Já chorei mais de 120 vezes, mais de 120 litros de lágrimas. Nos últimos cinco anos, degustei umas 12 caixas de vinho, tendo quebrado menos de 12 taças; usei mais de 120 quilos de tomate e talvez 120 cebolas pro molho de 12 mil pacotes de Barilla. Mais de 120 mil beijos; transas, um pouco menos; namorados, parei de contar no 40º. Já escrevi mais de 120 cadernos, já li certamente 12 mil livros. Já comprei mais de 120 calcinhas e com certeza mais de 120 blusas, mas nunca tantos calçados, calças jeans e casacos de inverno. Bolsa, talvez 12 ao todo. Já cortei o cabelo mais de 120 vezes, suspiros ultrapassam os 120 milhões, idem pra sorrisos escancarados. Não tenho 120 cáries, mas certamente mais de doze. Fumei, sim, mais de 120 mil cigarros (puts!) e juntando tossidas e pigarros, talvez outro tanto. Já viajei de avião mais de 120 vezes, conheço mais de 120 cidades, mas não chegam a 12 os países. Já vi 12 mil filmes, mas há seletos 12 na lista dos que mais adoro. Já tomei uns 120 mil banhos, se contar os de rio, piscina e mar e já mudei de casa 12 vezes – tive oito (!!!!!!!!!!)  geladeiras diferentes, pagas em talvez 10 ou 12 parcelas; idem para  microondas, som, tevê tela plana e computador. Já paguei o correspondente a mais de duas vezes 120 meses de aluguel e de condomínio. Mas nunca, em nenhum momento da minha vida, tive 120 prestações pra pagar: lanço-me nessa dívida longeva pra ser, pela primeira vez, não só a dona de casa, mas também a dona da casa. Pelo menos de direito, porque de fato, mesmo, a dona da casa é a Cloé.

Bom, tá, tá, eu sei …  a CEF também.

Mas é só pra bichana que arranjei uma cabana especial em cada peça do apartamento com quatro vistas diferentes pro mar.

A gata

Maio 9, 2008

 

Outra coisa bárbara que entendi com a Cloé: ela vasculha o mesmo jardim a cada vez como se fosse um ato inaugural. É o da casa da minha mãe, que tem árvores, grama, telhados pra escalar e uma fronteira à beira do muro vizinho pra estrangeirar.

Quando vou pra lá e sei que ficarei durante mais de quatro, cinco horas, levo-a pra lhe dar a opção de exercitar a caça aos bichos de verdade: calungos, besouros, borboletas, pássaros barulhentos na mangueira. Bom, tem também as baratas e volta e meia, a epifania de um rato.

Se lhe promovo um passeio cujo brinde é a aparecência de um exemplar dos roedores, é quase uma celebração. Dia desses se traçou com um miudin-miudin, bebezinho ainda, e que festa ela fez. Tem o ritual todo da descoberta, o espreitamento no buraco de onde ele sairá, o rabo movimentando-se sob a batuta do instinto. Se apóia nas patas dianteiras flexionadas ao rés do chão, as de trás apenas o suficiente pra sinalizar o bote próximo: bailarina em ponta de pé potencializando o impulso certeiro. Foi o bicho rabudo sair do buraco e ela se atraca com ele. Ela o domina pela barriga tomando-o entre os dentes, acho que o aperta apenas pra desnorteá-lo. Ela o solta, ele se faz de morto. Ela o provoca com a pata, ele espera um deslize de atenção pra correr pro buraco. Espera em vão. Como o ratinho não dá ares da graça, ela o toma de novo na bocarra e agora começa e petecar com ele: alça o bicho pra cima pra dar com a pata nele ainda em queda livre. O arremesso é repetido e repetido e ainda mais uma vez, numa sucessão de saltos ornamentais sem vara, intercalados por 10 cm de corrida em tempo recorde. Dignidade olímpica. Sob a torcida da platéia que já parou de fazer o que fosse pra assistir a dança, ela descansa um pouco; não, melhor: ela deixa o bicho se refazer um pouco. Morrer logo não tem graça: morrer é quando ele não se mexe mais.

