIZADOS SEJAM ABSOLUTAMENTE IMPORTANTES PRA MIM, FALTOU FALAR DO APRENDIZADO NÚMERO DEZENOVE.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O CONGREGADOR DE TUDO.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O APRENDIZADO QUE EM TUDO DÁ UM JEITO.

DEIXO PRO FIM, PORQUE É O APRENDIZADO INDISPENSÁVEL PARA UMA VIDA PLENA.

DEIXO PRO FIM A ALEGRIA DESTEMPERADA DA JÉSSICA,

NOS LEMBRANDO A TODA HORA E POR DIFERENTES MOTIVOS QUE SEM ALEGRIA HÁ REALMENTE BEM POUCAS COISAS QUE VALEM A PENA.

É COM MINHA MELHOR ALEGRIA QUE LHES AGRADEÇO POR ESTA NOITE.

É COM MINHA MELHOR ALEGRIA QUE  LHES AGRADEÇO PELO ENCONTRO E PELOS APRENDIZADOS.

E É ASSIM, COM O ESPÍRITO JÉSSICO DE SER,

QUE REGISTRO MEU DESEJO.

QUERIDOS E QUERIDAS JORNALISTAS: QUE A ESCOLHA PELO JORNALISMO E OS APRENDIZADOS DO PERCURSO UNIVERSITÁRIO FAÇAM PARTE DO INVENTÁRIO PESSOAL DE ALEGRIAS DE CADA UM DE VOCÊS.

MUITO OBRIGADA!


Carta aberta para Beni (ou uma elegia aos meus gerúndios)

Chorei enquanto outra vez me despedia de ti ao ler e reler teu e-mail. Paralisada durante uma metade de hora, deixei as lágrimas pingarem, grossas, atingindo as bichanas que no meu colo olharam pra mim reclamando do aguaceiro.

E ali fui ficando até entender que chorava não por que me despedia de ti, mas por que me encontrava comigo; uma despedida que na verdade é um encontro. E daqui te digo por quê.

Fiquei invejando tua linda coragem de dizer não a uma vida exitosa plena de seguranças e confortos dispensáveis e prestígios fugazes e presenças responsáveis pela exaltação e preservação do modelito padrão, esse fertilizante compulsório lançado ao campo de refugiados da nossa ordinária sobrevivência comezinha e cotidiana.

Fiquei procurando em mim o ímpeto dessa coragem, atrofiado há décadas desde que escolhi o caminho mais fácil pra ficar longe de mim. Escolha que fiz não sem ter consciência plena de que essa escolha me punha num lugar onde até agora preservei o tipo de vida que consigo ter. Mas eu sempre soube, sempre saberei, que essa escolha fechou a porta pra outras criaturas que me compõem.

E vou ficando assim, à margem de mim: esse lugar de onde eu me vejo passar é a terceira margem do silêncio onde escolhi estar há muitos anos. E no silêncio me expando só por dentro, num espiral auto-referente que, por paradoxal que possa parecer, me deixa ainda mais apartada de mim, num processo interminável de reconhecimento, mero simulacro muito mal-engendrado de já-sabidos.

Claro, venho tendo também alegrias: as bichanas, a casa onde vivo e as outras, nas minhas oito geladeiras, os alunos, o mar, os amigos, a família acolhedora, ainda que na incompreensão. Alegria que é também no gerúndio, acontecendo ainda, num fluxo de tempo do qual posso dar conta a cada dia, um atrás do outro.

Mas do que não consigo dar conta mesmo é do tamanho da minha alma, tão bonita na potência irrealizável das borboletices abortadas. Não dou conta do afã do vôo que imagino poder fazer porque desabro as asas ao me lembrar que pra voar tem que aceitar o rumo do vento. Não dou conta do afã do mar onde imagino ser capaz de mergulhar porque lanço a âncora pra não me submeter às correntes.

Estou querendo mudar isso. Ainda dará tempo?

Tua vida é inspiradora.

Agradeço por existires.

Que os encontros sejam plenos, ainda que não sejam.

Mande notícias dos caminhos por onde andas em direção a ti.