Arquivo do mês: junho 2010

Mago

Quando me mudei de Porto Alegre pra Aracaju, em 2004, resolvi passar adiante a maior parte dos meus livros. Eram muitos, bem lá uns 200 volumes, pois encheram oito daquelas caixas plásticas de empresas de mudança. Resolvi passá-los adiante pelas seguintes razões:1)  os poucos, talvez dez deles que eu ainda não tinha lido, dificilmente leria na década seguinte (recentemente, me arrependi, pois aqueles títulos estão sendo relançados agora  numa coleção “clássicos abril”, sabe, aqueles que a gente tem que ler um dia?); 2) os demais, eu já os lera todos  3)  além disso, já havia meio que definido interesses acadêmicos  e entraram nesse grande pacote de doação inclusive os livros cujos temas eu não queria mais estudar, e assim pelo menos uns 50 deles foram pra biblioteca da UFRGS.

Mas teve um conjunto de livros com o qual não sabia muito bem o que fazer, e só depois de muito hesitar foi que decidi fazer um grande pacote de presente e dá-los a uma amiga querida. Eram os livros do Saramago: o primeiro deles que li,  “Objecto quase”, comprado, imagine!, numa caixa de saldos de uma feira do livro de Porto Alegre,  e todos os outros, inclusive os  “Cadernos de Lanzarote”, de não ficção. Mas desde “O ensaio sobre a cegueira” decidi que não leria mais nada dele: achava impossível ele se superar como ficcionista depois desse e do “A jangada de pedra”,  “O evangelho”, “História do cerco de Lisboa”  e de “O ano da morte de Ricardo Reis”. Sei que minha amiga se sentiu honrada com a doação, e os tem até hoje.

Eu também  os tenho, apesar de tê-los dado, mas aquele espécie de “ter” que não é mais separada do “ser”, pois ter lido Saramago me compõe como a criatura que sou, inclusive pelo que não sou: como ousar querer escrever ficção depois do Saramago? Ele já me disse. Lembro do assombro ao ler “O Evangelho”; quando decretam a morte dos recém-nascidos, José sai às carreiras entre as vielas pra pegar Maria e o Menino, uma aflição só, mas, pergunta o narrador, por que ele não avisou os outros do vilarejo, à medida que descia morro abaixo e podendo bater nas portas e gritar “salvem seus bebês!”? Fiquei pasma, por que eu fiz essa pergunta pra minha profe de catequismo quando eu tinha, sei lá, 12 anos? – claro, ela não respondeu a ousadia, e naquela semana não ganhei estrelinha no meu caderno de catequese.

Um outro episódio saramaguiano na minha vida se deu enquanto eu fui aluna de Letras. Houve um seminário internacional sobre literatura portuguesa na UFRGS, e lá estavam especialistas da área e os escritores Helder Macedo, poeta, palestrante do primeiro dia,  e José Saramago, que fecharia com a ficção em prosa. Foi antes de ele ganhar o Nobel. Encaminhei uma pergunta ao Helder, ele leu e fez uma cara de quem tinha gostado da pergunta, mas não respondeu. Quem o fez foi Saramago, que na manhã seguinte, abre a conferência dizendo que a fala dele era uma homenagem à pergunta tal, e citou-a. Lembro que encontrei o namorado à noite e apenas lhe disse “Saramago respondeu minha pergunta”, como se eu fosse a pessoa mais brilhante do mundo por ter merecido a atenção de um cara como ele. Isso rendeu tanto no meu delírio de autoestima que me atrevi a escrever um conto, nunca publicado, cuja primeira frase era “Saramago respondeu minha carta”.

Só soube que ele morreu  por volta das 13h15. Uma ex-aluna me liga, pedindo entrevista sobre Saramago e eu que não, não dou entrevista, e antes de explicar por que e indicar o nome de um colega, a ligação cai e junto a ficha: “ele morreu?”, perguntei em seguida quando ela voltou a ligar. “Professora, a senhora não vê televisão?”

Pois é, sempre preferi ler.

 

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