Arquivo do mês: julho 2010

Fazendo uma colocação

Como anunciei no meu post anterior, o primeiro texto da categoria “perguntas que me fazem sobre língua” com o qual me ocupo aqui é a respeito de uma colocação de uma colega professora. Estando sentada ao meu lado, ela sussurrou ao meu ouvido: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. Essa fala dela pra mim aconteceu assim que ouvimos um outro colega professor fazer um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”, durante um recente encontro de professores universitários em atividade acadêmica.

Então, vejamos: a primeira coisa que eu faço aqui é dar concretude à minha seguinte afirmação: esta expressão é altamente produtiva, sendo utilizada inclusive (será principalmente?) por gente culta, em contextos formais de uso da linguagem. Tal produtividade dos enunciados fica logo evidenciada numa rápida pesquisa no Google, realizada domingo passado: para a expressão de busca “fazer uma colocação”, foram dados 11 mil resultados; alterando a expressão para “colocar uma questão”, o Google nos dá 76 mil resultados; alterando mais uma vez e pesquisando “a colocação que * fez”, temos 69 mil resultados e a pesquisa de “a colocação feita por *” resulta em 15 mil ocorrências. Lembro ao leitor que o asterisco inserido na expressão entre aspas permite que a pesquisa considere ocorrências seja qual a for a palavra que estiver ali, no lugar do asterisco, recurso que permite ampliar as expressões pesquisadas.

Só esses dados quantitativos já seriam suficientes pra atestar a legitimidade do uso da expressão, ou, colocando a questão de um outro jeito, o número de 171 mil ocorrências num site como o Google é um indicativo bastante seguro da adequação da expressão. Fica bem estranho tentar defender a idéia de que 171 mil pessoas estejam erradas, certo?

 Isso significa o que? Significa que o termo “colocar” foi passando por uma especialização de sentido com o andar da carruagem. Realmente, se a gente pensar no apelo etimológico do termo, temos collocare, pôr em algum lugar. Assim, é claro que o termo (ainda) remete ao sentido de ‘lugar’, mas, com o uso, a expressão se especializa, ampliando e renovando seu sentido.

Se isso está coerente e dada a produtividade do uso da expressão, tal como visto nas, repito, 171 mil  ocorrências do Google, é de se esperar que dicionários importantes registrem ‘colocar’ no sentido de posicionar-se em relação a algo/ alguém através de um enunciado linguístico, falando algo para alguém em contextos bem determinados de usos da linguagem. Por exemplo, no Dicionário Unesp do Português Contemporâneo, de 2004, no verbete ‘colocar’ encontramos ‘expor, apresentar’, e como exemplo aparece eu também quero colocar minha opinião. Verifiquemos também algumas das 13 acepções que o Houaiss de 2009 apresenta para “colocar”. Num primeiro bloco, trago aqui “botar, situar (algo, alguém ou a si mesmo) [em algum lugar, em determinada situação, posição etc.]; pôr(-se)”, e como exemplos, colocar o pé no estribo, o técnico colocou o time em primeiro lugar; além dessa acepção, há também “assentar, depositar, arrumar”, como no enunciado levou o dia inteiro para colocar tijolos. Num segundo bloco, as acepções de uso do verbete ‘colocar’ que aparecem no Houaiss são derivações de sentido, que certamente não causam estranheza ao leitor: ‘situar(-se) [hierárquica ou moralmente]’, tal como ocorre no exemplo a repreensão colocou José no seu devido lugar e ‘julgar (-se), considerar (-se)’, como no exemplo colocou-se acima dos outros. E pra não nos estendermos mais, na acepção 5 do verbete ‘colocar’ encontramos então ‘propor, aventar, expor’, acepção exemplificada pelo Houaiss com colocou uma questão.

Dito isso, vamos ver na sequência quatro exemplos de contextos de escrita publicada na web em que foi encontrada a expressão ‘a colocação feita por *’.

1) Texto científico, monitorado: a colocação feita por Trivinos, quando diz que as teorias estão fortemente determinadas pelas condições sócio-económicas, históricas e culturais […].

