Arquivo do mês: fevereiro 2008

Um Bigo,dois Bigo, três Bigo …

Assinei tevê a cabo no finalzinho de 2005. Era dezembro, e a evidência de passar outro verão assistindo BBB me deu calafrios. Desde então, não estive mais submetida à programação da Globo. Ocorre que às vezes a programação da tevê fechada fica ruim, apesar da opção de quatro canais de filmes (bom, só tenho o pacote básico). Na HBO, passa de novo o mesmo filme da semana passada; na HBO2, um outro que eu também já vi; idem no Maxprime e no Cinemax. E aí, sem disposição para outros repetecos, ontem assisti a prova do líder do BBB.  Quando o Bial anunciou o tipo de prova, me animei um pouquinho, porque achei interessante saber como alguém que está confinado há praticamente dois meses jogaria/reagiria a afirmativas que fariam menção a acontecimentos concretos aqui no mundo real. Eles tiveram que dizer Verdadeiro ou Falso, por exemplo, para a renúncia de Fidel, para a destruição de um satélite pelos EUA, para outra lesão de Ronaldinho e para o Urso de Ouro para o Tropa de Elite. Sem analisar as respostas que foram dadas e a intuição/dedução/ que os fez optarem por verdadeiro ou falso, pra mim foi acachapante que ninguém reagiu ao que aconteceu aqui, no lado de fora da casa. A exceção ficou por conta das gurias que ali mesmo deixaram escapar um “nooooooooosssa!” ao saberem que sim, era verdade que os EUA haviam lançado um míssil para destruir um satélite espião danificado. Fiquei pensando que a reação de espanto das gurias deve ter sido motivada por deduzirem conseqüências catastrofistas desta destruição, algo do tipo uma pirotecnia mundial cujos destroços incendiariam florestas, derreteriam geleiras e aniquilariam centros urbanos e campos de soja e rebanhos de gado. Afora isso, ninguém disse “eba, o tropa ganhou o urso alemão”, nem mesmo “tropa premiado!”, fosse com desgosto ou exaltação; ninguém disse “até que enfim” ou “puts, e agora o que será dos cubanos?”; ninguém disse “cara, o Ronaldo pode aposentar a chuteira” ou “que pena, ele vai sofrer mais uma vez”. Nem durante a prova, nem depois dela, pelo menos até encerrar o programa. Bial, em muitas de suas falas com os “lá de dentro”  diz alguma coisa do tipo “o confinamento do jogo é um exercício de autoconhecimento”. Imagine … Depois de ontem, não tenho mais nenhuma duvidazinha infinitesimal que o BBB não passa de umbigolatria. 

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Discurso de paraninfa – Jornalismo 2007/2

Professora doutora Beatriz Colucci, coordenadora do curso de Comunicação Social da Universidade Tiradentes; professor doutor Ronaldo Linhares, homenageado desta turma de formandos; demais colegas da docência do jornalismo; prezados pais, familiares, amigos, filhos, namorados e namoradas, esposos, esposas, parceiros de vida de cada um de vocês. 

Caríssimos jornalistas da turma 2007/2 

Esta é a minha primeira vez como paraninfa. Estou com um friozinho na barriga. Minhas mãos tremem e minha voz hesita. Mas meu coração exulta em vivas de alegria. Alegria porque a generosidade de vocês, ao me honrarem como vossa paraninfa, inaugura na minha vida uma nova espécie de alegria, que faz parte agora do meu inventário pessoal. 

E esta nova espécie de alegria se deve ao fato de vocês terem me escolhido para ser paraninfa porque fui professora de vocês. E ser professora é a melhor parte de mim. É o meu melhor jeito de estar e de ser Ester neste mundo.  

Mas me escolher como paraninfa pouco diz a meu respeito: se trata de vocês, porque entendo que, à maneira de um espelho, meu jeito de ser professora revelou sobre vocês qualidades desconhecidas, méritos impensáveis, habilidades surpreendentes. Eu um espelho devolvendo a vocês o que vocês têm de melhor.

E nisso reside uma das belezas da vida. E nisso reside também o encontro pedagógico. E nisso reside também o devir das aprendizagens. Por isso a alegria de estar aqui, me dirigindo a vocês nesta solenidade que é a representação de um percurso. Da finalização de um – e do começo de outro. Ponto de chegada.  Ponto de partida.

