Arquivo do mês: janeiro 2008

Descrição de tipo e jornalismo

Deu no jornal uma conversa bacana que tivemos aqui na UNIT com o Cleomar Brandi.
(PS: ao contrário do que disse o autor da matéria, eu não estava enganada.)

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Ratocorp

“Você conhece algum ratocorp?” é o título de mais um texto de descrição de tipo publicado na imprensa brasileira (eu acessei em agosto de 2001, não sei se ainda está disponível)


Narrativa de apresentação pessoal I

(produzido em 2002/1, na condição de professora de produção textual que produz o mesmo texto solicitado aos alunos) 

Depois de passar pelo curso de História – em que sonhava ser arqueóloga no Egito – e pela Publicidade – jurava que ia ser concorrente do Olivetto,  o fato de eu ter escolhido ser professora de português mostra algumas coisas a meu respeito. Na primeira fase, o deslumbramento com a literatura: nas particularidades das histórias vividas pelos personagens, um pouco da minha história pessoal – as tragédias gregas e poemas românticos da adolescência, um vulcão em permanente erupção. Nos romances regionais da colonização italiana, onde nasci, as margens da serra gaúcha desenhando os limites da  minha infância: verdes, rios, vales, estradas de chão em que transitavam carroças e o cheiro de uva vindo dos intermináveis parreirais, no verão, e no outono, aquela camada de dourados das folhas das videiras sob o céu azul. Vista com os olhos espremidos por causa do frio outonal, essa cena dos dourados e avermelhados cobrindo as marcas da colheita  pelas colônias do interior de  Flores da Cunha era o lugar de O Quatrilho, transformado em filme; na troca de casais anunciada pelo jogo de cartas, a infidelidade aos olhos dos conservadores; aos olhos dos outros, a busca da felicidade redentora de casamentos arranjados em nome do aumento dos hectares da colônia. Na segunda fase, o estudo da sintaxe em três intermináveis semestres; uma teoria defendia o substantivo/sujeito como o mais importante núcleo frasal; outra teoria indicava o verbo; e eu, no meio das teorias, me perguntava se essas diferentes correntes teóricas da sintaxe não revelavam o dilema da literatura e da filosofia: é mais importante quem faz (ser-substantivo)  ou o que se é (ser-verbo)? Na ausência de respostas, o caminho da graduação avançava pelas descobertas da semântica – eu, que àquelas alturas, procurava dar um sentido à minha vida … depois pela pedagogia, à medida que ia me vendo como professora, exorcizando modelos de professores de português, como parte da preparação, para pelo menos evitar a repetição de tudo aquilo que – como aluna de primeiro e segundo graus e como estudante de Letras –  eu sabia que não adiantava. Entre a literatura e a sintaxe, a morfologia, a lingüística, a fonologia e o mundo de minhas ignorâncias se desfraldando bem debaixo do meu nariz. No meu discurso de formatura, poucas certezas e muitas perguntas. A principal delas: o que fazer quando eu entrar em sala de aula? Hoje, depois de quatro anos de ensino de produção textual, depois de 32 turmas,  1300 alunos e seus mais de 15 mil textos, algumas convicções: sei ensinar aquele tipo de ensinagem que faz o aluno dar de si o melhor possível, amparando-o metodologicamente sem, entretanto, atribuir-me o papel de ensinar-lhe aquilo  que ele não está interessado em aprender. E aí, o velho latim ensina que interesse significa “estar entre” (inter – esse: verbo ser). Todos os dias, a cada aula, a cada aluno, a  cada texto, estou, portanto, tentando ser Ester. E ser Ester é diferente de estar Ester, assim como ser professora é diferente de estar professora.


O famoso de revista

“Tipos brasileiros” é a seção da revista Piauí que publica textos de descrição de tipo. O texto mais recente é “O Famoso de Revista” (Piauí nº13, outubro/2007)


O Contestador em Causa Própria

(de Eucisbaldo Mattos, publicado na obra de GUEDES, Paulo Coimbra. Manual de Redação – UFRGS, 2002)

