Arquivo do mês: maio 2008

Cloé cat

 

Outra coisa bárbara que entendi com a Cloé: ela vasculha o mesmo jardim a cada vez como se fosse um ato inaugural. É o da casa da minha mãe, que tem árvores, grama, telhados pra escalar e uma fronteira à beira do muro vizinho pra estrangeirar.

Quando vou pra lá e sei que ficarei durante mais de quatro, cinco horas, levo-a pra lhe dar a opção de exercitar a caça aos bichos de verdade: calungos, besouros, borboletas, pássaros barulhentos na mangueira. Bom, tem também as baratas e volta e meia, a epifania de um rato.

Se lhe promovo um passeio cujo brinde é a aparecência de um exemplar dos roedores, é quase uma celebração. Dia desses se traçou com um miudin-miudin, bebezinho ainda, e que festa ela fez. Tem o ritual todo da descoberta, o espreitamento no buraco de onde ele sairá, o rabo movimentando-se sob a batuta do instinto. Se apóia nas patas dianteiras flexionadas ao rés do chão, as de trás apenas o suficiente pra sinalizar o bote próximo: bailarina em ponta de pé potencializando o impulso certeiro. Foi o bicho rabudo sair do buraco e ela se atraca com ele. Ela o domina pela barriga tomando-o entre os dentes, acho que o aperta apenas pra desnorteá-lo. Ela o solta, ele se faz de morto. Ela o provoca com a pata, ele espera um deslize de atenção pra correr pro buraco. Espera em vão. Como o ratinho não dá ares da graça, ela o toma de novo na bocarra e agora começa e petecar com ele: alça o bicho pra cima pra dar com a pata nele ainda em queda livre. O arremesso é repetido e repetido e ainda mais uma vez, numa sucessão de saltos ornamentais sem vara, intercalados por 10 cm de corrida em tempo recorde. Dignidade olímpica. Sob a torcida da platéia que já parou de fazer o que fosse pra assistir a dança, ela descansa um pouco; não, melhor: ela deixa o bicho se refazer um pouco. Morrer logo não tem graça: morrer é quando ele não se mexe mais.

 

Eu fiquei de lado, ou melhor, de lados: um me mandando correr e tirar o pobre roedor das garras dela, outro me mandando ficar e agüentar os arrepios humanos que me inserem na modernidade higienizada, apesar dos esgotos a céu aberto dessa cidade.

 

Presumi que ela comeu o bicho: deu uma sumida básica com ele entre os dentes depois de tê-lo extenuado e voltou mais tarde, lambendo beiços, a língua chegando quase às orelhas de pura satisfação. Não havia rastros de sangue nem nos bigodes, nem nos beiços. Aquietou-se na cadeira e nem esbravejou quando a coloquei na casa-transporte. Ao chegar na nossa casa, ignorou solenemente o ratinho de pano e a ração. Deitou-se sobre o lençol branco de linho egípcio e, sem nenhum traço de domesticação, dormiu como uma nobre guerreira.

 

Em todo caso, no dia seguinte liguei pro veterinário. Depois dos meus dois nãos consecutivos sobre diarréia e vômito, e meu sim sobre a vacinação estar em dia, deu uma sonora gargalhada. Eu me restringi a permitir que seus felinos fluídos internos deixados nas patas e transferidos ao pêlo nos vários banhos diários fizessem lá seu efeito. Me preservei de unhadas de brincadeira e dos beijos de lambida e das patas almofadadas na cara. Três dias de quarentena.

 

Afinal, domesticada e humanizada, também eu faço lá minhas selvagerias.

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Tic-tac

A noite tosse trovões

desfilando sessenta passos

de infante delícia

pra lá  pra cá

feito um pêndulo

e as setas dos caminhos.