 

Eu fiquei de lado, ou melhor, de lados: um me mandando correr e tirar o pobre roedor das garras dela, outro me mandando ficar e agüentar os arrepios humanos que me inserem na modernidade higienizada, apesar dos esgotos a céu aberto dessa cidade.

 

Presumi que ela comeu o bicho: deu uma sumida básica com ele entre os dentes depois de tê-lo extenuado e voltou mais tarde, lambendo beiços, a língua chegando quase às orelhas de pura satisfação. Não havia rastros de sangue nem nos bigodes, nem nos beiços. Aquietou-se na cadeira e nem esbravejou quando a coloquei na casa-transporte. Ao chegar na nossa casa, ignorou solenemente o ratinho de pano e a ração. Deitou-se sobre o lençol branco de linho egípcio e, sem nenhum traço de domesticação, dormiu como uma nobre guerreira.

 

Em todo caso, no dia seguinte liguei pro veterinário. Depois dos meus dois nãos consecutivos sobre diarréia e vômito, e meu sim sobre a vacinação estar em dia, deu uma sonora gargalhada. Eu me restringi a permitir que seus felinos fluídos internos deixados nas patas e transferidos ao pêlo nos vários banhos diários fizessem lá seu efeito. Me preservei de unhadas de brincadeira e dos beijos de lambida e das patas almofadadas na cara. Três dias de quarentena.

 

Afinal, domesticada e humanizada, também eu faço lá minhas selvagerias.

Maio 1, 2008

A noite tosse trovões

desfilando sessenta passos

de infante delícia

pra lá  pra cá

feito um pêndulo

e as setas dos caminhos.

 

Abril 30, 2008

Linhas paralelas:

encontro

no oco

entre elas.

Abril 30, 2008

Na bolsa de todos os dias, o menor peso possível. O critério é amplo e aplicável às coisas que se leva a tiracolo: se não for usar, não leve; e se for necessário, tenha sempre. Mas não é só isso: a nécessaire e o estojo têm que ser de material leve, o mais leve possível para não acrescentar peso ao que é necessário ter minimamente organizado dentro da bolsa; e têm que ser transparentes: agiliza muito ver onde está o tylenol e o lápis sem ter que tirar tudo de dentro. A merendeira (huah!) é de tecido pra não acumular volume e peso supérfluos – já chega o iogurte, a colher, a banana o mamão e os biscoitos.

 

O único luxo do excesso são batons: gosto de pelo três de diferentes cores, mas ainda assim aplico critério para deixá-los ou não na bolsa: se só for possível usá-los com a interferência do mindinho, são transferidos para a gavetinha do banheiro. Aproveitar até o fim, só com cotonete ou pincel. E definitivamente, não carrego isso comigo, mesmo que sejam leves feito uma pluma.

 

Mas eis que não tive lá muita escolha: são cento e cinqüenta gramas a mais na minha bolsa por conta do tubo do repelente incorporado ontem à utensiliaria que carrego comigo. Ou é isso ou o risco do Aedes me inocular com a dengue fica tanto maior quanto maior for a exposição dos meus ricos pezinhos durante o lanche antes da aula da noite, quando, dizem os especialistas, os mosquitos atacam em hordas sanguinárias.

 

Assim, antes mesmo de pedir o café que acompanhará as calorias que trago na bolsa, saco a arma poderosa e – dizem – eficiente, e aplico o creme à base de citronela nos pés, avançando perna acima, a depender da largura da calça: quanto mais pantalona, maior o risco de a criatura invisível e enxerida se introduzir entre os vácuos esvoaçantes da calça. Dias desses, para efeito de segurança antes de me render ao peso extra na bolsa, usei botas cano alto. Mas ai … que calor.

