Arquivo do mês: março 2010

Manu ou Malu, eis a questão de Zoe

Então: foi Manu no início, pra evitar um nome que definisse gênero – ainda não se sabia se era guri ou guria e valia pra Manuel ou Manuela. Depois, dadas as maluquices da criatura, enfrentando a Cloé sem grandes precauções, virou Malu, a  maluquita. Ontem lembrei de Zoe, que também é lindo pra nome de gata. Por hora, assim vai ficando – Manu, Malu, Zoe. Ditos assim, de carreirinha todos juntos, fica parecendo nome de um cappo siciliano.

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Cloé, Manu e eu

Não hesitei nenhum segundo: assim que os berros me definiram sua localização, me abaixei e enrolei a criatura numa dobra da blusa. Absolutamente assustado, absolutamente apavorado, absolutamente aterrorizado, o bicho entretanto parou de gritar assim que o estampado da minha roupa lhe apartou do mundo cruel. Acuado ali, sabe-se lá desde que horas: mil pares de pernas na calçadinha de um metro, um muro de três, um bueiro aberto a quatro passos dali, uma rua de duas pistas, saída da universidade, dez da noite. Entre o enrolá-lo na blusa e o acionamento do ronronador não demorou mais do que dois prédios condomínio adentro. No apartamento do meu amigo, avaliei o estrago enquanto se providenciava uma caixinha: um olho estraçalhado, tremura, sujeira e fome, muita fome. Naquele momento, apenas podia dar leite. Ele não quis. Fechei a caixa lhe garantindo um mínimo de isolamento e conforto. Volta e meia, enquanto fazia o trabalho com meu amigo, uma espiadela só pra ver se ainda vivia. Trabalho terminado, vou pra casa com o bicho dentro da caixa. Dar de comida. Agora, mais calmo, quem sabe comesse. Amansei o crocante da ração da Cloé com um pouco de água. Ofereci, mas ele não tinha força. Peguei um conta-gotas pro leite, ele expelia; tentei água. E então ele se acalmou. Providenciei uma caixa maior com muitos paninhos pra ele dormir. Tranquei o arsenal todo na área de serviço. Cloé do outro lado da porta. Guerra adiada. Uma da manhã.

Às oito estava no veterinário: disse-me que escolhesse um nome pra alguém que teria um olho só. Colírio humano. Banho humano. A água, preta no chão claro. Dois xampus, água morna. Toalha e o ronronador dispara. Cambaleia ainda enquanto come aos poucos. Xixi na caixinha de areia já na segunda vez. Colírio humano, vitamina de bebê. Carne crua, bocadinhos enquanto enfrenta a fúria cloeziana: fu, fu, fu e o pequeno achando que era jogo de brincar.

Um mês depois, avisa que vem com dois lindos e saudáveis olhos e já me escala até a cabeça onde se ajeita pra dormitar enquanto vejo tevê; brinca às rabanadas intermitentes da Cloé, lambidas mútuas, às vezes um miu de pare agora já chega. Cloé às vezes implora por sossego; pela manhã, durante meu chimarrão depois da praia, lhe ofereço a privacidade do quarto ao fechar a porta, também em agradecimento pela acolhida que deu à criança.

Um mês depois, Malu – uma guria, sabe-se já! – já é da casa. Melhor, a casa já é também dela. Ainda negociam espaços e territórios. De minha parte, tudo está disponível. Ambas sabem.

Cloé, Malu e eu.

Que trio.