         Os professores que acreditam em uma sala de aula aberta e democrática, que valorizam a participação do aluno, a discussão, o debate de idéias, devem esses professores, especialmente se jovens e inexperientes, aprender a distinguir, o mais rápido possível, entre o aluno crítico e o contestador em causa própria. Fazer essa distinção precocemente é fundamental para a eficácia de seu trabalho e para a sanidade de seu relacionamento com a turma. Permitir-se confundi-los por muito tempo pode custar-lhes a perda da objetividade em seu trabalho e o naufrágio de todo o processo ensino – aprendizagem.        O primeiro dado a observar é o pressuposto de onde partem as manifestações de um e de outro. Enquanto o aluno crítico volta seu interesse para o conteúdo da disciplina que está sendo trabalhada, o contestador em causa própria preocupa-se fundamentalmente com o método com que a matéria está sendo lecionada e com o tipo de relacionamento que o professor estabelece com seus alunos. O aluno crítico sabe – às vezes até mesmo por intuição – que a verdadeira relação que o liga ao professor é a ciência, aquele processo que precisa ser construído individualmente, do qual o professor é apenas um canal de acesso, ao lado de outros, como livros, filmes, revistas, laboratórios, que ele, aluno interessado nessa autoconstrução, pode também mobilizar. O contestador em causa própria vê no professor, especialmente na aula expositiva do professor, o único meio que pode levá-lo à assimilação do conhecimento necessário para resolver exercícios, provas, trabalhos e questões de vestibular, que ele considera como a única finalidade de seu aprendizado.        Esses diferentes pressupostos condicionam as atitudes de um e de outro diante do trabalho: o aluno crítico aceita os desafios propostos pelo professor para, se for o caso, questionar a utilidade desse trabalho na sua formação pessoal. O contestador em causa própria costuma rejeitar preliminarmente qualquer tarefa que lhe possa exigir mais do que o trabalho de sentar em aula e escutar com atenção semidispersa a fala interessante e entusiasmada do professor. Cuidado, no entanto: ele nunca rejeita essas tarefas alegando as dificuldades que elas podem trazer. Costuma tachá-las de desinteressantes, de desnecessárias, de arbitrárias, de alienantes, de repressivas, de autoritárias e de outros adjetivos do glossário do pedagogês modernoso que os alunos já manipulam com muito maior desenvoltura do qualquer professor. Isso não quer dizer que não haja alunos críticos implicantes, mas esses, rapidamente, no correr da discussão, esquecem as eventuais questões secundárias nela implicadas para concentrar sua argumentação em torno das questões centrais da matéria. Quando chega a contestar a validade da tarefa é quase sempre capaz de mostrar exatamente o ponto em que ela falha, ponto que ele geralmente ignorou para poder dar um bom termo a seu trabalho, fazendo, desse modo, na prática, a crítica do método proposto.        O aluno crítico aceita os desafios do professor e propõe desafios ao professor, mesmo que esses lhe custem mais trabalho. O contestador em causa própria escamoteia os desafios do professor atrás de uma barreira de adjetivos e jamais se atreve a propor em substituição ao trabalho que desqualificou um outro que seja interessante, necessário, democrático, libertador, etc.        Uma situação privilegiada para estabelecer uma nítida diferença entre esses dois tipos de aluno é a avaliação, seja ela de que natureza for. Dificilmente o aluno crítico alega merecer um conceito mais elevado do que aquele em que foi classificado e, se o faz, não questiona com base em comparação com algum colega que teria feito menos do que ele, mas procura saber quais seriam suas deficiências em relação ao domínio global da matéria. Já o contestador em causa própria é um exímio contabilista do desempenho alheio e do próprio: sabe na ponta da língua quantas vezes participou em aula, isto é, quantas vezes abriu a boca para dar palpites, e cobra, basicamente, os mínimos necessários para ser enquadrado em tal ou tal faixa de conceito. Enquanto o aluno crítico faz sua tranqüila e conscienciosa auto-avaliação, e é capaz, até mesmo, de desprezar em nome dela, a opinião expressa pelo conceito do professor, o contestador em causa própria mede-se exclusivamente pelos bons resultados que sua caderneta ostenta e atira nos ombros do professor a responsabilidade pelos maus.        Desqualificar as críticas do contestador em causa própria, desmascarando os pressupostos que as motivam é provavelmente o único recurso de que dispõe o professor de ânimo democrático e aberto para manter a sanidade de seu relacionamento com a turma e a eficiência de seu trabalho. Verdade que não é uma tarefa simples. Exige muita convicção e envolve o risco de indisposição com boa parte da turma, pois a contestação em causa própria é, ao lado da cola, da encomenda de trabalhos, da assinatura em trabalho de grupo feito por colegas, e outros procedimentos já consagrados pelo uso, mais uma forma de tirar vantagem em tudo sem muito trabalho, como manda a boa lógica do nosso capitalismo financeiro dependente.


