Arquivo do mês: novembro 2010

Quases

 

Uma quase vida inteira em desespero na agonia do preenchimento do vácuo em movimento pra lugar nenhum. O que comprar o que vestir que carro ter onde morar quantos filhos parir, investir no comezinho diário sem nunca desistir. Sem nunca vacilar. Por que o estampado do vestido é a escolha mais importante dos dias, ela adere à moda como a uma resposta a um chamado de emergência, 199, como posso lhe ajudar.

Quase uma vida inteira pra decidir entre o de estampa floral preto no branco e o vestido tom sobre tom em intermináveis azuis. Emoldura o corpo na roupa e decide em menos tempo mas com igual solenidade o calçado e os acessórios. Uma vida assim cabe na bolsa inteira, quase marsupial às avessas.

Mas quase inteira uma vida desmontada antes de o corpo em nude desmascarar a farsa, denunciar o engodo, explicitar o engasgo. O nu do corpo em convulsões e espasmos se transmuta na alma transparente e vaga, então quase uma nesga do corpo todo numa inteira quase vida.

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O homem que foi

Como se tivesse congelado o rosto num sorriso, as camadas craqueladas da pele em ondas, a boca aberta sem dentes como a água parada onde se joga uma pedra elevando a maré até então imóvel como um gato que dorme. Em cada camada da pele crestada, mil horas sob o sol arando a terra seca, uma vida inteira em gestos de sementes insistidas surpreendendo o chão sem esperança.

Ainda assim, naquele sorriso congelado no rosto havia uns olhos cheios de vida, alguma espécie de alegria acumulada em gotas durante quase um século.

Ali, na tensão de uma vida ressuscitada todo dia, cravou um lábio contra o outro arredondando a boca escolhendo o que dizer.

Os lábios entreabrem-se. Ouve-se o leve rufar de um suspiro no ar.

E mais nada.


Bolhas

Invariavelmente substituída aos 10 minutos do primeiro set: se era pra me tirar do time assim tão rápido, por que ele me escalava? Devia ser por causa da minha altura, como a sinalizar que o time de vôlei prometia. Mas aí me dava sempre aquela paralisia: eu não conseguia me mexer.

O time adversário, já sacada a minha estupidez, mirava os primeiros saques em mim, e tudo que eu fazia era ficar parada, e isso, além de ser patético, ainda por cima impedia mesmo que alguma outra do time nos socorresse em meio à incredulidade geral que se instalava.

Não só eu não me mexia: eu era uma muralha intransponível inviabilizando que uma das outras em quadra fizesse meu trabalho. O limite eram três pontos. Se até aí eu não tivesse rompido a bolha, o técnico me substituía e eu saía arrastando o molusco pré-histórico, as longas pernas de um metro feito tentáculos pegajosos que se grudavam no chão da quadra, enquanto o juiz, com o apito ainda na boca, impacientava-se até que eu conseguisse transpor os dois metros que me separavam da linha da quadra em direção ao banco de reservas.

Morria ali sentada, cabeça baixa por entre as pernas esticadas ainda com as joelheiras, sob ondas de vergonha que corrompiam a bolha de película transparente que me apartava do mundo real, os sons ouvidos muito de longe, uma vaga lembrança de uma cantiga de ninar.

O que me tirava do transe era uma bola jogada na minha bolha com a ordem de voltar pra quadra. Então simplesmente tirava a cobertura de molusco gosmento e como se não tivessem feito outra coisa na vida, meus braços alados e minhas pernas de andaime formavam setas e arcos e elipses em moldes perfeitos para o corte preciso no alto da rede em diagonal na quadra adversária. Ali, naquele vetor formado pela bola em disparada contra o chão da quadra, era onde me vingava em silêncio antes de vibrar com as outras do time.

Eu era duas: antes da bolha, depois da bolha.

Minha primitiva e selvagem timidez me impunha rituais de passagem a cada jogo. Em cada partida, eu me colocava mais uma vez à prova antes de sucumbir ao sonho de jogar profissionalmente. Quem sabe, desta vez eu começaria a jogar no início da partida, assim, já nos primeiros lances, sem precisar ser substituída; ou quem sabe, pelo menos desentalaria o corpo do chão dando lugar à ajuda que me socorria. Mas nada. O que mudou, depois do primeiro campeonato regional interescolar, foi que o molusco se metamorfoseou numa enorme tartaruga.

Ainda que lenta, eu me dava melhor na água: as generosas nadadeiras das mãos grandes em arco escalando marés reinauguravam a bolha apartando a timidez que me assolava das camadas densas do mundo real, transparente ainda, mas já na película contornada do meu corpo que boiava como se voasse. Estar ali, no vácuo do meu corpo deixado na água, era uma espécie de salvação, eu acolhida no ventre da água, ainda que tivesse cloro e fosse azulada só por causa do efeito da azulejaria ao fundo. Água, redentora. Água, generosa. Aí eu consegui me salvar.

Por isso gosto tanto do mar. Além da água majestosa até onde meu olho alcança, há também as bolhas, há também a espuma, há também o repuxe da onda andante.  No mar visto de cima, da janelinha do 3C, as cores se matizam e se hibridizam deixando parcas as fronteiras entre o que é do mar e o que é da terra: transito por ali com alguma espécie de leveza depois que aprendi a voar.

No silêncio cultivado por anos dentro da bolha da timidez, ouço sempre um leve farfalhar de asas.


Alegrias sem tamanho

 

ter reencontrado

ter me despedido

sabe-se lá

o que mais

ainda

mesmo que

ainda mais

nada