Pergunte ao pé
Se ele quer ir
Pergunte ao pó
Se Arturo virá
Pergunte a mim
Se quero que venhas
Eu direi sim
Às mamas, com carinho.
Abril 6, 2009
Sempre, invariavelmente, sempre que não posso evitar a mamografia, saio da clínica ainda secando as lágrimas e, enquanto as mamas voltam ao seu estado original pré-prensagem, entro na primeira lojinha que aparecer. Me dou um presente, bem bonito, abro exceção e pode até ser um que nem seja tão barato.
Afinal, eu mereço.
Quem inventou essa máquina deve ter tido por referência as bigornas medievais; só assim pra tentar entender o suplício a que cada mama é submetida ao ser prensada pela máquina. A atendente recolhe a massa mamária primeiro em lateral, deposita a mama na prancha gelada e cheirando a Veja cítrico; ajeita o braço acima da mama, a mão segurando um puta-merda também gelado, recurso que evita que a gente despenque de lado, ficando literalmente pendurada apenas pela mama prensada pela máquina. Mas antes disso, tem o ponto da prensa: a máquina vai apertando devagarinho, aos poucos, e quando você já esperneou no seu limite, a torturatriz aperta ainda mais um pouco, o golpe final antes de acionar o botão que radiografa a mama agora em formato de panqueca.
A glória é que o mecanismo é automático: ao bip se segue imediatamente a libertação. O céu se abre em dois e, já no paraíso, você fica repetindo “tá inteira, tá inteira” depois de investigar se a mama não se esfacelou. Você suspira, enxuga no rosto o rastro das lágrimas que foram parar no ouvido (lembre, o pescoço está rotacionado em alongamento lateral máximo) e sabe que tem mais uma mama. É a hora em que não dá pra deixar de pensar sobre essa coisa ambivalente: “Que bom, só tenho duas! Que bom, tenho as duas!”
E dá-lhe o processo todo na outra mama. A essa altura, você se acha a criatura mais injustiçada do planeta e, quando acha que acabou, quando já tá correndo dali enquanto ainda abotoa o sutiã, a operadora da máquina de tortura lhe segura pelo braço e diz que falta fazer as radiografias frontais. A mama é agora recolhida pra frente e depositada na bandeja que continua gelada e ainda rescende a Veja cítrico; ali, nessa bandeja espelhada e esquadrinhada geometricamente para capturar as minúcias da mama, lá vai ela sendo prensada a ponto de virar outra panqueca, fininha, fininha, enquanto o pescoço é fletido para trás sob os auspícios e com a inestimável colaboração da engenhoca. É simultâneo: quanto mais minha mama é separada do corpo pela prensagem entre as duas bandejas, mais minha cabeça é jogada pra trás, a ponto de ficar em dúvida se conseguirei sair disso inteira.
O bip redentor é o terceiro de uma série de quatro.
Já suei bicas de dor, a cara inchada de choro, o pescoço doído e a autoestima zerada. A essas alturas, enquanto tento reencontrar o eixo de alinhamento vertical do meu corpo, reclamo do gelado do chão, peço um tapetinho e ela que não, que não pode haver pó pra evitar que uma centelha, uma fagulha, um rabisco, um fiapo qualquer se interponha entre a bandeja e a mama, deixando rastros que podem confundir diagnósticos, ali, onde o diâmetro do microscópico ponto e os milímetros na dimensão do cisto podem ser o limite entre os benignos e os malignos. Bom, tudo bem, não pensei num tapete felpudo e macio. Pode até ser um papelão, um mero papelãozinho corrugado, apenas para relativizar paliativamente a desumanidade do troço.
Mas ainda falta a quarta radiografia. E acho que agora entendo os superatletas que se superam nos últimos dez metros de corrida. Resignada, submeto-me. Bip.
Enfim sentada, cansada, estressada, dolorida, acabada, começo a me vestir e a moça diz que ainda não, que vai ver se está tudo direitinho ou se precisa repetir alguma. Só de pensar nisso, as lágrimas voltam copiosas, e deixo-as correrem livres também quando já estou no saguão da clínica.
Nem disfarço. Devia estar na declaração universal dos direitos humanos: “Toda mulher tem o direito de chorar antes, durante e depois de uma mamografia”. E claro, como um sinal de protesto, tem também todo o direito de se dar de presente uma roupa bem bonita.
Mesmo que, para isso, tenha que usar o cheque especial.
Os chamados de pássaros e as marcas deixadas por lobos para delimitar seus territórios não são menos formas de linguagem do que as canções dos humanos. O que é distintamente humano não é capacidade para a linguagem. É a cristalização da linguagem como escrita. (John Gray, em Cachorros de Palha)
ri beira
Fevereiro 21, 2009
e agora, o que dizer euzinha, andersoniando ribeiras, veredas e outras estadas e (des)caminhos?
agora nem fico mais com inveja do cleo mar
como dizem os taxistas: tks
com emoção
Sei o dia pela data do pão.
Não fossem as modernas validades,
saberia apenas o pão.