 

A graça, apesar do peso extra, é que o repelente é cremoso e deixa a pele até macia. O cheiro de citronela lembra vagamente a perfumaria natureba e se volatiza logo, uns dois minutos depois da aplicação. Espero que pelo menos o que fica retido no creme seja uma muralha intransponível para o bico vampiro do infame mosquitinhozinhoinho.

Abril 3, 2008

ser tão

tanto

ser tão

antes de tudo

só são tão calos os meus dedos

no nada

é que dói

ser então eu a minha alma.

(Poa, setembro de 1990)

Março 8, 2008

Não há sentido em comparar os sofrimentos do passado e do presente, tentando descobrir qual deles é menos suportável. Cada angústica fere e atormenta no seu próprio tempo. (Zygmunt Bauman)

Março 8, 2008

O espírito da liberdade é o espírito que não tem muita certeza de ter razão. (Learned Hand, juiz americano, 1872-1961)

Março 5, 2008

Minha irmã fez trinta anos de casada, e amanhã eu completo 30 anos de carteira assinada. Uma espécie de aniversário, portanto. Minha irmã casou-se no sábado e eu fui procurar emprego na segunda seguinte, acho eu que num movimento que sinalizava – sem que eu pudesse ter visto isso à época – que eu não queria aquele percurso pra mim. Desde o primeiro emprego, no Armazém Florense como balconista até o último antes de querer-ser-professora, tem duas décadas em que passei de balconista a caixa de supermercado, depois telefonista, auxiliar contábil, secretária e se não fosse o pedido de casamento do namorado da época, ser secretária da diretoria da empresa mais importante da cidade seria provavelmente o ápice da minha carreira profissional. Explico: quando ele disse que queria casar comigo, eu vislumbrei um futuro a longo prazo que não me deixou lá muito entusiasmada: embora provavelmente conseguisse ingressar na classe média – ele é engenheiro civil requisitadíssimo até hoje na cidade – nem isso me entusiasmava. Fui substituindo o engenheiro por outros com profissões tão ou menos honrosas enquanto perdida ainda não sabia o que queria da vida. Porém, tinha duas certezas: não queria o casamento-que-estava-destinado-pra-mim e não queria continuar morando com meus pais. Fazia o terceiro ano do ensino médio, à noite, e o vestibular era uma perspectiva interessante. Havia a universidade na cidade vizinha à minha – 15 quilômetros, ida e volta no mesmo dia, e havia a UFRGS, na capital, que eu conhecia de breves visitas domingueiras pra ver o Internacional ganhar do Grêmio no Beira-Rio. Passar numa federal era quase impossível com a minha carreira de estudante: escola pública, noturno, formação técnica – química e física só tive no ginásio. Mas era boa em português, literatura e redação, sabia um pouco de biologia e achei que dava pra arriscar. Era 1985, auge do Plano Cruzado, em que pela primeira vez desde os 15 eu pude ficar sem trabalhar; meu pai concordou que eu só estudasse e disse  “vai que eu seguro tua onda”. E lá me fui, de malas e bagagens, morar numa república na cidade vizinha pra fazer o cursinho e passar na federal. Passei em 1986, o Cruzado já dando sinais do desastre que se seguiria e junto com ele o fim do “paitrocínio”; resultado: lá vou eu procurar emprego pra pagar o aluguel da quitinete, transporte e a refeição do RU. Comecei nas editoras: páginas e páginas de revisão, dava um dinheiro legal, mas os efeitos do Cruzado ainda atacavam meu bolso e fui assessorar o gabinete  de um secretário de Estado e na seqüência, o de um diretor de uma fundação estatal: os famosos “cargos de confiança”. Claro está que a essas alturas, não dava pra conciliar o trabalho com os estudos, pois meu curso era pela manhã e só consegui fazer uma ou duas disciplinas no vespertino. Mas estava estudando na UFRGS, e  morando em Porto Alegre. O governo Simon acabou, entrou o PDT e fui demitida. Voltei pras editoras, e dá-lhe mais alguns milhares de páginas de revisão e preparação de originais, algumas indicações pra revisar trabalhos mais legais e mais bem pagos e me chamam pra trabalhar numa galeria de arte. Aprendi coisas importantes lá, conheci artistas geniais e tratei de lidar melhor com a timidez avassaladora que me dava o status de “bicho-do-mato” no convívio social. De lá, voltei pra assessorar outro secretário de estado, e de assessora fui nomeada diretora e fiquei me achando porque viajava muito, internacionalmente, inclusive. Mas na décima viagem já tava achando saguão de aeroporto um saco, fazer a mala, um suplício e quarto de hotel um horror. Pedi demissão e com um pé-de-meia suficiente pra terminar o curso, fiz oito disciplinas num só semestre. Me formei em 1997 e em 1998, depois de um concurso pra professor substituto, dei minha primeira aula: na UFRGS, no Direito, na turma A do Direito (43 por vaga). A segunda aula foi na Fabico, com os calouros do Jornalismo (28 por vaga). E então encontrei minha praia. Hoje fui ver o que devo fazer pra começar a mexer na minha aposentadoria. Mas parei na primeira consulta. Quero ser profe até que tiver voz e energia, pois recentemente descobri que ser profe é a melhor parte de mim.

