Arquivo do mês: dezembro 2007

Memória

Não sei se por excesso de nicotina ou pelos efeitos dos 45 pré-menopáusicos, ou, sabe-se lá, por uma combinação amnésica disso tudo, sei que ando esquecida: anotei num lugar só os sarameleques desta investida internáutica com alguns apelos gráficos que agora NÃO LEMBRO MAIS O QUE SIGNIFICAM!  ///*#*#/// (na inabilidade em localizar e inserir e-moticons, recorro ao capitão Hadock, – Por mil raios e trovões!). Aquele coração, por exemplo, desenhado bonito ao lado da coluna msn será que quer dizer o quê? E aquele “h”  e o “p” iniciando e terminado a senha do igoogle, ai, será altura e peso, ou altura e tamanho do pé? A segunda alternativa me parece  mais lógica, pois é um número estável deste os 13 anos, quando meu pé virava a esquina antes de nós – eu e meu nariz, entidades quase autônomas àquela altura dos 1m80 e 53 quilos. Mas isso me lembra que estes espasmos desmemoriados já aconteciam lá atrás, ponha 20 anos nisso: na época do cursinho-pra-passar-na-federal, ninguém inventada menmotécnicas tão refinadas como as minhas: claro, na hora H, lembrava do esquema, quase um calidoscópio, mas sabe-se lá a que aquele troço remetia. Em todo caso, hoje apliquei um adesivo de nicotina, 21 gramas (o peso da alma) já que com a idade não há nada que possa se fazer.

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Robô

Shopping, 11h30, quase ninguém na praça de alimentação, só eu naquele restaurante. Faço o pedido, só eu no caixa, estendo o cartão e a moça – Dinheiro ou cartão? E eu ali, com o cartão estendido na direção dela, me recuso a responder. Ela insiste – Dinheiro ou cartão? Eu só olho, esperando pra ver quanto tempo mais ela ia demorar pra me enxergar. Meu cartão ali, à altura da mão dela. Não satisfeita, reitera – Dinheiro ou cartão? Aí, só aí é que então ela me vê, cliente/consumidora/gente, com meu cartão na mão em resposta à sua pergunta robotizada.


Tecaésse

Serviço de táxi, domingo: peço o serviço e o tempo de espera: 10 minutos, diz a moça. E eu me arrumo e desço. Passaram 15, reclamei; passaram 20, reclamei, nos 30, já tava bufando e reclamei de novo. Resposta da moçinha: – É que no domingo há menos carros em serviço. Sim, digo eu, por isso mesmo eu perguntei qual era a demora e você anunciou 10 minutos. Sim, disse ela, mas é que tem pouco carro e precisei deslocar um de outro bairro. Sim, digo eu, mas antes de você me dizer que são dez minutos, você tem que prever isso, é domingo, etc., etc. E ela ãh?


Tecaésse II

Chamo o serviço de táxi pra um compromisso importante. Nem pensar em pegar ônibus e perder a hora. Desço do terceiro andar quando acho que está demorando muito. E o carro ali, me esperando. Xingo o porteiro dizendo que ele tinha que ter interfonado e ele que não, que o motorista apenas estacionou o carro e não disse nada. Dentro do carro, xingo o motorista: Como é que vou saber que o carro já chegou se o sr. não diz nada pro porteiro? E ele, áh, tá.


Nos dois shoppings da cidade, nem por decreto-lei. Então me rendo e vou ao comércio – aqui significa dizer que se vai às lojas do centro da cidade – à cata de calçados nº 40. Como já os sei difíceis de achar – às vezes mesmo lá no sul – antes de me encantar com modelo e cor faço a pergunta que me poupará frustrações: – Tem algum modelo número 40? Cumprido o ritual, a moça que me atende põe a mão sobre boca e sufoca a gargalhada como se fosse um espirro.


