Arquivo do mês: outubro 2010

Alegrias tamanho 40

Ser magrona ou gordita, baixa ou grandona,  não é lá um problema muito sério pra ter o que vestir e ficar elegante, charmosa, bonitinha, casual, perua  ou chiquetérrima: sempre se dá um jeito. As estampas nos favorecem, as listras verticais ou horizontais fazem toda a diferença, os drapeados disfarçam as gorduritas localizadas e dependendo da questão, cintura alta ou baixa no jeans, combinada com o modelo no slin nas pernas podem salvar um visu entre “a quarentona descompensada” e “a quase-senhora-que-nem-parece”. Pra tudo se dá um jeito, e eventualmente, é suficiente mudar o acessório pra dar o efeito de roupa nova.

Com cabelos também: se pode lançar mão da versatilidade das tintas e cortes a qualquer hora – mas pra isso, claro, precisa ser mais desapegada de estabilidades; de qualquer forma, mudar o cabelo é sempre um ato de renovação. Facinho, facinho, e em geral, muda-se pra melhor. Só uma tesoura muito desastrosa pra fazer estragos irreparáveis. Mas ainda assim, a gente pode se salvar da incompetência alheia com lenços e presilhas até que o cabelo cresça o suficiente pra não deixar rastros do desastre.

Com acessórios, então, é a festa do caqui: se a gente guardasse todas as lindas porcariazinhas adquiridas ao longo da nossa vida, teríamos um armário de bijus e acessórios que, olhados assim, objetivamente, nos forneceriam uma cartografia antropológica de nossas fases (e, bom, também de nossas fezes) no mundo e também as do mundo. Dos anos 70 a 2010, as cores e formas dos acessórios explicitando a que mundo pertencemos, com que mundos simpatizamos, a que mundos aderimos como se fosse um projeto de vida.

Mas essa elasticidade, essa maleabilidade, essa versatilidade de roupitas, cabelos e acessórios não se aplicam, infelizmente, pra meu arsenal de calçados; e digo arsenal, porque os que consigo encontrar pra mim são sempre resultado de uma operação de guerra: levantamento de dados, estratégias de ataque, logística dos procedimentos. Por exemplo, a ida à loja tem que coincidir com o fim da estação, que é quando sobram os nº 40, ou com o início da nova coleção. Independente do caso, quem calça  40 sabe: nem pensar  em desejar cor, modelo, salto isso, salto aquilo; em geral, se fica feliz se tiver um da numeração, e aí na hora de se produzir a gente simplesmente esquece que tem pés, não olha pra baixo e faz a produção de forma a direcionar a atenção pra todo resto do corpo, menos os pés.

E ainda assim, apesar de todos os esforços, tem sempre aquela criatura ignomiosa que, a despeito de tudo estar 100%, acha que a razão de tanto charme no andar só pode ser o salto da sandália e, puts, olha pros meus pés. Deles, pernas acima, o olhar vai desmontando aquela produção arrasadora.

Daí você pode entender o milagre que me aconteceu em Brasília, semana passada. Entro na oitava loja de calçados, e pela oitava vez, antes de escolher modelo, cor, salto isso, salto aquilo, faço a mais importante de todas as perguntas:

– Tem algum modelo pra calçar 40?

As respostas em geral são as seguintes: “Não”, assim taxativamente; “Não, mas tem um 39 de fôrma grande”, e às vezes mesmo antes de o funcionário terminar o meneio de cabeça entre o riso e o escárnio, eu já estou fora da loja.

Mas desta vez, a resposta a “tem algum modelo pra calçar 40” foi absolutamente estonteante:

– Quantos a senhora quer provar?

A terra tremeu quase a 5° na escala Richter a 150 km da capital federal, e enquanto eu me desmanchava em sorrisos, a funcionária  se desmanchava em me explicar que era a especialidade da casa, e entre outras explicações das outras funcionárias que ficaram me bajulando – bom, só tinha eu na loja – de repente aparecem três maravilhosas  pilhas de caixas de sapato pra eu experimentar. Pilha mesmo, tipo seis caixas umas sobre as outras, festejadas como se eu estivesse vendo um bando de estorninhos.

Foi quase uma epifania.

Saí da loja com cinco pares de lindos calçados, e nenhum deles é da linha confort nº 40 pra velhinhas com pés inchados e joanetes enormes, minha salvação quando eu não posso calçar havaianas.

Imagine a alegria.

Imagine a festa diária, agora que posso escolher entre roupas e calçados o que favorece o frescor nesses dias já de verão e o conforto de toda hora.

Isso, não tem preço. Mas pude pagar em quatro longas parcelas. A vantagem é que os calçados vão durar bem mais do que os quatro meses que demorarei pra pagar.

A alegria também.

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Viajar não é preciso

Ontem entendi que o que me faz feliz em viagens são duas coisas: café da manhã de hotel e as árvores que nunca vi antes.

Se na viagem não ficar em hotel, a visita obrigatória será às padarias, das mais sofisticadas às mais simples.  Pão é coisa de gente, visceral e nobre. E se estiver em “qualcuna osteria”, alguma variedade e alguma qualidade dos pães do café da manhã já me fazem feliz.

Se eu for em janeiro, a França, ainda que coberta de neve, será um destino bem na medida desse prazer; posso tranquilamente viver de pão, queijo e vinho durante cinco dias, e mais feliz ainda ficarei se de quebra intercalar um gole de vinho e outro com um chocolate. Podem ser os suíços, ou os belgas, que, lá,  imagino, tenham preços menos proibitivos do que aqui no Brasil. Com todo respeito, mas meu preferido nacional  vira uma pérola negra paraguaia.  Ficaria absolutamente genial um dia daqueles de céu azul e frio de cinco abaixo de zero. Aí, imagina a cena com uma manta colorida no chão de grama pro piquenique! Comendo pão sob a copa de uma árvore que nunca vi antes, mesmo que o ineditismo seja o fato de ela estar sem folhas, ou que só tenha sobrado uma que outra, mirradinha, por conta do friozão.

Coisa difícil de acontecer, esse dia assim pelas bandas lá de cima. Essas amenidades, acho que  só no inverno da serra gaúcha.

Árvores que não conheço se antecipam sempre ao lugar em que vou chegando. Fronteiras vão sendo diluídas nos tons de verde, do exuberante ao pálido das secas, dos escuros aos alaranjados outonais, e a copa das árvores é um tapete suspenso sobre o qual faço mágicas em revolteios porque assim, vistas do alto, as pessoas poderão ser diferentes.

Mas não muito: afora as maravilhas dos diferentes sotaques e as exceções raras, em geral vejo nas pessoas de um lugar diferente uma massa disforme que não chega a me provocar. Claro, uma exceção são os artistas: os de rua e os outros; a outra são aqueles encontros geniais, ainda que irrepetíveis.

Se viajar pra um lugar onde não tenha nem hotel, nem padaria, e se já estivermos no fim dos tempos e não sobrar nenhuma árvore, sequer uma graminha insólita no chão crestado de dor, terá um abraço querido me recebendo.

Isso me tira de casa, dos cheiros meus dividindo território com Cloé e Malu cats.

Com a praia ao alcance dos pés.

Isso não tem preço.

Mas é muito bom que eu possa pagar.

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