2) Texto científico, monitorado: É difícil decidir se a colocação feita por Frege do problema da significação foi realmente benéfica ou prejudicial para os estudos semânticos […].

3) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado, com discurso reportado da fala de uma desembargadora: Neste sentido, a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Genacéia Albeton: “É acertada a colocação feita por Arruda Alvim, …” […].

4) Texto formal, jornalismo impresso, monitorado: Luiz Fernando Figueiredo, analista do banco norte-americano JP Morgan, disse ser “verdadeira” a colocação feita por Meirelles […].

Das 15 mil ocorrências para a expressão ‘a colocação feita por *’, essa pequena amostra reproduzida acima deixa claro que a expressão ‘colocar’ com o sentido rechaçado pela professora é amplamente utilizada por falantes cultos, e, como se vê nos exemplos, amplamente utilizada também por quem escreve texto formais e monitorados em termos de expressão linguística. E já se sabe que do ponto de vista da variação e  mudança linguística, a  fala culta e escrita formal são as duas instâncias do uso da linguagem que legitimam a forma/expressão em uso, tanto do ponto de vista linguístico quanto social (ver Faraco, Linguística Histórica).

Assim, concordar ou não com a expressão usada pelo colega já não faz a menor diferença.  A língua, como sempre, segue seu curso.

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Apenas uma colocação preliminar

Com este post, inauguro uma nova categoria para meus textos aqui no blog: com “perguntas que me fazem sobre língua” abro espaço pra registrar reflexões linguisticamente fundamentadas sobre comentários/perguntas sobre a língua que me são dirigidos. Meus 12 anos como professora de português e minha escuta linguística me permitem antecipar aqui que provavelmente não poderei dar conta de registrar as reflexões que faço sobre tudo que me perguntam/comentam, ou mesmo as reflexões que faço a partir de coisas que apenas ouço dizerem sobre a língua, pois aí eu teria que dispor de um turno do meu dia, talvez mais, só pra dar conta desse recado. Digo isso não pra que você saiba o quanto sou ocupada, mas pra lhe situar em relação à intensa produtividade desses comentários, na maioria das vezes dirigidos a mim de forma direta, outras delas, chegando a mim como ouvinte não ratificada.

Então comecemos assim: não posso ser ingênua e ignorar o que sei que esperam de mim ao me fazerem uma pergunta sobre alguma questão da língua. A expectativa do meu interlocutor é que eu seja taxativa, e que me saia rapidamente com um “certo” ou um “errado” e que, além de vaticinar um julgamento sumário, meu interlocutor espera também que eu acrescente algum argumento de caráter normativo. Claro está que essa expectativa é motivada pelo fato de eu ser professora de português, e nisso estão implícitas 1) uma determinada idéia que se tem sobre o que deve saber um professor de português e 2) uma outra determinada idéia sobre o papel de guardião da ‘língua certa’ atribuído ao professor de português.

O conflito está no fato de que minhas respostas não são nem taxativas, nem gramatical e normativamente orientadas. São, sim, enquadradas no contexto de uso, pois linguisticamente orientadas. Aí, pra poupar atalhos necessariamente diplomáticos que dão quase sempre uma trabalheira danada, e pra tentar ir direto ao ponto tentando ao mesmo tempo preservar a face do meu interlocutor, eu respondo a pergunta com uma outra: “por que você acha que está errado?”. Essa é a que eu faço se eu estiver compartilhando do mesmo contexto que motivou a pergunta. Se não for esse o caso, e sendo a pergunta assim, formulada de supetão, eu a devolvo pedindo a meu interlocutor que ele situe o questionamento: “você pergunta isso em relação à fala ou relação à escrita?”, ou ainda, “como assim, em que contexto?”.

