O homem que foi

Como se tivesse congelado o rosto num sorriso, as camadas craqueladas da pele em ondas, a boca aberta sem dentes como a água parada onde se joga uma pedra elevando a maré até então imóvel como um gato que dorme. Em cada camada da pele crestada, mil horas sob o sol arando a terra seca, uma vida inteira em gestos de sementes insistidas surpreendendo o chão sem esperança.

Ainda assim, naquele sorriso congelado no rosto havia uns olhos cheios de vida, alguma espécie de alegria acumulada em gotas durante quase um século.

Ali, na tensão de uma vida ressuscitada todo dia, cravou um lábio contra o outro arredondando a boca escolhendo o que dizer.

Os lábios entreabrem-se. Ouve-se o leve rufar de um suspiro no ar.

E mais nada.

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4 respostas para “O homem que foi

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