A revolta dos bichos

“Animais soltos em rodovia estão matando motoristas” (Jornal da Cidade, 20 e 21 de janeiro, manchete de capa) 

O primeiro caso foi o de um jegui. Inconformado por ter sido substituído por uma moto, depois de anos e anos de trabalho sem as merecidas cenouras e os dias de repouso em dias santos, avançou a pista e se fazendo de tonto chegou mansinho no cara que trocava o pneu. Ficou ali, como extraviado estivesse, e o homem nem bola pra criatura. Depois de ter forçado com o pé a chave de roda no último parafuso e num movimento contínuo endireitado o corpo com a ferramenta na mão, o homem enxugou com a outra o suor da testa. Neste momento de cansaço e calor e suor e frustração porque ia chegar atrasado na festa, o homem foi atacado pelo jegui. Sua índole subserviente e plácida ficou no pasto. Ali, na beira da pista da beerre, o jegui se comportou como se touro fosse, e duas ou três corcoveadas foram suficientes para o homem jazer sob o sol e na quentura do asfalto. Do pasto do outro lado da pista, um cavalo observava orgulhoso a índole transformada do mamífero. Sempre achou que se não fossem as patas curtas, a lerdeza e a mansidão, quase passava por um pônei.  

O segundo caso foi o desse cavalo. Branco. Sem raça definida. Mas que também prestava bons serviços de um pasto a outro das vizinhanças há muitos anos, levando ora a colheita, ora as sementes, ora o adubo, mais ou menos trabalho a depender da seca. Isso sem contar as idas à igreja com a gentarada toda na carroça, aumentada a cada sítio na direção da cidade. Também se comportou como se touro fosse. Trocado por um trator e deixado ao léu, esperou e esperou e esperou. Queria pelo menos pegar um parente do cara que o explorou tanto tempo. No abandono das terras ressequidas, pasto ralo e água pouca, ficou só de tocaia. Conhecia os hábitos familiares. E o dia chegou. Na reta mais comprida do trecho, ficou à espreita, como se caçasse. Lembrava do ensaio tantas vezes calculado: os galopes, a velocidade necessária, a posição do sol. Na linha de saída, saiu galopeante quando viu a picape preta surgindo lá longe. Quinhentos metros, e ele indo, trezentos metros e ele indo, duzentos, cem metros, e ele indo. A 50 metros da picape o motorista não distingue o cavalo branco do areião ensolarado à frente. Só perto, bem perto do bicho é que a picape deixou um rastro preto no chão: o freio não segura, a picape se desgoverna e tomba, capota, ricocheteia, o motorista morrediço caído sob o sol e na quentura do asfalto. Do pasto do outro lado da pista, uma vaca bonomiosa rumina entre dentes que agora é sua vez.  

Pois esta criatura de olhar cândido tem uma história ainda mais humana. Era o bicho de estimação de uns retirantes no verão implacável de 2000. O caçula a batizara de Mimosa ainda bezerrona, a cara mansa e o olhar molhado. E lá iam eles, pobres, falidos e famélicos. Nem pensar matar Mimosa pra comer. O guri mais moço morreria junto e, além disso, precisariam dela quando encontrassem uma terra boa de plantar. E assim, numa noite em que os retirantes pararam pro descanso seu e do bicho magérrimo, o céu ficou de chumbo. Coisa rara por essas terras, as nuvens foram se adensando a cada lufada do vento, 40, 60, 80 por hora, enquanto se arregalavam os olhos daquela gente assustada com o que prometia ser a noite. No alvoroço em correr pra sair do céu aberto e revoltado sobre suas vidas, a Mimosa se escorregou de mansinho do lugar que escolheram pra se proteger. Sabia do risco e se escafedeu no campo aberto. Uma única árvore no meio do descampado. Tudo ressequido, mas pelo menos a grossura do tronco estóico e centenário poderia oferecer algum abrigo aos corpos esqueléticos, se esgueirando na árvore que fazia um vácuo da chuva armada de branco. Foi ali que caiu um dos inumeráveis relâmpagos. Carbonizadas as gentes, suas trouxinhas de roupa, suas duas panelas e as migalhas da fome. Mortalha do temporal. Foram dar conta do sumiço deles só muito tempo depois, fugidos da seca, nunca chegados a lugar algum. De Mimosa, tomou-se por pressuposto que havia sido sacrificada em nome da fome. Ninguém procurou por ela, ninguém perguntou por ela e ficou errante, ruminando cá e lá o pasto que se avultou maior por uns meses depois da tempestade. Nos povoados por onde esteve, se alguém humano a viu sabia que tinha dono e era só uma questão de tempo. Deixavam-na ficar. Deixavam-na ir. E nesta errância desgarrada de manadas, feita de mugidos solitários durante sete anos, a identidade perdida nos seus iguais, comportou-se como se touro fosse. Plantou as quatro patas tomando um lado da pista feito uma arena, e com as dianteiras alternando-se, atritava a lista amarela dupla em brabezas nunca vistas. Parada ali, esperou. Atacaria quem primeiro aparecesse. Viesse de uma pista ou de outra, o automóvel, caminhão ou moto faria sinal de luz, buzinaria insistentemente. Quando desviou pra outra pista pra se salvar do impacto com a vaca imóvel, a moto levou uma rabada forte o suficiente pra derrapar no asfalto. Moto e motorista se esfolando por 50 metros sob o sol e na quentura do asfalto. Depois do último gemido do motoqueiro, se ouviu um sonoro mugido. Era o sinal.

