Arquivo do mês: abril 2009

Às mamas, com carinho.

Sempre, invariavelmente, sempre que não posso evitar a mamografia, saio da clínica ainda secando as lágrimas e, enquanto as mamas voltam ao seu estado original pré-prensagem, entro na primeira lojinha que aparecer. Me dou um presente, bem bonito, abro exceção e pode até ser um que nem seja tão barato.

Afinal, eu mereço.

Quem inventou essa máquina deve ter tido por referência as bigornas medievais; só assim pra tentar entender o suplício a que cada mama é submetida ao ser prensada pela máquina.  A atendente recolhe a massa mamária primeiro em lateral, deposita a mama na prancha gelada e cheirando a Veja cítrico; ajeita o braço acima da mama, a mão segurando um puta-merda também gelado, recurso que evita que a gente despenque de lado, ficando literalmente pendurada apenas pela mama prensada pela máquina. Mas antes disso, tem o ponto da prensa: a máquina vai apertando devagarinho, aos poucos, e quando você já esperneou no seu limite, a torturatriz aperta ainda mais um pouco, o golpe final antes de acionar o botão que radiografa a mama agora em formato de panqueca.

A glória é que o mecanismo é automático: ao bip se segue imediatamente a libertação. O céu se abre em dois e, já no paraíso, você fica repetindo “tá inteira, tá inteira” depois de investigar se a mama não se esfacelou. Você suspira, enxuga no rosto o rastro das lágrimas que foram parar no ouvido (lembre, o pescoço está rotacionado em alongamento lateral máximo) e sabe que tem mais uma mama. É a hora em que não dá pra deixar de pensar sobre essa coisa ambivalente: “Que bom, só tenho duas! Que bom, tenho as duas!”

 E dá-lhe o processo todo na outra mama. A essa altura, você se acha a criatura mais injustiçada do planeta e, quando acha que acabou, quando já tá correndo dali enquanto ainda abotoa o sutiã, a operadora da máquina de tortura lhe segura pelo braço e diz que falta  fazer as radiografias frontais.  A mama é agora recolhida pra frente e depositada na bandeja que continua gelada e ainda rescende a Veja cítrico; ali, nessa bandeja espelhada e esquadrinhada geometricamente para capturar as minúcias da mama, lá vai ela sendo prensada a ponto de virar outra panqueca, fininha, fininha, enquanto o pescoço é fletido para trás sob os auspícios e com a inestimável colaboração da engenhoca.  É simultâneo: quanto mais minha mama é separada do corpo pela prensagem entre as duas bandejas, mais minha cabeça é jogada pra trás, a ponto de ficar em dúvida se conseguirei sair disso inteira.

O bip redentor é o terceiro de uma série de quatro.

Já suei bicas de dor, a cara inchada de choro, o pescoço doído e a autoestima zerada. A essas alturas, enquanto tento reencontrar o eixo de alinhamento vertical do meu corpo, reclamo do gelado do chão, peço um tapetinho e ela que não, que não pode haver pó pra evitar que uma centelha, uma fagulha, um rabisco, um fiapo qualquer se interponha entre a bandeja e a mama, deixando rastros que podem confundir diagnósticos, ali, onde o diâmetro do microscópico ponto e os milímetros na dimensão do cisto podem ser o limite entre os benignos e os malignos.  Bom, tudo bem, não pensei num tapete felpudo e macio. Pode até ser um papelão, um mero papelãozinho corrugado, apenas para relativizar paliativamente a desumanidade do troço.

Mas ainda falta a quarta radiografia. E acho que agora entendo os superatletas que se superam nos últimos dez metros de corrida. Resignada, submeto-me. Bip.

Enfim sentada, cansada, estressada, dolorida, acabada, começo a me vestir e a moça diz que ainda não, que vai ver se está tudo direitinho ou se precisa repetir alguma. Só de pensar nisso, as lágrimas voltam copiosas, e deixo-as correrem livres também quando já estou no saguão da clínica.

Nem disfarço. Devia estar na declaração universal dos direitos humanos: “Toda mulher tem o direito de chorar antes, durante e depois de uma mamografia”. E claro, como um sinal de protesto, tem também todo o direito de se dar de presente uma roupa bem bonita.

Mesmo que, para isso, tenha que usar o cheque especial.

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