Arquivo do mês: março 2008

Zygmunt Bauman

Não há sentido em comparar os sofrimentos do passado e do presente, tentando descobrir qual deles é menos suportável. Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo.

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Balzaca trabalhadeira

Minha irmã fez trinta anos de casada, e amanhã eu completo 30 anos de carteira assinada. Uma espécie de aniversário, portanto. Minha irmã casou-se no sábado e eu fui procurar emprego na segunda seguinte, acho eu que num movimento que sinalizava – sem que eu pudesse ter visto isso à época – que eu não queria aquele percurso pra mim. Desde o primeiro emprego, no Armazém Florense como balconista até o último antes de querer-ser-professora, tem duas décadas em que passei de balconista a caixa de supermercado, depois telefonista, auxiliar contábil, secretária e se não fosse o pedido de casamento do namorado da época, ser secretária da diretoria da empresa mais importante da cidade seria provavelmente o ápice da minha carreira profissional. Explico: quando ele disse que queria casar comigo, eu vislumbrei um futuro a longo prazo que não me deixou lá muito entusiasmada: embora provavelmente conseguisse ingressar na classe média – ele é engenheiro civil requisitadíssimo até hoje na cidade – nem isso me entusiasmava. Fui substituindo o engenheiro por outros com profissões tão ou menos honrosas enquanto perdida ainda não sabia o que queria da vida. Porém, tinha duas certezas: não queria o casamento-que-estava-destinado-pra-mim e não queria continuar morando com meus pais. Fazia o terceiro ano do ensino médio, à noite, e o vestibular era uma perspectiva interessante. Havia a universidade na cidade vizinha à minha – 15 quilômetros, ida e volta no mesmo dia, e havia a UFRGS, na capital, que eu conhecia de breves visitas domingueiras pra ver o Internacional ganhar do Grêmio no Beira-Rio. Passar numa federal era quase impossível com a minha carreira de estudante: escola pública, noturno, formação técnica – química e física só tive no ginásio. Mas era boa em português, literatura e redação, sabia um pouco de biologia e achei que dava pra arriscar. Era 1985, auge do Plano Cruzado, em que pela primeira vez desde os 15 eu pude ficar sem trabalhar; meu pai concordou que eu só estudasse e disse  “vai que eu seguro tua onda”. E lá me fui, de malas e bagagens, morar numa república na cidade vizinha pra fazer o cursinho e passar na federal. Passei em 1986, o Cruzado já dando sinais do desastre que se seguiria e junto com ele o fim do “paitrocínio”; resultado: lá vou eu procurar emprego pra pagar o aluguel da quitinete, transporte e a refeição do RU. Comecei nas editoras: páginas e páginas de revisão, dava um dinheiro legal, mas os efeitos do Cruzado ainda atacavam meu bolso e fui assessorar o gabinete  de um secretário de Estado e na seqüência, o de um diretor de uma fundação estatal: os famosos “cargos de confiança”. Claro está que a essas alturas, não dava pra conciliar o trabalho com os estudos, pois meu curso era pela manhã e só consegui fazer uma ou duas disciplinas no vespertino. Mas estava estudando na UFRGS, e  morando em Porto Alegre. O governo Simon acabou, entrou o PDT e fui demitida. Voltei pras editoras, e dá-lhe mais alguns milhares de páginas de revisão e preparação de originais, algumas indicações pra revisar trabalhos mais legais e mais bem pagos e me chamam pra trabalhar numa galeria de arte. Aprendi coisas importantes lá, conheci artistas geniais e tratei de lidar melhor com a timidez avassaladora que me dava o status de “bicho-do-mato” no convívio social. De lá, voltei pra assessorar outro secretário de estado, e de assessora fui nomeada diretora e fiquei me achando porque viajava muito, internacionalmente, inclusive. Mas na décima viagem já tava achando saguão de aeroporto um saco, fazer a mala, um suplício e quarto de hotel um horror. Pedi demissão e com um pé-de-meia suficiente pra terminar o curso, fiz oito disciplinas num só semestre. Me formei em 1997 e em 1998, depois de um concurso pra professor substituto, dei minha primeira aula: na UFRGS, no Direito, na turma A do Direito (43 por vaga). A segunda aula foi na Fabico, com os calouros do Jornalismo (28 por vaga). E então encontrei minha praia. Hoje fui ver o que devo fazer pra começar a mexer na minha aposentadoria. Mas parei na primeira consulta. Quero ser profe até que tiver voz e energia, pois recentemente descobri que ser profe é a melhor parte de mim.