Arquivo do mês: maio 2010

Um novo lugar no guarda-roupa

Já fui muito desorganizada, mas em geral, a depender de algumas variáveis nem sempre muito controláveis, minhas roupas até que estão arrumadinhas. Durante anos, morando no sul, o critério básico foi “roupas de inverno”, “roupas de verão”, mas na última década morando em Porto Alegre isso nem sempre era suficiente para resolver a questão. O clima já dava ares de estar endoidando, e precisava-se quase sempre daquilo que uma amiga nomeou como “kit Porto Alegre”: uma regata básica sobre a qual se usava uma manga longa leve sobre a qual se vestia um moletom sobre o qual se vestia um blusão de lã sobre o qual se vestia um casaco impermeável antes do sobretudo. Ia-se descascando a cebola conforme os humores do clima e era possível num mesmo turno do dia ir-se dos 12 aos 28 graus. No fim do dia, a bolsa era muitas vezes a representação micro da organização do guarda-roupa nos compartimentos do frio.

Agora, aqui em Aracaju desde 2004, o grande armário que veio junto com a compra do apartamento dá conta com folga do recado: nas seis portas com maleiro dá pra deixar tudo organizado, inclusive roupa de cama, mesa e banho, além de bolsas e sapatos – os do dia-a-dia e os de festa,  quase à maneira de um closet. Tudo bem, confesso, as roupas de inverno pro frio do sul  guardo-as num dos gavetões sob a cama, abertos só anualmente pra viagens ao sul e mais assiduamente pros passeios subterrâneos da Cloé e da Malucat, que se atreve a explorar escuridões com a dona do pedaço no seu encalço. Mas ainda assim, até agora, havia vagas umas quatro prateleiras dentro do armário.

Ocorre que nestas duas últimas semanas, passei a ocupar um desses espaços vazios do guarda-roupa, pois tenho experenciado uma coisa absolutamente inédita: nunca, nunca até agora, aconteceu de eu querer vestir uma peça e ela não me servir! Daí que no troca-troca-até-achar-uma-que-sirva-e-não-aperte-e-fique-bem, várias peças vão sendo desagrupadas das grandes categorias que definiam seu lugar no guarda-roupas e, amarfanhadas, são jogadas com alguma tristeza na compartimento que, até então vazio, passa a atender ao mais novo critério: lugar das roupas que não me servem mais.

Isso tudo só por ter deixado de fumar há 198 dias, 3 horas e oito minutos. Ao invés de muita nicotina, muitas calorias, muitas delas e de origens as mais variadas. Atenta a este humilhante sinal de alerta, essa semana troquei a Barilla pelo Bifum – aquele macarrãozinho chinês de farinha de arroz, um poquito menos calórico, quero crer –  o café da manhã por suco de fruta com ração humana e deletei  coca-cola da minha vida – à exceção de acompanhamento para pizza e cachorro-quente, será apenas “como remédio pra ressaca”. O problema está em o que fazer  com as roupas que já eram:  1) se guardo pra quando voltar aos meus 66 quilos, opção que deixa implícito que voltarei aos meus 66 quilos; 2) se dou pra alguém, o que permite pressupor que não voltarei a me exibir do meu manequim  42,  ou ainda uma terceira opção: no próximo domingo, me dou o trabalho de vestir uma por uma, em sequência, inclusive as roupas de festa, checando o que ainda serve. Com a montanha de roupas que não passarão na prova, faço um pacote, compro um vinho e vou lá pras bandas da Sarney com fiéis amigos pra uma fogueira ritualística à beira-mar e dou adeus de vez à coquetagem,  assumindo daqui pra diante que sou barriguda, sim, e daí, tantos são e nem por isso ficam sem namorar.

Isso,  tá resolvido. Só não sei direito ainda o que fazer com os biquínis de laçinho.

Ai, meus sais.

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Na vitrine do Google

Volta e meia, coloco meu nome entre aspas na barra de busca do Google pra ver por onde ando nas trilhas da web. É divertido ver as referências a mim promovidas por coisas que eu havia esquecido que fizera. Claro, metade da diversão fica por conta do meu esquecimento; a outra, por conta de as pessoas me tornarem explícitas as formas como me veem. Isso fica ainda melhor quando as referências extrapolam as tramas internéticas deste blog, pois então já posso antecipar o quão antigo o troço é.

Sou citada, por exemplo,  entre 7.742 criaturas importantérrimas num site chamado “Roteiro romanceado”  no item ‘a arte do romance em citações’. Imagine que na lista por ordem alfabética eu venho depois de Ésquilo!  Agora, confesso, aqui nesta ágora moderna, que não consegui saber o que de mim foi citado pela minha absoluta e recorrente inabilidade em usar essas ferramentas de busca – sorry, mas ainda gosto mesmo é de chave de fenda e de alicate no muque.  

São 391 citações com meu nome, mas lembro bem do susto que levei a primeira vez que fiz isso, lá por 2007, quando conquistei banda larga – eram sete, só, e ainda assim fiquei boquiabertada: eu estava na web! Os rastros de minha vida concreta ali, disponíveis, a quem interessar possa.

E agora, três anos depois, sem banda larga e seis quilos a mais, volta e meia caço pegadas de mim na vida dos outros – bancas, formaturas, eventos acadêmicos, entrevistas, depoimentos e quejandos e fico espantada ainda mais com a extensão da vida da gente na dos outros: com mais ou menos intensidades, com mais ou menos alegrias e encantamentos, parece surgir uma árvore – não a genealógica, mas uma árvore-polvo, cujos tentáculos mambembes itinerantes nômades se prolongam  e se estendem um pouco mais a cada vez que tocam a vida de alguém.

A web, fiel depositária desses percursos, instaura assim o inventário de uma vida registrado nesse espaço que é de todos. Sem raízes, sem amarras; sem origem, nem tradição – e no entanto, vigoroso e pleno como uma boa gargalhada e um aperto de mão.