120 vezes – ou a diferença entre de e da
Junho 6, 2008
Já chorei mais de 120 vezes, mais de 120 litros de lágrimas. Nos últimos cinco anos, degustei umas 12 caixas de vinho, tendo quebrado menos de 12 taças; usei mais de 120 quilos de tomate e talvez 120 cebolas pro molho de 12 mil pacotes de Barilla. Mais de 120 mil beijos; transas, um pouco menos; namorados, parei de contar no 40º. Já escrevi mais de 120 cadernos, já li certamente 12 mil livros. Já comprei mais de 120 calcinhas e com certeza mais de 120 blusas, mas nunca tantos calçados, calças jeans e casacos de inverno. Bolsa, talvez 12 ao todo. Já cortei o cabelo mais de 120 vezes, suspiros ultrapassam os 120 milhões, idem pra sorrisos escancarados. Não tenho 120 cáries, mas certamente mais de doze. Fumei, sim, mais de 120 mil cigarros (puts!) e juntando tossidas e pigarros, talvez outro tanto. Já viajei de avião mais de 120 vezes, conheço mais de 120 cidades, mas não chegam a 12 os países. Já vi 12 mil filmes, mas há seletos 12 na lista dos que mais adoro. Já tomei uns 120 mil banhos, se contar os de rio, piscina e mar e já mudei de casa 12 vezes – tive oito (!!!!!!!!!!) geladeiras diferentes, pagas em talvez 10 ou 12 parcelas; idem para microondas, som, tevê tela plana e computador. Já paguei o correspondente a mais de duas vezes 120 meses de aluguel e de condomínio. Mas nunca, em nenhum momento da minha vida, tive 120 prestações pra pagar: lanço-me nessa dívida longeva pra ser, pela primeira vez, não só a dona de casa, mas também a dona da casa. Pelo menos de direito, porque de fato, mesmo, a dona da casa é a Cloé.
Bom, tá, tá, eu sei … a CEF também.
Mas é só pra bichana que arranjei uma cabana especial em cada peça do apartamento com quatro vistas diferentes pro mar.
A gata
Maio 9, 2008
Outra coisa bárbara que entendi com a Cloé: ela vasculha o mesmo jardim a cada vez como se fosse um ato inaugural. É o da casa da minha mãe, que tem árvores, grama, telhados pra escalar e uma fronteira à beira do muro vizinho pra estrangeirar.
Quando vou pra lá e sei que ficarei durante mais de quatro, cinco horas, levo-a pra lhe dar a opção de exercitar a caça aos bichos de verdade: calungos, besouros, borboletas, pássaros barulhentos na mangueira. Bom, tem também as baratas e volta e meia, a epifania de um rato.
Se lhe promovo um passeio cujo brinde é a aparecência de um exemplar dos roedores, é quase uma celebração. Dia desses se traçou com um miudin-miudin, bebezinho ainda, e que festa ela fez. Tem o ritual todo da descoberta, o espreitamento no buraco de onde ele sairá, o rabo movimentando-se sob a batuta do instinto. Se apóia nas patas dianteiras flexionadas ao rés do chão, as de trás apenas o suficiente pra sinalizar o bote próximo: bailarina em ponta de pé potencializando o impulso certeiro. Foi o bicho rabudo sair do buraco e ela se atraca com ele. Ela o domina pela barriga tomando-o entre os dentes, acho que o aperta apenas pra desnorteá-lo. Ela o solta, ele se faz de morto. Ela o provoca com a pata, ele espera um deslize de atenção pra correr pro buraco. Espera em vão. Como o ratinho não dá ares da graça, ela o toma de novo na bocarra e agora começa e petecar com ele: alça o bicho pra cima pra dar com a pata nele ainda em queda livre. O arremesso é repetido e repetido e ainda mais uma vez, numa sucessão de saltos ornamentais sem vara, intercalados por 10 cm de corrida em tempo recorde. Dignidade olímpica. Sob a torcida da platéia que já parou de fazer o que fosse pra assistir a dança, ela descansa um pouco; não, melhor: ela deixa o bicho se refazer um pouco. Morrer logo não tem graça: morrer é quando ele não se mexe mais.
Eu fiquei de lado, ou melhor, de lados: um me mandando correr e tirar o pobre roedor das garras dela, outro me mandando ficar e agüentar os arrepios humanos que me inserem na modernidade higienizada, apesar dos esgotos a céu aberto dessa cidade.
Presumi que ela comeu o bicho: deu uma sumida básica com ele entre os dentes depois de tê-lo extenuado e voltou mais tarde, lambendo beiços, a língua chegando quase às orelhas de pura satisfação. Não havia rastros de sangue nem nos bigodes, nem nos beiços. Aquietou-se na cadeira e nem esbravejou quando a coloquei na casa-transporte. Ao chegar na nossa casa, ignorou solenemente o ratinho de pano e a ração. Deitou-se sobre o lençol branco de linho egípcio e, sem nenhum traço de domesticação, dormiu como uma nobre guerreira.
Em todo caso, no dia seguinte liguei pro veterinário. Depois dos meus dois nãos consecutivos sobre diarréia e vômito, e meu sim sobre a vacinação estar em dia, deu uma sonora gargalhada. Eu me restringi a permitir que seus felinos fluídos internos deixados nas patas e transferidos ao pêlo nos vários banhos diários fizessem lá seu efeito. Me preservei de unhadas de brincadeira e dos beijos de lambida e das patas almofadadas na cara. Três dias de quarentena.
Afinal, domesticada e humanizada, também eu faço lá minhas selvagerias.
A noite tosse trovões
desfilando sessenta passos
de infante delícia
pra lá pra cá
feito um pêndulo
e as setas dos caminhos.