Arquivo do mês: agosto 2010

Poe mim

A noite tosse seus trovões

desfilando sessenta passos:

pra-lá-pra-cá

feito um pêndulo.

E as setas dos caminhos.

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Incômodo

Têm me incomodado muito essas personagens mais ou menos recentes no cenário urbano que formam um rebanho cada vez mais numeroso, espraiando-se pelas pradarias afora, em todos os cantos. E me incomodam não por existirem, que cada um escolhe o que quer fazer na e com a vida – mas pelo fato de me imporem seus pontos de vista, sem nenhuma chance de rechaçá-los.

Explico: do terreno vizinho a minha varanda, a uns 15 metros de distância sem barreiras, a partir das 8h30 da manhã ecoam os hinos à glória e às bênçãos de Deus, em altíssimo volume.

No táxi, o rádio sintonizado em frequência divinamente escolhida me submete à doutrinação em ritmo de pop rock.

Na vizinhança de outra casa que frequento sistematicamente nas tardes de sábado, a faxina é consagrada em louvor a Ele, e não vem ao caso se estou do outro lado do muro deitada na rede querendo ler, estudar ou se estou simplesmente não querendo nem fazer e nem ouvir nada: o muro separa as casas onde estamos, mas não é fronteira pro som que se propaga em ondas que, pra pessoa que está do outro lado do muro, embala e conforta e anima e salva; a mim, apenas irrita as borbulhas de pecados e culpas que já larguei com mala e tudo em outras andanças.

Na Igreja Católica, fui batizada, fiz crisma e primeira comunhão, participei das missões, cheguei a pensar em seguir vocação religiosa (!) batia ponto nas missas domingueiras, batizei minha sobrinha, apadrinhei alguns casórios e chorei a morte de alguns queridos da minha vida.

Mas tudo foi “dentro-da-igreja”: participei porque aceitei o convite pra estar lá (bom, tá, à exceção do batismo), participei porque quis me integrar à cerimônia, e mesmo depois de passar a acreditar só no deus-em-mim, ainda participo uma vez que outra porque é socialmente relevante.

Mas não me lembro de ter invadido a privacidade dos outros em nome das minhas crenças; não tenho registros de ter conduzido uma conversa banal às raias da doutrinação; não me lembro de ter sido invasiva em nome de Jesus (bom, pode ser que eu tenha sido em nome de joãos, mas aí é outra coisa) e não me ocorre ter reiterado o que quer que seja quando a pessoa já não me ouvia mais.

Dia desses, o faz-tudo a quem recorro eventualmente pras broncas domésticas que não resolvo sozinha com minha caixa de ferramentas me socorreu num probleminha hidráulico. Fez o serviço, paguei, agradeci, dei bom-dia e ele “Que Deus te abençoe” e eu que sim, obrigada, enquanto abria a porta pra ele sair. O moço parou, voltou-se e olhando-me nos olhos, assim, fundo, repetiu “Deus te abençoe, viu, Dona?”, deixando claro que ele percebera que o meu sim era uma mera cortesia a título de fim de conversa, e não um acolhimento à benção com que ele me honrava naquela minha manhã até então tão profana.

Parece que o cerco se fecha inescapavelmente: se não é axé, é forró ou pagode do ruim; se não são eles, tem agora o hinário travestido de baixos e guitarras, instrumentos de pretexto pra louvar e bendizer 24 horas por dia em qualquer lugar onde se esteja.

A mim, só me resta comprar tampões de ouvido, que não consigo usar. Ou protestar.

Pronto: protestei.


Revisão é pra toda vida

“Mas teve um conjunto de livros com os quais não sabia muito bem o que fazer, e só depois de muito hesitar foi que decidi fazer um grande pacote de presente e dá-los a uma amiga querida.”

Isso  foi o que publiquei no “Mago”. Hoje, lendo meu texto republicado na mais recente edição do  Balaio de Notícias do caríssimo  Paulo Lima foi que então vi a falta de concordância, ou melhor, a concordância com o último elemento do sintagma nominal (SN) sujeito (livros) e não com o núcleo dele (conjunto). Agora já arrumei, da mesma forma que fazem os jornalistas da Folha online, por exemplo, quando publicam a chamada pra notícia e meia hora depois, o erro gramatical foi corrigido. Pra ver como as coisas são: até eu, mortal sem academia.

É muito regular, recorrente, frequente, que nesse tipo de enunciado (SN formado por núcleo singular e determinante no plural) a gente faça a concordância assim, com o elemento que fica mais próximo do verbo.  Na fala, mesmo a mais monitorada, é quase majoritário. Na escrita, inclusive em textos bem monitorados, como os que publico aqui no blog, também seria, se não fosse o olho de olho bem aberto focalizando a revisão na gramática, e não no conteúdo.

Como sempre, a língua segue seu curso. A gramática normativa, às vezes, o refreia. Mas não pra sempre. Nem por muito tempo.