Mas também uma encruzilhada que aponta escolhas possíveis e decisões a serem tomadas. Como a vida: que não se descola da escolha profissional, que não se desvincula do jeito que somos, do jeito que escolhemos ser. 

Talvez o melhor desse momento de alegria seja sua potência, seu há de vir, seu fôlego renovador pros passos que se seguirão ao último brinde pela conclusão da graduação. 

E pro devir, carregamos amanhãs plenos de ontem, como disse Ronaldo Linhares. Amanhãs plenos de ontem ….  parece o poeta Manoel de Barros, que escreveu assim: 

“Notei que descobrir novos lados de uma palavra

Era o mesmo que descobrir novos lados do ser.

A gente é cria de frases.” 

Se a gente sai da palavra e vai pro texto, texto que nos ocupou durante quatro semestres, se pode parafrasear o poeta assim: 

“Notei que descobrir novos lados de uma história

Era o mesmo que descobrir novos lados do ser.

A gente é cria das histórias que contamos.” 

Pois bem, ao escrever esse texto, que é pra vocês, descobri um novo lado do meu ser: descobri que vocês são constitutivos da minha história de vida, descobri que vocês são constitutivos do jeito que escolhi estar e ser Ester no mundo,  pois eu sou cria dos textos que os orientei a escrever, eu sou cria da professora que vocês contribuíram para que se concretizasse em mim, eu sou cria do olhar de vocês sobre o meu jeito de estar e ser Ester no mundo. 

Meu desejo – o que fica junto com esta alegria compartilhada –  é que cada um de vocês possa achar um novo lado de si mesmo em cada história que for contada, em cada notícia que for dada, em cada texto que for escrito. 

Porque assim o jornalismo será a expressão de um ponto de vista particular que se oferece ao conhecimento público; porque assim o jornalismo será um jeito de olhar o mundo com a sempre nova e atenta curiosidade  de um gato a passear pelo mesmo jardim pela centésima vez. 

E mesmo assim, mesmo que o olhar felino tenha estado ali dezenas e dezenas de vezes, nos desdobramentos das histórias tudo está ainda a ser descoberto, tudo está ainda por ser percebido. Tudo está ainda para ser contado.  

Ao trabalho, então. Contem. Mostrem. Revelem, desvelem. Descubram. Escrevam. E que em cada linha, em cada história, tenha sempre um tanto do melhor de cada um de vocês. 

Cum toto cordis, se diz em latim; em português, se diz “com todo meu coração.”


Festas de São João

Na diferença, os milagres da alegria 

Ester Mambrini, com a luxuosa colaboração de Cristina Fortunato Santos (texto publicado no Jornal da Cidade – Opinião, B6 Aracaju, 05 de junho de 2001) 

Na minha terra, o pobre do São João sempre teve que usar capote: um pesado casacão de lã grossa, comprido até o tornozelo, com uma gola suficientemente grande para, uma vez levantada, poder esquentar as orelhas. O frio de junho de Flores da Cunha, na serra gaúcha, definia o tipo de festa de que me lembro, dos tempos de escola em que se tinha que cuidar pra não sujar o guarda-pó com a merenda no recreio. Sim, acontecia na escola: nas do primário e depois, no ginásio. E só lá. As famílias não se reuniam pra comemorar o São João. Só na escola. Não era a cidade toda que se movimentava meses antes, pro São João. Só na escola, e uma semana de preparativos, no máximo, era o suficiente.