Essa minha postura sinaliza ao meu interlocutor, desde então, que ele não vai ouvir de mim o julgamento taxativo, papel histórica e socialmente atribuído ao professor de português. Os meus colegas de ofício sabem bem como é: basta a gente se apresentar socialmente como tal e lá vem o “hi, agora tenho que falar certo, né?” . E os meus não colegas de ofício também sabem direitinho como é: basta saberem que estão sendo ouvidos por um professor de português pra monitorarem a fala, monitoramento quase sempre ativado de forma instintiva, independente do fato de estarmos numa mesa de bar ou numa atividade acadêmica. Uma outra sinalização que faço ao meu interlocutor é com minha resposta “não sei, mas posso pesquisar”. Aí, é um assombro. Ao contrário do que fazem os que lançam mão da embromação, se eu não souber a resposta digo sem constrangimento que não faço a menor idéia, e que, bom, me disponho a pesquisar e tentar responder. A partir da minha autodeclaração de ignorância, meu interlocutor quase nunca consegue nem dissimular nem esconder sua incredulidade pelo fato de eu ter dito que não sei.

Enquanto ele está ali na minha frente, sem saber o que fazer com minha resposta, um script se forma na minha cabeça: meu interlocutor me coloca na testa um adesivo com “incompetente” escrito em letras garrafais de cor fosforescente. E com esse gesto dele tem junto sua pergunta nunca enunciada: “Como é que não sabe e é professora?”.

Dito isso, como colação inicial, você pode esperar de mim um texto que resulte de um trabalho cuidadoso, de uma reflexão ponderada, de uma abordagem científica. Claro está que fica implícito um ponto de vista pessoal, pois, como sabem meus alunos de jornalismo da Unit, faço uma escolha que incide 1) sobre quais tópicos vou escrever 2) sobre o enquadramento linguístico da abordagem. E isso me define como a professora que sou.

O primeiro texto com o qual vou me ocupar, tendo já me preocupado com a questão (meus alunos são alertados sobre a diferença entre ‘se preocupar com o texto e se ocupar do texto’), é sobre uma colocação de uma colega professora. Ela disse: “Eu não concordo com a expressão ‘vou fazer uma colocação’, pois colocar significa tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro”. O contexto era um encontro de professores universitários em atividade acadêmica, onde também eu, como participante do evento, ouvi um outro colega professor fazer ao microfone um comentário para o palestrante, começando com “quero fazer uma colocação”. Esse será o tema do meu próximo post.

Saudações lingüísticas.


The blue bird

Esses dias vi o filme de um bando de estorninhos em bruxuleantes coreografias no céu: um espetáculo, daqueles de boquiabertar-se. Já viram um desses? No “A jangada de pedra”, tem um bando deles conduzindo o protagonista. Mas por mais brilhante que o narrador seja, ver no concretão um bando de estorninhos em revoadas e estripulias é uma daquelas coisas que dificilmente se esquece, depois que a gente vê um: http://www.youtube.com/watch (tá, testei antes de postar e sei que não dá acesso. preciso aprender a fazer também isso).

Da trama genial de asas e corpos em movimento pelo céu, um outro bando, também genial, mas cuja gênese não é desse mundo, faz revoadas em todos os continentes, independe de estações, fluxos migratórios, escassez ou abundância de comida: falo daquele passarinho azul que fica derrubando orkuts e MSN como as TI até então mais utilizadas pelos internautas nos últimos meses.

E aí, bom, como ando querendo me inserir nessas tramas cibernéticas, me atrevo a tuitar, sim! pasme! Eu tenho um twitter – (nem sei se é assim que se diz: será “assino o twitter?” ou ainda “tenho uma conta no twitter?”). Minha sobrinha que é craque-fera também nisso, vai colocar o azulzinho num poleirinho aqui do blog … agora preciso aprender a dar asas pra criatura [(esterunit.twitter.com) ai, é assim? ou é @esterunit ????]

Lembro da minha vibração quando uma aluna me ensinou a colocar o celular no vibracall, antes de começar a aula, no meu primeiro-dia-com-um-celular. No semestre seguinte, Raquel Passos me explicou como digitar mensagens, e já fiquei maravilhada – desculpem, eu sei, mas o maravilhamento parece ser restrito aos que nasceram antes dos anos 80. Imagine agora, acho que eu serei um estado de êxtase! Isso tudo por que tive a idéia de usar “the blue bird” como ferramenta pra produção de micronarrativas na minha disciplina de Produção de Texto II – Jornalismo/Unit.