Lá pelos 80/90, se fazia muita piada com as gafes informáticas e os micos internéticos  a que ficava vulnerável a geração dos que aprenderam que não podia mexer no rádio e muito menos na tevê, cujos botões mágicos operavam funções binárias – liga/desliga, agudo/grave, brilho/contraste.  Ainda na mesma época, nós – filhos dos 50/60, ainda nos maravilhávamos com o mundo a cores, na telinha, sem aquele celofane multicor como uma placa que instalava um arco-íris na sala de estar: da cabeça às patas, Rin-tin-tin era camaleão, o Zorro, mais falastrão, e perdidos no espaço, o Cid Moreira, ainda de cabeleira, e o doutor Smith, sempre com sua rinite, seriam os visionários do movimento gay: aquela horda colorida a passos orgulhosos na Paulista. Disso ao controle remoto passeando em telas planas e microsystems há histórias no meio do caminho. Histórias que, vistas daqui, são um marcador do pós-moderno: do rádio à televisão tecnologicamente requintados a cada vez em quando, dá entrada na cena empresarial e quase concomitante na cena doméstica a nova engenhoca humana. A minha começou com um PC 286. De segunda mão, pago em intermináveis parcelas em dólar. No início dos 90, ter um era chique, quase uma condição ao passaporte pro século XXI. O word era Perfect, que combinava as teclas de F1 a F12 com Ctrl e Alt, me oferecendo negritos, tipos de fonte e outros recursos gráficos. Deu pau, um dia, chamei o técnico e ele recomendou fazer o terra: um pneu sob a mesa do computador.  Dele pra um 386 – a glória, outro negócio da china: a empresa da família, que sucumbira a um cruzado parecendo ter vindo da esquerda, se desfazia daquela máquina que pesquisava automóveis comprados via internet. No negócio, empataram minhas economias emprestadas pra ajudar a salvar a família da falência, e no pacote entrou um celular – o tijolo, em cuja conta eu pagava também as ligações que recebia. Devolvi este presente de grego no segundo mês. Fiquei com o computador e dei como entrada num outro negócio: um 486, huau!, deste a um Pentiun II, em seguida rebatizado como lentiun zero.  Assim, em obsolescências praticamente diárias, em um determinado ponto decidi que o afã de ter o mais moderno PC se transformava em sofreguidões da modernidade. Me aquietei lá pelo segundo Pentiun, depois de ter o primeiro detonado por um vírus letal: out lock sem antivírus, nunca mais.  Agora tenho um cujo nome não lembro, evidência da proteção contra as fronteiras do obsoleto. Sei que funciona, tem um monitor de 17 polegadas – nada assim, em nome da modernosa tecnologia – apenas uma adequação à visão que se tem de perto aos 45 anos: quanto maior, melhor. E agora, milhares de horas-bunda diante de um PC, conquisto a banda larga. Nunca mais o chiado de uma tentativa de achar uma linha vaga no labirinto da conexão discada. Nunca mais perder a conexão quase no finzinho daquela pesquisa imensa no google. Nunca mais a conexão cortada bem no meio do e-mail. O divertido agora é anunciar para minhas amigas que tenho um blog. “Blog, o que é isso?”, questiona uma. “Tá, eu vô lá e faço o quê?”, sofre uma outra. Outra, por e-mail, faz um comentário sobre os textos que leu, mas não tem conta no hotmail e se recusa a ter outra além da sua.  Lá pelos 80/90, a sacanagem era ensinar primeiro a ligar o fio na tomada, e só depois acionar o power.  Agora, fio e tomada garantidas, me imbricando na engrenagem mais sofisticadamente simples a cada dia, a sacanagem é querer inserir fotos no meu blog. E não saber.


então era verdade. ela morava mesmo ali, nome e sobrenome confirmando presença. aperto a campainha, nenhuma chance de errar, óculos deixado na bolsa. letras grandes, botões grandes, isso é que é civilidade. me recebe o oi tia, naquele turvor que fica entre a alegria e alguma espécie não nomeada de constrangimento. me puxa pro café na cozinha. fogão de filme, bom pra fazer torradinha, o pão direto na chapa? alguém liga, ela em inglês enquanto de fora chegam outras línguas. foco o ouvido no pátio vizinho, um gramado suspenso na babilônia sobre vidraças através de onde se adivinha o aconchego da lareira, chaminé em nervo exposto aos azuis e ao chumbo. colho a língua que vem dali e respondo não quando ela diz tia mais café, reconheço o mascote gremista, fidelidade à nação tricolor, os canarinhos reclamam do mofo do armário e eu uma pelota ela ri e desconfia se convido prum  baseado, gíria dos setenta, sabe lá, e eu rio e que não, é que eu trouxe um presente. ela abre e diz bora. antes de trancar a porta, desengaiola o canarinho, ponho meu carmim colorado pra assobiar em ré maior e de botas mesmo faço meu primeiro gol em solo estrangeiro quando ela atrasa na queda e se deixa esparramar na risada trincada de dentes. a bola um troféu sobre a mesa de um café, peço chocolate e ela só água e me conta que ali do outro lado da rua é que tem a feira das fotos. a moldura das meninas de membrana fica na outra, depois a gente vai, sandra bullock, alguém pergunta e ela que não, ri, imagina a bullock com a camisa canarinho, nem se dá conta de que  se parece. o afã cresce entre o vácuo dos goles nas vertigens do silêncio. me socorro no olho dela, o mel me devolve luz e silêncio. combinamos jantar macarrão, aquele que nunca fiz no brasil. cebola manteiga tomate na esquina e depois sobre a mala ainda feita, um vinho de flores em plena bélgica. decido destravar minha língua – até quando meu deus.