***Calças de lã xadrez, figuras geométricas entre o marrom e o alaranjado, sol quadrado refém do frio. Debaixo da calça, as ceroulas de algodão apeluciado escondiam as canelas magras e branquelas, a pele rachada mas quente, o calor reforçado pelas meias de lã até os joelhos, onde chegava o parente próximo do poncho uruguaio, versão pobre do capote: um legítimo cobertor de lã com um buraco no centro por onde enfiar a cabeça; ao abrir os braços, o ponche formava um extenso retângulo de marrons e amarelos, arrematado com franjas em degradê do mesmo tom; as mangas do blusão amarelo de lã saídas do enorme retângulo que era o pala, os dedos das mãos adivinhados sob a luva vermelha e grossa: fogueira geométrica largando labaredas imaginárias. Novinha, mas só porque meu aniversario era próximo, esta minha roupa inaugurada no São João foi ridicularizada por uma colega: “Guria, onde tu vais com essa roupa de caipira?” Culpa do xadrez, pensei eu, mas saí por cima e disse que era xadrez de padrão escocês, chique; ela é que não sabia da moda e de nada. Por baixo do ponche, fiquei muito mais quente, só que de raiva. E na raiva, a colega ainda mangando de mim, fui comer: injuriada, taquei-lhe pinhão recém-saído da panela, um atrás do outro, depois amendoim caramelado, depois fregolá, depois pé-de-moleque. Em cada banquinha de comida, um copo de quentão. Antes de conseguir chegar à banca da pipoca, uma zoada esquisita invadiu minha cabeça, fluviando as orelhas quentonas, vermelhas de tanto vinho quente. Saí tronchinha em direção à fogueira. Antes de eu cair, uma profe me socorreu: chá de sálvia sem açúcar, uma gastura terrível, e o fim da festa pra mim. Se tivesse comido aipim, teria sido ainda pior. Pena que não tinha forró. Porque talvez eu nem tivesse ficado injuriada com aquela colega atacando meu juízo: teria ido direto pra pista, meu par areando a fivela do meu poncho novo, de lã boa pra dar lustro. Se tivesse forró, e ainda que eu tivesse ficado aperreada com ela e tivesse ido me empanturrar, teria comido um pouquinho de cada vez, sem me empanzinar tanto assim. Se tivesse forró, não ia fazer diferença eu ta com a moléstia daquela tabaroa, imagine, “tua roupa é caipira!”; se tivesse forró, não tinha precisão de passar uma saliva peba pra peitar a infeliz. Culpa do frio não ter forró na minha terra? Quer dizer, até tinha lá um troço que chamavam quadrilha, que eu nunca entendia, eram só três pares, os passos da dança marcados, tudo certinho e simplinho, a mão do guri com a mão contrária da guria, de frente um  pro outro, os braços esticados dos dois guardando a distância, o pezinho de um e outro marcando o ritmo do “ai bota aqui, ai bota ali o seu pezinho, o seu pezinho bem juntinho com o meu”, depois enganchava o braço dando duas voltas e volta pros passinhos trocados. Eu, atroada toda e enjoada com aquela musiquinha nhenhenhém; o gaiteiro, meio atrapalhado naquele ritmo que não tinha nada de tarantela, tão diferente da cantoria da italianada. Depois, enfim,  os aplausos suspeitos das mães, e as profes dizendo “da próxima vez, mais ensaio”. O forró não combinava com o frio. Só nos restava comer: preferência absoluta entre descendentes de italianos no noroeste do Rio Grande do Sul, durante todas as estações. E no verão, o milagre das uvas, da vindima, das cantorias e danças da colheita, as presepadas todas em homenagem a Baco, a italianada todinha arreganhada, sem querer saber de arribar, todo mundo arretado e aguado de vinho na boca e de alegrias, afragatados a pulso no fim do arrasta-pé, varrendo o salão por obra e graça do fim da comida. Em cada festa no frio ou no modesto verão do sul, um milagre. Tirei meus pés da serra gaúcha, e aqui em Aracaju, nas línguas diferentes desse país chamado Brasil, os milagres da vida se repetem, sem diferenças, na batalha por uma vida melhor. Nas línguas da vida e no ritmo do pé de serra sergipano, a vida vibra.Bora nóis que a vida é breve e tem lá um magotaço começando o festerê. Para o ano, quero sair do time dos pés-duros e forrozar bem pegadinha, tirar os pés da serra, da geada, do frio, como quem entre no mar cálido pela primeira vez. 


“Escritor barnabé”

O “escritor-barnabé” é outro tipo brasileiro descrito no jornalismo impresso a serviço da análise do funcionamento do mundo social. Na Veja (23 de junho, 1999) há uma análise de como a literatura brasileira, pelo menos parte dela, “é uma flor nascida no mofo das repartições públicas”.