E, bom, sabe como é, né?,  nas férias de janeiro de 2011, quando eu estiver na Europa passeando com minha sobrinha e for privilegiada também com a aparição de um bando de estorninhos, tuitarei assim que o assombro da beleza me permitir contar isso em 140 caracteres. E se tudo correr bem, além de tuitar, posso gravar o espetáculo com meu celular e postar o filme aqui, compartilhando com você. E isso é bár-ba-ro.

Mas, puts, será que vou conseguir?


Comida de frio no inverno sergipano

Tem uma história engraçada de um primo que saiu da serra gaúcha em 1980 e foi trabalhar em Vitória. Diz que instalou ar-condicionado na sala de jantar só pra poder tomar sopa de capeletti sem suar bicas com o calorão.

Isso deixou de ser folclore desde que viemos morar aqui nos trópicos, meus pais 12 anos atrás e eu, desde 2004. Quando chove, a gente se telefona, eu na Atalaia, eles na Coroa do Meio, e a brincadeira é dizer que se está de meias nos pés e blusão de moletom.

Mas a torcida familiar mesmo é pela primeira noite de inverno sergipano, quando então os termômetros despencam a 18°: temperatura ideal pra gente se reunir e comer, que é coisa que colono descendente de italiano adora fazer.

E claro que tem um cardápio de delícias que só podemos comer no inverno: entre elas, polenta mole e sopa de capeletti. Polenta molinha, com um molho de miúdos de galinha e um bom parmesão fazem uma montanha em um prato fundo: ataco de colher, mesmo, que é pra comer como se fosse uma papinha de bebê, mas com um bom tinto na mamadeira de cristal. A cada colherada da mistura coberta por um pouco mais de parmesão vou me sentindo alentada, um agrado bem quente acionando meus sentidos pro paladar. Sem suar nadica de nada por conta das baixas temperaturas do inverno local, repito a dose também do vinho, e depois, por uma boa meia hora, fico hibernada na cadeira, sem poder me mexer, só curtindo os prazeres da conversa com o gosto bom ainda na boca, acentuado por sucessivos goles de vinho.

Sopa de capeletti com brodo de galinha e carne de gado: ah, só com frio pra saborear um prato desses na sua plenitude. A festa já começa na artesania da massa passada em tiras fininhas e cortada em pequenos quadrados onde se coloca uma bolota de recheio; fecha-se em formato de triângulo, juntando-se as duas pontas. Fica parecendo um pequeno chapéu, donde o nome “capeletti” – pequeno chapéu, em talián, nosso corrupto dialeto italiano. Agora imagine você, que em um prato de sopa dos bons, há pelo menos uns 20 capeletti: fazer uns 200 deles, um a um, na mão … são bem umas três horas de trabalho pra duas pessoas: minha mãe fazendo as tiras de massa e cortando em quadradinhos e eu fechando capeletti, habilidade desenvolvida há anos e executada com maestria. Enquanto cada um deles é colocado sobre a prancha para secar, as papilas gustativas vão se animando pro ápice que é o cheiro do brodo borbulhando com os capeletti al dente. Do fogão pra mesa, todos nós já a postos, e de repente aquele silêncio dos seis comensais interrompido só pelo burburinho do sorver do caldo quente e por inevitáveis e entusiasmadas declarações, uma ode gutural allegro tropo tanto cujo coroamento é a concha enchendo o prato outra vez. Pura gula, que o primeiro já dá sustança suficiente pra duas refeições.

Mas como sempre é possível que o dia seguinte seja de novo calorão de céu azul, a gente aproveita, pois houve anos que o inverno durou uma sopa de capeletti e a polenta da noite seguinte. Depois, sol de praia a 28°, e praia de novo. Se bem que, com a novidade humilhante dos fogachos pré-menopáusicos, não sei se sobreviverei à sopa e à polenta sem suadeiras; azar o meu: nenhum fugaz fogacho me fará abrir mão dessa celebração gastronômica do frio sergipano com honrarias a Baco. Delícias invernais garantidas, os caranguejos podem sempre esperar.