Discurso de paraninfa – Jornalismo 2007/2

Professora doutora Beatriz Colucci, coordenadora do curso de Comunicação Social da Universidade Tiradentes; professor doutor Ronaldo Linhares, homenageado desta turma de formandos; demais colegas da docência do jornalismo; prezados pais, familiares, amigos, filhos, namorados e namoradas, esposos, esposas, parceiros de vida de cada um de vocês. 

Caríssimos jornalistas da turma 2007/2 

Esta é a minha primeira vez como paraninfa. Estou com um friozinho na barriga. Minhas mãos tremem e minha voz hesita. Mas meu coração exulta em vivas de alegria. Alegria porque a generosidade de vocês, ao me honrarem como vossa paraninfa, inaugura na minha vida uma nova espécie de alegria, que faz parte agora do meu inventário pessoal. 

E esta nova espécie de alegria se deve ao fato de vocês terem me escolhido para ser paraninfa porque fui professora de vocês. E ser professora é a melhor parte de mim. É o meu melhor jeito de estar e de ser Ester neste mundo.  

Mas me escolher como paraninfa pouco diz a meu respeito: se trata de vocês, porque entendo que, à maneira de um espelho, meu jeito de ser professora revelou sobre vocês qualidades desconhecidas, méritos impensáveis, habilidades surpreendentes. Eu um espelho devolvendo a vocês o que vocês têm de melhor.

E nisso reside uma das belezas da vida. E nisso reside também o encontro pedagógico. E nisso reside também o devir das aprendizagens. Por isso a alegria de estar aqui, me dirigindo a vocês nesta solenidade que é a representação de um percurso. Da finalização de um – e do começo de outro. Ponto de chegada.  Ponto de partida.

Mas também uma encruzilhada que aponta escolhas possíveis e decisões a serem tomadas. Como a vida: que não se descola da escolha profissional, que não se desvincula do jeito que somos, do jeito que escolhemos ser. 

Talvez o melhor desse momento de alegria seja sua potência, seu há de vir, seu fôlego renovador pros passos que se seguirão ao último brinde pela conclusão da graduação. 

E pro devir, carregamos amanhãs plenos de ontem, como disse Ronaldo Linhares. Amanhãs plenos de ontem ….  parece o poeta Manoel de Barros, que escreveu assim: 

“Notei que descobrir novos lados de uma palavra

Era o mesmo que descobrir novos lados do ser.

A gente é cria de frases.” 

Se a gente sai da palavra e vai pro texto, texto que nos ocupou durante quatro semestres, se pode parafrasear o poeta assim: 

“Notei que descobrir novos lados de uma história

Era o mesmo que descobrir novos lados do ser.

A gente é cria das histórias que contamos.” 

Pois bem, ao escrever esse texto, que é pra vocês, descobri um novo lado do meu ser: descobri que vocês são constitutivos da minha história de vida, descobri que vocês são constitutivos do jeito que escolhi estar e ser Ester no mundo,  pois eu sou cria dos textos que os orientei a escrever, eu sou cria da professora que vocês contribuíram para que se concretizasse em mim, eu sou cria do olhar de vocês sobre o meu jeito de estar e ser Ester no mundo. 

Meu desejo – o que fica junto com esta alegria compartilhada –  é que cada um de vocês possa achar um novo lado de si mesmo em cada história que for contada, em cada notícia que for dada, em cada texto que for escrito. 

Porque assim o jornalismo será a expressão de um ponto de vista particular que se oferece ao conhecimento público; porque assim o jornalismo será um jeito de olhar o mundo com a sempre nova e atenta curiosidade  de um gato a passear pelo mesmo jardim pela centésima vez. 

E mesmo assim, mesmo que o olhar felino tenha estado ali dezenas e dezenas de vezes, nos desdobramentos das histórias tudo está ainda a ser descoberto, tudo está ainda por ser percebido. Tudo está ainda para ser contado.  

Ao trabalho, então. Contem. Mostrem. Revelem, desvelem. Descubram. Escrevam. E que em cada linha, em cada história, tenha sempre um tanto do melhor de cada um de vocês. 

Cum toto cordis, se diz em latim; em português, se diz “com todo meu coração.”


4 responses to “Discurso de paraninfa – Jornalismo 2007/2

  • Monica Mambrini Schneider

    Queria conseguir escrever bonito assim.
    Mas esse dom ficou de herença para sua sobrinha, nossa
    Kika, com o acréscimo do poder das lentes, que é quando ela mais fala da poesia da vida.

    Mana: vc já me viu usando pincéis? é aquele desastre, bem ao contrário do que acontece contigo: vc escolhe a cor e vai deixando um desenho na superfície … eu, o máximo que eu consigo, é aquele bonequinho de pauzinho, algo parecido com o desenho do jogo da forca, lembra? pois então; eu nõa tenho o dom da escrita e vc não tem o dom do desenho … dom é o nome que se dá a anos e anos de aprendizagem, anos e anos de experimentações, anos e anos de tentativas e erros … uma hora, acaba dando certo. dom não existe. existe trabalho, investimento de tempo, existe a escolha “quero escrever”, “quero pintar”, “quero fotografar”. com a kika, a mesma coisa: escreve desde pequena, provocada pela tia aqui; fotografa há muito tempo. não é nem genética e nem dom: é resultado de trabalho, muito trabalho. bj

  • Anderson Ribeiro

    Isso foi um discurso? Isso foi um EU TE AMO dissertativo. Maravilha!!! Estar Ester de fato é maravilhoso. Ainda bem que você passou por nossas vidas.

  • Wilma Ramos

    Nossa, quanta emoção!
    Se a senhora ficou feliz por estar lá, dando seu discurso, imagina quem estava na platéia ouvindo ser o espelho de Estér Mambrini… Devem ter se arrepiado todos.Privilégio de poucos.

    Wilma Anjos

  • Luiz Arnaldo

    …ESTE ESTADO SIM ,TALVEZ POSSA SER CHAMADO, MEDITATIVO, COMO A FLOR, SIMPLESMENTE VERBO.QUISERA SER MERECEDOR EM SABER SE A VIVÊNCIA EXALA TAMANHO AMOR, QUANTO AS PALAVRAS TEXTUALIZADAS, NESTA DEMONSTRAÇÃO SENSÍVEL E PLENA…

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