Joguinhos da vertigem

“No mundo da fantasia não há mais que duas possibilidades: ou o encontro com o passado” (Cesare Pavese) ou o movimento de um gato que corre pela casa e cujo mio se ouve ecoar, vindo de não se sabe onde. Adivinha-se pela disposição conhecida das peças – a sala, o outro quarto, a cozinha. Da varanda, se o mio for menos audível e mais agudo, pois lá embaixo sempre há uma ratazana saindo dos bueiros desta cidade sem túneis subterrâneos serpenteando merda e lixo até o mar. Os desenhos dele miam num meu passado. Quando os vejo, há um estremecimento de gozo primevo que primavera em mim. O traço é o de uma criatura que deixa rastros do rato deslizando vertigens do seu braço pra uma alma minha que se escolhe entre as outras de mim que ele inaugura.Fico horas querendo um dito pra traduzir isso e dizer pra ele que me queria sua musa.E não digo, pois não tenho como. Como acolher uma alma assim? Dar a receita de pão que ele não vai fazer? Ele desenha e escreve. E eu faço pão e comida achando que posso escrever assim alguma coisa perto da boniteza que é minha alma, um pão saído do forno. Fresca e marcada de dedos dos ázimos seculares na areia do deserto. Nenhum consolo em ter lembrado a receita e a palavra. Saber de ofício é não saber.  Marco os espasmos da minha escrita com esse bordado em cruz? Nas toalhinhas do enxoval, impossível traçá-lo. Entre um perfuramento e outro da agulha no terreno de algodão branco as distâncias nunca eram as mesmas; a direção, nunca certa. Tentava florezinhas que ficavam muito feias. Até desistir, produzi um cemitério de indigentes. Cenário pros natimortos da minha escrita.


Opiniães

“Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe:  pão ou pães, é questão de opiniães…  O sertão está em toda parte”. (Riobaldo Tatarana Urutu Branco, em Grande Sertão: Veredas, do grande mestre Guima)


Narrativa de apresentação pessoal II

[produzido em 2004/2, na condição de professora de produção textual que produz o mesmo texto solicitado aos alunos]

Até minha quinta série, lembro apenas de um episódio relacionado a aulas de português. O nome da profe era Catarina, dura como dizem ser as russas. Tremia só de pensar em ser chamada pro quadro. Acho que ela me poupava do abuso, pois era filha da faxineira da escola, razão que imagino, pra ela, já era suficiente pra excluir-me do rol de alunos a quem se pode humilhar. Pois a vítima que ficou na minha memória foi o Ademir. Morava no trecho vizinho à escola, casa de esquina, de madeira azul e com porcos e vacas passeando no quintal. Sim, o quintal era sujo e mal cheiroso, como o Ademir, que além disso tinha sempre uma coriza ressequida no nariz, aquelas marcas que ficam depois que se limpava o nariz na manga do uniforme de camisa branca. Ela chamou o pobre pra frente da sala, era miudinho, ele, franzino, anão diante do tamanho enorme da babreza da Catarina. Ela balançava a folha de papel escrito a caneta, enfurecida e dizia “olha aqui, seu Ademir, dá pra ver as manchas de manteiga na tua folha. Que vergonha, e pára de limpar esse choro na camisa, tua mãe não tem um lenço pra te dar?” No fim da aula desse dia, quando ajudava a mãe a limpar as salas antes de irmos almoçar, vi a redação do Ademir amassada ao limite, as pregas ainda tentando se acomodar à raiva que tinha ido pro lixo antes que ele saísse da aula e não voltasse mais pra escola.

Na sexta, já no ginásio, uma outra profe, um pouco mais cortês mas igualmente preconceituosa, devolveu minha redação sobre “um dia no circo” – que inventei pois nunca tinha visto um – com um círculo vermelho na palavra “expectador”. Claro, era com “s”, como é que ainda não sabia isso? No terceiro ano do segundo grau – que hoje chamam de ensino médio, já me formara leitora e escritora de pilhas de diários e muitas cartas. O profe Ivo dava só nota alta pros meus textos, e uma vez mandei um bilhete querendo saber umas coisas de ortografia, junto com um texto meu, que tinha feito sem ser pra escola. Ele devolveu com um dele, escrito a máquina – e guardado até hoje -, dizendo que eu não parasse de escrever, pois minhas redações eram um oásis no meio do deserto árido. Achei chique. Depois, já no curso de letras, cada vez mais me convencia que eu tinha jeito pro troço, sem saber que isso, aquela habilidade a que nomeavam como “o Dom” pra escrever havia sido construída em anos e anos de livros e livros solitários e textos e textos mais solitários ainda.

Daí a ensinar a escrever tem uma outra história no meio, mas na impossibilidade de contá-la aqui, registro que há pelo menos uma certeza: de que me empenho a cada dia, tentando ficar bem longe da Catarina, e do Ivo, lembrar sempre que escrever não tem nada a ver com dom, nem com inspiração; só tem a ver com trabalho, que aliás é muito e por toda vida.