Assinei tevê a cabo no finalzinho de 2005. Era dezembro, e a evidência de passar outro verão assistindo BBB me deu calafrios. Desde então, não estive mais submetida à programação da Globo. Ocorre que às vezes a programação da tevê fechada fica ruim, apesar da opção de quatro canais de filmes (bom, só tenho o pacote básico). Na HBO, passa de novo o mesmo filme da semana passada; na HBO2, um outro que eu também já vi; idem no Maxprime e no Cinemax. E aí, sem disposição para outros repetecos, ontem assisti a prova do líder do BBB.  Quando o Bial anunciou o tipo de prova, me animei um pouquinho, porque achei interessante saber como alguém que está confinado há praticamente dois meses jogaria/reagiria a afirmativas que fariam menção a acontecimentos concretos aqui no mundo real. Eles tiveram que dizer Verdadeiro ou Falso, por exemplo, para a renúncia de Fidel, para a destruição de um satélite pelos EUA, para outra lesão de Ronaldinho e para o Urso de Ouro para o Tropa de Elite. Sem analisar as respostas que foram dadas e a intuição/dedução/ que os fez optarem por verdadeiro ou falso, pra mim foi acachapante que ninguém reagiu ao que aconteceu aqui, no lado de fora da casa. A exceção ficou por conta das gurias que ali mesmo deixaram escapar um “nooooooooosssa!” ao saberem que sim, era verdade que os EUA haviam lançado um míssil para destruir um satélite espião danificado. Fiquei pensando que a reação de espanto das gurias deve ter sido motivada por deduzirem conseqüências catastrofistas desta destruição, algo do tipo uma pirotecnia mundial cujos destroços incendiariam florestas, derreteriam geleiras e aniquilariam centros urbanos e campos de soja e rebanhos de gado. Afora isso, ninguém disse “eba, o tropa ganhou o urso alemão”, nem mesmo “tropa premiado!”, fosse com desgosto ou exaltação; ninguém disse “até que enfim” ou “puts, e agora o que será dos cubanos?”; ninguém disse “cara, o Ronaldo pode aposentar a chuteira” ou “que pena, ele vai sofrer mais uma vez”. Nem durante a prova, nem depois dela, pelo menos até encerrar o programa. Bial, em muitas de suas falas com os “lá de dentro”  diz alguma coisa do tipo “o confinamento do jogo é um exercício de autoconhecimento”. Imagine … Depois de ontem, não tenho mais nenhuma duvidazinha infinitesimal que o BBB não passa de umbigolatria.