Reuniram-se os três: ela, o jegui e o cavalo e foram prestar contas ao touro mestre. Abandonado por ser estéril e substituído por inseminadores artificiais, lhe sobrara entretanto o ardil para liderar a revolução dos bichos: decidiram arrebatar outros largados na vida pra formar a gang assassina da beere. Aceitariam gatos, cachorros e ovelhas, sem desdenhar sequer de pássaros e répteis. Mal sabiam as gentes o que ainda estava por vir.


Grisalhice

O peito ainda não caiu, coxa e panturrilha durinhas, bundinha empinada, não faz um ano ainda que dei meu primeiro beijo, pele macia, lisinha e sem manchas, os longos dedos das mãos e os caninos implacáveis de cada lado do meu lindo sorriso ainda não têm o amarelão da nicotina:  e ainda assim, no fulgor da juventude, no ápice da produção hormonal, no pico dos fluídos corporais, lá está ele: o fio de cabelo branco encontrado perdido entre a vastérrima cabeleira. Exemplar único da espécie no meu território capilar, passa a ser explorado com uma mistura de êxtase “estou ficando velha! adeus adolescência problemática!” e desespero “estou ficando velha! socorro, alguém me ajude!”. Com polegares e indicadores, isolo o fio com precisão cirúrgica, organizando à esquerda e à direita a cabeleira castanha. Ao esticá-lo para cima, procuro um ângulo diante do espelho em que o fundo fique mais escuro e reduzo a iluminação do banheiro para que aquela linha prateada possa deixar traçada uma divisória clara no fundo da imagem refletida: à esquerda do fio de cabelo branco, toalha de banho, armário, janela; à direita do fio de cabelo branco, box, parede, porta.  Ao esticá-lo para baixo, a extremidade toca a leve cavidade que há entre meus seios; mais acima, peito, queixo, lábios, nariz, testa. Se pressiono o resistente fio branco contra meu próprio rosto, uma microtrincheira se forma na ponta do nariz e verticalmente demarca territórios de guerra muito parecidos: o lado esquerdo do meu rosto; o lado direito do meu rosto. Este foi o primeiro, inesquecível. Depois dele, outros fios brancos foram se acumulando ao longo de duas décadas e sendo implacavelmente cobertos por camadas sucessivas de tinta: caju, marrom e berinjela enquanto morei no sul; tons mais claros, quase loira, no verão eterno destes trópicos sergipanos. Os novinhos que ainda vêm se somar à pródiga cabeleira já nascem branquelos, rijos e rebeldes: não há gel, creme, espuma e quejandos da doma capilar que dê jeito – eles nunca ficam no lugar onde os deixei. Mais recentemente, e já que tive que adotar exercícios de alongamento três vezes por semana, desisti dessa ginástica de dissimulação desta entidade quarentona chamada cabelos brancos. Agora os tenho deixado vir, e a cabeleira está marcada em duas cores: o quase cobre nos resquícios indisfarçáveis da tinta e os grisalhos, estes senhores a quem concedo honras de chefe de estado em homenagem aos meus 45 anos. Cheguei a planejar vestir de agora em diante só cinza, preto e prata, pra combinar com os grisalhos: mas não me concebo sem meus laranjas e goiabas, sem os beges e amarelos, sem os verdes e pistaches. No meu guarda-roupa, uma aquisição aqui, outra acolá, se acumulando em combinações coloridas. Na gavetinha do armário do banheiro, nenhuma tinta de cabelos. No espelho, descobertas de uma mecha mais clara aqui, e outra acolá, de um prata ainda mais reluzente. Brilho, luar, tempestade. Mas há garantias: o sol sempre é aquele espetáculo.