Arquivo do mês: setembro 2010

Matriz

“E aí, quando eu já não mais queria voar, eis que me transformei num ovo.”

“Jamais esquecerei o dia que amanheci ovo.”

“Epitáfio: aqui jaz blue a ave que não foi.”

Fiquei pelo menos umas boas duas horas intrigada com aquela coisa branca em formato oval que aparecia no lugar do pássaro azul esvocejante do twitter cada vez que entrava ali depois de ter desistido de microblogar a cada vez em quando.

Até cair a ficha: gente, voltei ao status-ovo!

Nada de pássaro azul migratório, tentacular feito um polvo de mil braças, hibernante eventualmente.

Ali, não tem negociação possível: ou a gente tuíta ou não tuíta, e ponto final.

Bastou ficar mais de 48 horas sem postar e me remetem a minha forma mais ancestral, mais visceral, menos humana e mais bicho.

Essa é outra coisa bárbara na web: a explicitação tácita de processos. Ressonância (ou será consonância?) da pós-modernidade.

Deixei de tuitar, e mesmo que ninguém se dê conta disso [porque, convenhamos, isso não tem a menor relevância], o próprio sistema me re-categoriza, anunciando pra quem está na minha rede sem ser peixe: de pássaro esvoaçante à condição primeva de ovo, bastam apenas 48 horas de silêncio e não-protagonismos registrados na web.

E eis que percebo: até não ser é identitário na web!

Assombro-me.

Espanto-me.

Boquiaberto-me.

O que nos diria Clareza Lispector?

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